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Como Nossos Pais revela os dissabores silenciados nas relações humanas
CINÉFILOS
30 ago 2017 | Por Jornalismo Júnior

O longa brasileiro já passou pela Berlinale, pela África do Sul, pela Polônia e França. Foi ovacionado no festival de Gramado e ganhou espaço na boa crítica de grandes veículos internacionais. Como Nossos Pais (2017) é a mais nova produção de Laís Bodanzky, e já vem dando o que falar antes mesmo de sua estreia nacional.

O filme tem como enfoque a vida de Rosa, personagem interpretada com maestria pela atriz Maria Ribeiro. Rosa é uma mulher como eu, como você, como nossas mães e conhecidas. Ela lida com dificuldades diárias e com a pressão de executar sempre perfeitamente as suas ações. Lida com uma rotina multitarefada e com as responsabilidades da vida adulta. Com emoções, ilusões e desilusões. Rosa tem 38 anos, duas filhas, um marido ausente. Ela ama escrever peças teatrais, mas trabalha produzindo catálogos de cerâmica de banheiro. Ela está frustrada profissionalmente e fatigada com a necessidade de ser a mãe ideal, a esposa ideal, a mulher ideal. Mas sua vida ainda está nos trilhos, apesar dos trancos e solavancos.

Até que sua mãe, Clarice, decide revelar, entre discussões calorosas no almoço de família, que o pai biológico de Rosa não é aquele que a criara: “Você foi concebida em minha viagem à Cuba, e o Homero não estava lá. Eu tive um caso rápido.” Foram estas as palavras escolhidas por Clarice para tornar público o agonizante segredo que guardava há 38 anos.

A partir daí a bolha estoura — ao estilo do conto Amor, de Clarice Lispector — e Rosa já não mais se enxerga como antes. Ela adentra numa intensa crise identitária, abalada pelos constantes golpes no emprego, em casa, nas relações com o marido Dado (Paulo Vilhena), com a mãe e com a figura de um novo pai. Repentinamente, toda a vida da protagonista se resume a consecutivos fracassos. Mas a narrativa, apesar de excessivamente conflituosa, não perde a fluidez graças à rica e bem lapidada construção dos personagens: Maria Ribeiro desempenha Rosa com sinceridade e força tremenda; Clarisse Abujamra dá vida à sua xará, Clarice, atribuindo uma mescla de dureza, sensibilidade, segurança e fraqueza a sua personalidade; Já Homero, o pai de criação, torna-se um show à parte nas mãos do cantor e filósofo Jorge Mautner, embebido em graça e leveza tão diferentes do que se vê na filha. Ele é aéreo, cômico, de bem com a vida, e a relação entre ele e Rosa se mantém harmoniosa, mesmo com a revelação sobre a verdadeira paternidade.

Os questionamentos presentes no longa sobre a estrutura familiar tradicional, sobre o abismo que separa os homens e as mulheres e sobre machismo são universais e tiveram grande receptividade pelo público, desacostumado a vê-los representados na grande tela. “Esse tema da mulher contemporânea não pertence só ao Brasil. A gente já notou, fazendo sessões lá fora, que é um tema sobre o qual todas as mulheres querem e precisam falar, mas que os homens também estão muito abertos para discutir. E o mais interessante é que os jovens, que ainda nem formaram família, estão loucos para falar sobre esse assunto. Eles não conseguem se imaginar dentro desse formato”, contou Laís Bodanzky, em coletiva de imprensa. Reiterou, também, que “a intenção do filme não era, de forma alguma, colocar o homem contra a mulher, a mulher contra o homem. Não é um contra o outro. São os dois juntos, reinventando as regras do jogo. (…) Os conflitos são naturais entre mulheres, entre gerações, entre homem e mulher. Eles existem e eles nunca vão deixar de existir.”

Não seguindo um modelo popular, que visa atingir grande massa de espectadores, nem tampouco destinado a um nicho de público seleto, Como Nossos Pais está entre os dois extremos. A fotografia é simples, limpa, natural, o que contrasta positivamente com uma temática tão complexa. A música é pontual, aparece de quando em quando. As atuações, mais uma vez, louváveis. A novidade no roteiro foi que Laís deixou de ser coadjuvante na produção, liderada nas criações anteriores (Bicho de Sete Cabeças, As Melhores Coisas do Mundo) por Luiz Bolognesi, seu marido. Dessa vez, a diretora escrevia, Luiz apenas opinava. “Rosa é uma mulher da minha geração e eu me identifico muito com ela. Eu pude expressar os meus pensamentos, o que já senti na minha própria pele. Além disso, é importante, para mim, que as mulheres se reconheçam no filme, que se identifiquem e usem isso para melhorar a vida delas. Eu acredito que um filme pode mudar a vida de uma pessoa, e eu espero que Como Nossos Pais possa mudar a vida de várias famílias, de várias mulheres, de várias gerações”, explicou Bodanzky.

O filme estreia no dia 31 de agosto, e traz à tona uma discussão necessária e urgente no Brasil. Não somente sobre machismo, mas sobre as mais diversas relações humanas. O relacionamento entre mães e filhos, entre pais e filhos, entre pais e mães. Entre mulher e mulher, entre irmãos, entre gerações. Fala de trabalho, de escola. Contrasta morte e vida. Em Como Nossos Pais, vemos o cotidiano como é, de fato. Com todas as suas forças.

 

Trailer Oficial:

por Laura Molinari
lauratmolinari@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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