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Como Pantera Negra se encaixa nas novas políticas da Arábia Saudita
CINÉFILOS
03 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Matheus Oliveira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Sucesso de público e de exibições, o filme Pantera Negra (Black Panther, 2018) ganhou recentemente mais um feito: foi o primeiro filme a ser exibido na Arábia Saudita após 35 anos em que as salas de cinema eram proibidas no país. Com isso, o filme expandiu seu número de exibições pelo mundo e se garantiu como a 9ª maior bilheteria mundial de todos os tempos.

Por que Pantera Negra foi o primeiro filme a estrear na Arábia Saudita após 35 anos?

A questão não é tão fácil de ser analisada: faz parte das recentes reformas propostas pelo príncipe herdeiro Mohamed bin Salman para modernizar o país e estreitar suas relações com o Ocidente, tornando a tradicional política ligada ao Islã mais “moderada” e criando o programa chamado de “Visão 2030”. Além da abertura das salas de cinemas, também ocorreu a permissão da licença feminina para dirigir e diversificar sua economia local.

Essa modernização promovida vai de oposição à história do país, marcada pelas tomadas de poder, hostilidade entre grupos religiosos, complicadas linhas sucessórias e alinhamento com os Estados Unidos e Israel. Nas décadas de 1950 e 1960, o Oriente Médio viveu um conflito que muitos analistas chamam de “Guerra Fria Árabe”. Os pólos eram a Arábia Saudita, tradicionalista e religiosa, e o Egito de Gamal Abdel-Nasser, pan-arabista e socialista. Neste período, em uma decisão que traria amplas repercussões para a região e todo o mundo, o governo da Arábia Saudita decidiu acolher em seus territórios integrantes da Irmandade Muçulmana expulsos de seus países. Fundada no Egito no fim dos anos 1920, a Irmandade nasceu como um movimento que pregava a islamização do Oriente Médio como forma de combater o colonialismo e o imperialismo. Com esse programa, se tornou alvo de Nasser, e muitos de seus integrantes, no Egito e em outros países, como a Síria, procuraram refúgio no exterior.

Uma vez instalados na Arábia Saudita, os irmãos muçulmanos ganharam destaque na mídia e no sistema educacional saudita, tanto como professores quanto como executivos, responsáveis pelos currículos escolares e universitários. Em pouco tempo, o islã político da Irmandade Muçulmana se fundiu com o wahabismo, da Arábia Saudita, que sustenta o governo local desde sua fundação. Essa junção deu origem a um movimento que entrou para a história com o nome de al-Sahwa al-Islamiyya (Despertar Islâmico), ou Sahwa. Tratava-se de uma mistura entre as duas escolas de pensamento, cuja ideologia está na base do pensamento de grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, por exemplo.

Nos anos 1990, a Sahwa ganhou tal tamanho na sociedade saudita que se tornou a principal oposição à monarquia local, questionando a legitimidade da realeza e se suas práticas eram genuinamente islâmicas. Enquanto alguns dos integrantes do movimento eram pacíficos, muitos se tornaram jihadistas (utilizavam da luta armada e do extremismo). Uma intensa repressão foi realizada desde a década de 1980, em resposta à ascensão de ativistas islâmicos, e o governo passou a censurar a cultura, o que incluía teatros e cinemas. E uma nova onda de prisões de clérigos ocorreu no início dos anos 2000, pouco depois do 11 de Setembro. Ao mesmo tempo, como a força política desse grupo se diluiu, o Estado saudita passou a acomodar algumas figuras que não ultrapassavam linhas vermelhas, como questionar a monarquia ou insuflar atentados.

Em entrevista ao The Guardian, MSB, como o príncipe é conhecido, disse que seus projetos direcionados ao país fazem parte do que ele chama de “Islã moderado”, porém, o país nunca foi moderado. O wahabismo, base dos monarcas, é uma interpretação literal dos segmentos do islã, que tradicionalmente tem como seus maiores inimigos os muçulmanos não wahabistas, em especial sufis e xiitas. Com o ativismo político assimilado pelo wahabismo após a aproximação com a Irmandade e com a ameaça do Irã revolucionário, a monarquia saudita tratou de exportar essa ideologia. Neste contexto surgiu o movimento jihadista internacional. Com o impulso das políticas externas, a posição dos menos extremistas serviu para a monarquia continuar desfrutando da legitimidade derivada do wahabismo, e ainda sim, prendendo e expulsando aqueles que forem extremistas ou conservadores no seu novo modelo político de influências ocidentais.

