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Compromisso com o interesse público e a ética são parâmetros fundamentais na prática jornalística
SALA DE IMPRENSA
05 jun 2023 | Por Carla de Oliveira Tôzo*

As pessoas têm necessidade – talvez até um instinto – de saber o que acontece além da sua existência, por isso, compartilhamos informações a todo o momento. Dessa forma, a notícia satisfaz esse impulso e o jornalismo é o “sistema” criado para “fornecer” essas informações.

A notícia é retratada por meio de um formato para facilitar a divulgação de um acontecimento, fato, seja ele político, social, econômico, cultural, natural, entre outros, e que afeta de alguma forma indivíduos ou grupos significativos da sociedade. A premissa é que para ser publicada, a notícia precisa ser relevante, ter interesse público. É importante destacar também que o processo de escolha da notícia é subjetivo, ou seja, os critérios que norteiam essa escolha são determinados pelo interesse do meio/mídia (organizações jornalísticas), do profissional (jornalista) e também do público.

Mas há uma diferença grande entre interesse público e interesse do público. O primeiro (uma das principais premissas do jornalismo) pressupõe que, em uma sociedade democrática, as pessoas tenham o direito de receber informações devidamente apuradas que contribuam, promovam o bem-estar social. O próprio Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros*, publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), no artigo 2º, inciso II propõe que “[…] a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”. Já o segundo associa-se mais ao entretenimento disfarçado de jornalismo do que ao jornalismo de fato, em que sua produção segue mais os parâmetros do mercado, do lucro, da busca exagerada pela audiência.

A prática profissional deve estar alicerçada nos princípios e nas técnicas fundamentais do sistema de produção jornalística, ou seja, precisa seguir alguns atributos básicos, como atualidade, difusão coletiva, compromisso com o interesse público e ética, portanto, é nosso papel oferecer informação de qualidade, mesmo quando o tema possa parecer menos relevante.

Aliás, no dia a dia precisamos equilibrar todos esses atributos – desde a escolha da pauta até a publicação – com o interesse do nosso público, afinal, não sobrevivemos sem audiência.

            Seja através das reportagens sobre o luto (LABORATÓRIO), a trajetória do Rei Pelé (ARQUIBANCADA), literatura sáfica (SALA 33), a falta de representatividade árabe e muçulmana no cinema (CINÉFILOS) e insegurança alimentar (JPRESS) que estão na lista dos cinco mais acessados quanto nos demais textos produzidos, tenho certeza de que os repórteres e editores da Jornalismo Júnior pensaram nessas questões.

            Estruturalmente são textos agradáveis de ler, mesmo que a pauta não seja tão amena. No entanto, percebo algumas repetições de palavras, escolha de termos não tão comuns e eventuais trechos pouco claros, o que reforça sempre o cuidado com a edição.

Nenhuma dessas observações significa problemas de construção ou compreensão do trabalho jornalístico, mas como ombudswoman, acho importante fazer essas observações. Cito dois exemplos:

O primeiro, “O último adeus: a importância dos rituais fúnebres para o luto e os problemas decorrentes de sua impossibilidade”, de Ingrid Gonzaga, poderia haver uma pequena informação, contextualização (origem, feito, nome de uma obra), entre parênteses sobre o historiador Phillipe Ariès e o autor Jean-Pierre Bayard.

O segundo, “Insegurança alimentar no Brasil: um paralelo entre fome e desigualdade”, Tulio Gonzaga no trecho: “Além de alimentar estudantes, os agricultores familiares promovem campanhas de assistência e solidariedade por todo o país. Agente central no abastecimento interno, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) espera doar 100 toneladas de alimentos com a Jornada Solidária do Natal Sem Fome. (…)”. Como o texto foi publicado em janeiro de 2023, fiquei com uma dúvida cronológica. Essa referência sobre o Natal sem fome se refere ao ano de 2022 ou já é uma projeção para 2023? Acredito que o texto tenha sido feito ainda em 2022 e programado para ir ao ar em janeiro do ano seguinte. Nesses casos, é importante já prever isso na escrita original do texto ou o editor verificar/alterar antes da publicação, sob pena de passar a impressão de publicar um assunto já “velho”.

