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A carne animal é o alimento das pandemias?
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01 jul 2020 | Por Guilherme Gama (guilhermegama@usp.br)

A Covid-19 vem acometendo o mundo todo desde meados de 2019 e início de 2020. Ainda que seja desconhecido até o momento qual, de fato, foi o transmissor do vírus de ampla disseminação à espécie humana, sabe-se que seu início se deu no mercado de animais silvestres na cidade de Wuhan, na China. Nesse sentido, assim como a maioria das outras zoonoses, doenças transmitidas entre animais e seres humanos, contemporâneas, o cenário no qual emergiu o novo coronavírus envolvia a interação humana com a vida animal para fins de consumo.  

Ainda que existam lacunas quanto à natureza deste e de outros patógenos que assolam a humanidade, um aspecto se torna cada vez mais explícito: o protagonismo animal em suas origens. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 70% das doenças que infectam humanos nas últimas décadas têm animais em sua gênese, o que nos leva a questionar a relação que a humanidade tem desenvolvido com o ambiente e como se dá biologicamente o surgimento de  “novos” vírus.

 

Consumo de animais silvestres

Em primeiro momento, nota-se uma certa proeminência chinesa no senso comum quando o assunto é pandemia, tanto porque não é a primeira vez que o país é palco de uma crise sanitária quanto pelos estereótipos referentes aos hábitos alimentares orientais, que incluem, muitas vezes, animais de vida silvestre, diferente do modelo de cardápio ocidental. Em entrevista ao Laboratório, Sérgio Greif, biólogo formado pela Unicamp e ativista pela causa vegana, afirmou que, quando se trata de pandemia, o consumo de animais exóticos apresenta um maior risco quando comparado aos animais de criação, uma vez que ovelhas, porcos e vacas, por exemplo, tem interação com a espécie humana há cerca de 12 mil anos, desde o início da domesticação. Logo, grande parte da carga patogênica contida nesses animais já está em contato com nossos organismos há gerações. Assim, a maioria das doenças transmitidas por eles, além de serem identificadas, possuem tratamento.

Comércio de animais silvestres na capital de Gabão, Libreville. Imagem: The Washington Post.

Comércio de animais silvestres na capital de Gabão, Libreville. Imagem: The Washington Post.

Em contrapartida, pouco se conhece sobre a vida selvagem. Segundo Greif, esses animais são reservatórios naturais de cerca de 1,7 milhão de  vírus ainda não identificados, que  poderão vir a causar doenças, sendo, portanto, fontes diretas de transmissão. Além disso, a indústria que move o consumo de carne exótica captura os animais em seu ambiente natural, havendo baixo domínio quanto à saúde desses seres, diferente da industrial de gado, que apresenta sistemas de controle, vigilância e fiscalização sanitária.

Para mais, de acordo com o biólogo, a intensificação da exploração e dos fluxos comerciais são responsáveis por trazer à tona vírus que já estavam em contato com civilizações mais isoladas, transmitidos por animais silvestres. De acordo com ele, o próprio HIV, vírus causador da aids, já circulava em populações africanas, transmitido pelo consumo de carne de primatas, desde antes do século 20. Mas, a propagação internacional só se deu com o avanços das linhas férreas, meio à globalização.

 

Consumo de animais domésticos

Porém, a produção de animais domésticos também tem responsabilidade na emergência de zoonoses. Ou seja, embora comumente passem despercebidos, os processos decorrentes da pecuária intensiva e extensiva que levam carne à mesa da população têm impactos que colocam em risco a saúde internacional e nos conduzem a questionar o nossos hábitos alimentares.

 

Pecuária Extensiva

A pecuária extensiva é caracterizada pela criação a pasto. Em amplos espaços, o cultivo se dá com o animal solto, sendo a forma predominante no território nacional. Por tais características, este manejo está, muitas vezes, ligado ao avanço humano em áreas florestais, nas quais se retira a cobertura vegetal para a pastagem. Segundo estudo da FAO, entre 1990 e 2005, mais de 80% do desflorestamento ocorrido do Brasil se deu pela demanda de pasto. Questionado sobre esse quesito, Greif disse que quando desmatamos áreas selvagens, aceleramos o processo de contato de populações humanas com vírus que circulam em populações selvagens: ”Um desmatamento nas florestas do Congo, por exemplo, colocou populações humanas em contato com morcegos que são reservatórios do vírus do Ebola, altamente letal.”

Para além disso, outros impactos ambientais decorrentes de ações antrópicas favorecem cada vez mais o início de novas pandemias. De acordo com uma pesquisa da Janice Reis, médica veterinária pela Universidade Federal de Minas Gerais, realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), além das mudanças de nichos ecológicos provocadas pela perturbação industrial, como a migração de mosquitos e roedores para cidades e mudanças climáticas, os surtos de doenças também são associados às consequências agropecuárias. Um exemplo foi o surto da febre viral Rift Valley na África, relacionada à mudança dos rios e às enchentes ocasionadas por represas ou chuvas torrenciais na região, devido à alteração na dinâmica hídrica natural pela ação antrópica.