Imagem: Matheus Oliveira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Mas o que estaria por trás dessa escolha do filme como “iniciador” para esse movimento no país?

A escolha do filme Pantera Negra partiu da parceria entre a Marvel e a AMC, uma das maiores redes de cinemas do mundo, com MBS. O filme teve boa recepção ao redor do mundo e era o último lançamento recente antes de Os Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, 2018). Mesmo com os boatos de que a escolha partiu do fato do filme apresentar o personagem central T´Challa (Pantera Negra) como um destemido e forte guerreiro que tenta garantir a segurança de seu povo e de seu trono, fazendo uma “alusão” ao príncipe que recentemente prendeu onze príncipes e dezenas de ministros e chefes de Estado por corrupção, Adam Aron, o presidente e executivo-chefe da AMC Entertainment, que inaugurou o cinema, disse em entrevista ao The New York Times que levou sua empresa à Arábia Saudita depois que conheceu o príncipe em seu palácio. Mas ele não quis dizer se via semelhanças nas duas histórias. “É um ótimo filme, teve grande sucesso de público, e achamos que deixaria todos contentes”, disse Aron, que esteve na cidade para a projeção. A AMC pretende abrir pelo menos 40 cinemas em 15 cidades sauditas nos próximos três a cinco anos, segundo ele, e gostaria de abrir mais cem dentro de cinco a dez anos. “Temos uma grande visão e um grande sonho para a Arábia Saudita”.

Rei T’Challa (Pantera) e o Príncipe Mohamed (Imagens: Reprodução/AFP)

 

Mesmo havendo essa consideração da imprensa internacional pelo evento de exibição (ocorrido no dia 18 de abril), ele contou apenas com membros da realeza, ministros de governos e astros das redes sociais, em novas salas de exibições da AMC na capital do país, Riad. Para a maioria da população que deseja conferir algum lançamento, muitos se deslocam para países vizinhos como Bahrein, Emirados Árabes Unidos ou assistem à TVs por satélites. Essa modernização e liberação dos costumes no país conservador chegam a um momento onde o país se mostra cada vez mais aliado aos interesses de sua região, sendo ainda um grande parceiro comercial dos Estados Unidos na exportação de seu petróleo, apoiando Israel e sendo contra o presidente da Síria nas tensões políticas ali presentes.

Apesar da proibição de anos anteriores e de não existirem cinemas amplamente abertos ao público na Arábia Saudita, jovens cineastas do país receberam apoio governamental e reconhecimento recentemente. O governo apoiou um festival de cinema saudita que aconteceu nos últimos anos na cidade de Dhahran, no leste do país. Em 2013, o filme O Sonho de Wadjda (Wadjda, 2012) fez história ao se tornar à primeira indicação saudita para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A produção, porém, não ficou entre as cinco finalistas. O filme narra a história de uma garota de 10 anos que sonha em ter uma bicicleta igual à de seus amigos garotos no bairro ultraconservador onde meninos e meninas frequentam escolas separadas. Dessa forma, o cenário Saudita tem muito potencial a ser explorado e esperamos ver suas produções em breve.

 

Para saber mais:

A Arábia Saudita promete uma versão moderada do islã. É possível? (Carta Capital)

Rei autoriza mulheres a obterem licença para dirigir na Arábia Saudita (G1)

Arábia Saudita exibe ‘Pantera Negra’ em teste para abertura dos cinemas (Estado de Minas)

Pantera Negra será o primeiro filme exibido na Arábia Saudita em 35 anos (Canaltech)

Com ‘Pantera Negra’, Arábia Saudita marca data para volta dos cinemas (Folha de São Paulo)

por Beatriz Cristina
beatrizcristina.sg2000@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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