Sobre a seleção dos temas, os cinco se encaixam perfeitamente em cada uma das editorias. “O último adeus: a importância dos rituais fúnebres para o luto e os problemas decorrentes de sua impossibilidade”, Ingrid Gonzaga e “Insegurança alimentar no Brasil: um paralelo entre fome e desigualdade”, Tulio Gonzaga e “Pelé, O Rei.”, Ingrid Gonzaga, Maria Trombini e Ricardo Thomé são pautas hard news, mas com uma construção narrativa diferente da encontrada na grande mídia. Os dois primeiros têm um olhar social, mais humanizado, reforçando a importância de se falar a respeito dos temas. O último tem uma função mais historiográfica ao contar a trajetória do atleta.

Já os textos mais relacionados à cultura “Literatura sáfica: entre subtextos e pseudônimos”, de Ana Mércia Brandão e “Artistas árabes e muçulmanos no cinema internacional: uma participação marcada por estereótipos e discriminação”, Emanuely Benjamim são muito assertivos ao recortar a pauta na diversidade e, consequentemente, fazer uma construção narrativa mais crítica ao apontar o silenciamento ou visão estereotipada dos temas.

Apesar de as fontes utilizadas em todos os textos serem pertinentes aos temas tratados, sempre é importante buscar outras vozes. Assim, na minha leitura: (1) nos textos sobre luto e literatura sáfica caberia uma fonte personagem. No primeiro caso para falar sobre o sentimento em si ou sobre o projeto e, no segundo, leitoras das obras e artistas mencionadas, ou até uma das administradoras da rede social citada; (2) Na pauta sobre cinema, poderia trazer um especialista que analisasse essa escolha narrativa e ideológica da indústria cinematográfica.

Uma pequena observação

Compreendo que o texto sobre o Pelé tem um papel narrativo de construção de memória e ressalto a qualidade da pesquisa histórica feita pelos autores, mas ao mesmo tempo, penso se um texto muito grande não assusta potenciais leitores.

Sem contar que nos textos extensos é mais fácil escapar alguns erros, como: (1) “onde quando calçou chuteiras pela primeira vez”. Acredito que o correto seja “quando calçou as chuteiras pela primeira vez” ou “onde calçou as chuteiras pela primeira vez”; (2) “pudesse jogar em segurança uma das várias partidas jogadas em excursões internacionais”. Seria “pudesse jogar em segurança uma das várias partidas nas excursões internacionais”. (3) Cuidado com sinônimos. Ok, tento significa gol, mas também pode ser propósito, juízo, cálculo, cuidado, discernimento e etc. Aqui, portanto, a repetição da palavra gol não seria um problema.

Sei que não é um padrão da Jota, mas fica a sugestão para pensarem em textos no formato de séries/capítulos, principalmente, no caso de morte de grandes personalidades.

Considerando esse material em específico, poderia ser: O primeiro sobre a relação dos autores/fãs e todas as homenagens recentes ao atleta. O segundo traria a construção do mito e, o terceiro, falaria da importância do atleta para a seleção brasileira. 

Não são regras fechadas, pois, cada texto tem sua característica, mas fica a observação.

E para finalizar: Boas vindas à nova gestão e equipe. Desejo que 2023 seja um ano repleto de boas pautas.

*Você pode ler o Código de Ética dos Jornalistas no site da Fenaj: https://fenaj.org.br/codigo-de-etica-dos-jornalistas-brasileiros/

*Carla de Oliveira Tôzo é jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, doutoranda em Comunicação pelo PPGCOM-ECA-USP, professora universitária. Foi repórter freelancer em revistas cobrindo temas ligados a beleza, saúde e estética.

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