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A intrigante e surpreendente jornada de loucura em Coringa
CINÉFILOS
02 out 2019 | Por André Derviche (andrederviche@usp.br)

Desde a morte de Heath Ledger, intérprete do Coringa em Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), o personagem nunca mais foi o mesmo. Se nos quadrinhos e animações, novas facetas puderam ser exploradas, nos cinemas, a responsabilidade deixada pelo vencedor do Oscar parece ter pesado. Mais um motivo para duvidar de uma produção solo para o vilão. Mas quem poderia imaginar? Em meio a tantos filmes ambientados no universo de super-heróis, Coringa (The Joker, 2019) é uma grata surpresa.

O primeiro passo para sustentar essa ideia quase insana foi ter no elenco um nome de peso. Depois de Gladiador (Gladiator, 2000) e Ela (Her, 2013), Joaquin Phoenix já poderia ser considerado um dos principais atores do século. Era o nome perfeito para, não só honrar o legado de Ledger, como também explorar as várias camadas de um sujeito tão complexo como o Coringa pode ser — aqui humanizado pelo comediante falido Arthur Fleck.

O resultado de uma combinação como essa não podia ser melhor. Joaquin Phoenix entrega um trabalho maestral para o público. Um simples olhar ou uma fala mais carregada são suficientes para que se crie um deleite aos aficcionados por boas atuações. Phoenix, com sua performance inspirada e peculiar, encontra identidade própria em meio a tantas versões do personagem. Seu Coringa desperta pavor e empatia em quem o assiste.

Arthur Fleck se prepara para uma de suas apresentações [Imagem: Reprodução]

Igualmente audaciosa, a decisão para o cargo de diretor também pareceu acertada. Todd Phillips se consagrou em Hollywood pela trilogia Se Beber Não Case, uma das principais comédias dos últimos anos. Apesar de apresentar sequências mais descontraídas, se tem uma coisa que Coringa não busca ser é uma comédia.

Extraindo o melhor de Joaquin Phoenix e apoiando-se em uma fotografia que explora o lado mais sombrio da cidade de Gotham e em uma poderosíssima e contagiante trilha sonora, Phillips busca, a todo instante, construir uma originalidade que há muito não se via em filmes do gênero.

[Imagem: Reprodução]

A própria premissa do longa já é desconstruir conceitos quase dogmáticos entre os fãs de quadrinhos. Ter um filme protagonizado por um dos mais populares vilões dessas histórias — ainda mais sem seu arqui inimigo Batman — sem dúvidas foi uma das aventuras mais intrigantes dos últimos anos em adaptações cinematográficas. O conceito de antagonista é completamente renovado.

Aos mais chegados às HQs, não serão poucas as associações feitas entre o filme e obras como Batman: A Piada Mortal, de Alan Moore, ou Coringa, de Brian Azzarello. O Palhaço do Crime está mais uma vez imerso na loucura, porém, aqui suas motivações são diferentes e seus inimigos são outros. É construída uma visão revigorante para o personagem.

Coringa também mostra que o universo de super-heróis vai muito além de uma fantasia utópica. É o reflexo da realidade, de um mundo muito mais profundo em que até as histórias mais otimistas e idealizadas possuem um lado mais sombrio. Há aqui um subtexto que não só abre espaço para questões psicologicamente densas, como também conversa perfeitamente com o caminho da loucura e emancipação trilhado por Arthur.

Apesar disso, quando o roteiro coloca situações que aparecem só para a evolução do personagem (forçadas, por assim dizer) torna-se pouco criativo. Nesse sentido, o filme poderia ir além com um personagem menos distante da realidade do público.

[Imagem: Reprodução]

Temas como conflitos sociais, a sociedade do espetáculo, a criação de ídolos ou o ciclo de degradação moral do ser humano acabam como base para que aquela história funcione. Tais elementos são complementados por violência gráfica e psicológica, que garantem identidade ao longa. Mais que isso, o público termina presenteado com reviravoltas dignas de calafrios ao longo do enredo.

Coringa é um retrato perturbador de um indivíduo deslocado na sociedade. Muito mais que uma história de um vilão dos quadrinhos, o longa chega a ser uma análise quase patológica da sociedade. A atuação grandiosa de Joaquin Phoenix e a profundidade do roteiro ofuscam problemas como uma leve inconsistência narrativa e garantem uma obra ousada, cuja experiência certamente não se limitará ao tempo passado na sala de cinema.

O longa chega aos cinemas no dia 3 de outubro. Confira o trailer abaixo:

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