 

Pecuária Intensiva

A criação intensiva tem como característica a reclusão do gado em pequenos espaços com maior anteparo tecnológico. Nessa indústria, o confinamento do gado representa um dos fatores influentes para a emergência de zoonoses. Eduardo Bessa, biólogo pela Universidade de São Paulo, especializado em comportamento animal, contou em entrevista ao Laboratório que, embora nesse contexto o gado esteja mais protegido de patógenos silvestres, em comparação com uma área recém desmatada da floresta amazônica, a limitação de espaço e o ambiente pobre em estímulos conduz ao estresse, que, por sua vez, tem efeito dramático na imunidade, o que deixa os animais de rebanho mais suscetíveis a doenças.

Greif completou afirmando que, deste modo, surge a necessidade constante de fornecimento de antibióticos, ocasionando o desenvolvimento de microrganismos resistentes, o que retroalimenta as doenças. Ainda assim, a médica veterinária e doutora em comportamento e bem-estar animal, Janaina Braga, diz que é fundamental atender as necessidades básicas dos animais para que toda a cadeia não pague um preço caro por conta da disseminação de doenças.

Animais bovinos em confinamento na pecuária intensiva. Imagem:

Animais bovinos em confinamento na pecuária intensiva. Imagem: Freepik.

Para além disso, a aglomeração artificial, isto é, o convívio forçado de diferentes espécies no mesmo recinto, propicia, de acordo com Greif, o rompimento de barreiras virais entre elas, através de mutação ou recombinação genética, originando uma nova variação do patógeno capaz de infectar organismos antes não acessados por ele. Essa ocorrência, apesar de favorecida na pecuária intensiva, também pode acontecer em ambientes de criação familiar, como no caso ilustrado no episódio A próxima pandemia do documentário Explained: Em uma fazenda no Kansas, Estados Unidos, no começo do século2 0, um humano com gripe compartilhou o mesmo espaço que uma ave também infectada. Embora os vírus não pudessem infectar as espécies hospedeiras um do outro, ambos infectaram um porco que ocupava o mesmo local, sofrendo recombinações. Assim surgiu o H1N1, a chamada “gripe suína”. À medida que a indústria agropecuária se amplia, a aglomeração artificial tende a aumentar, deixando a preocupação do que pode estar por vir.

 

Transporte e Alimentação

Entretanto, a indústria da carne não é estática, ou seja, ela se movimenta muitas vezes em proporções continentais antes de levar a carne às nossas mesas. De acordo com Greif, esta é mais uma problemática, pois o transporte de animais vivos entre regiões, como por exemplo o embarque de bovinos no Brasil enviados para o abate no Oriente Médio, pode implicar no envio de doenças desconhecidas para a região. Braga deu destaque do papel essencial da vigilância sanitária no Brasil, ressaltando a eficácia dos programas de controle e erradicação de doenças de órgãos como o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). Entretanto, Greif alertou que o controle sanitário é feito apenas com relação às doenças já conhecidas, mas não em relação às novas que podem surgir em uma região e, posteriormente, se disseminar para outras por meio deste deslocamento artificial.

Embarque de animais em Santa Catarina com destino à Turquia. Imagem: Portos e Navios.

Embarque de bovinos em Santa Catarina com destino à Turquia. Imagem: Portos e Navios.

A ingestão da carne, por sua vez, mostra-se apenas um detalhe meio a todo os riscos contidos no processo. Para Greif, assim como no caso do coronavírus, em grande parte das zoonoses o contágio não se deu pela ingestão de carne propriamente dita, mas pelo contato humano com a vida animal. Porém, segundo a pesquisa da Embrapa mencionada, agentes infecciosos também podem ser transmitidos pela carne, destacando o caso da encefalite espongiforme bovina, que emergiu do gado bovino no Reino Unido e rapidamente alcançou centenas de casos no país.

 

Como mudar a relação com o consumo de animais?

Para Braga, fica evidente a necessidade de conscientizar a população sobre os riscos de se consumir produtos de origem desconhecida. A médica veterinária diz que estamos no caminho certo para superar os desafios: “Dos anos 1990 a 2019, aumentamos a produtividade em 169% ao mesmo tempo em que reduzimos o uso das terras em 15,5%”. Em sua opinião, os humanos e os animais deveriam estar em equilíbrio no ambiente, de modo interligado, e  “o bem-estar animal é o coração da sustentabilidade, assegurando vitalidade econômica aos sistemas, protegendo a saúde das comunidades e mantendo o ambiente em equilíbrio”. 

O ativista Greif afirma, no entanto, que não basta apenas modificar a forma como criamos animais, “precisamos da manutenção do equilíbrio dos ecossistemas, o que impedirá a migração de animais silvestres do meio selvagem para o meio antrópico, assim como o abandono das práticas de caça, criação animal, manipulação de carne e sangue de animais”.  

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COMENTÁRIOS
Ana Maria Mendes
Eu amei a matéria! Achei a reflexão muito válida, definitivamente me faz olhar pras rotina alimentícia com outra perspectiva. Muito bom!
04 jul 2020
 
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