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“Criminal Minds” e a utilização do criminal profiling
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10 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Karina Merli (karina.merli@gmail.com)

 

Criminal Minds é uma série da CBS, com 13 anos de bagagem. A história se passa dentro do Federal Bureau of Investigation (FBI), mais especificamente na Unidade de Análise Comportamental (UAC). Por lá, uma equipe de elite enfrenta o desafio de delimitar a lista de suspeitos de crimes em série ou sem provas conclusivas, através do Criminal Profiling, e chegar ao verdadeiro culpado. Cenas de ação, mortes e drama são bastante recorrentes, mas a forma como os agentes conseguem saber o perfil do infrator é algo estarrecedor.

A série

Na trama, atualmente, a equipe é comandada por Emily Prentiss (Paget Brewster), manteve-se ao longo dos anos, algo que é uma raridade para um seriado tão longo. David Rossi (Joe Mantegna), Penelope Garcia (Kirsten Vagsness), Jennifer “JJ” Jareau (A.J. Cook) e, principalmente, Spencer Reid (Mathew Gray Glubber) estão em Criminal Minds desde as primeiras temporadas.

Em relação à trama, há uma grande preocupação em não restringir as personagens somente ao seu trabalho. Frequentemente, o telespectador é direcionado à vida pessoal delas e se envolve muito com a história de cada uma. Não por acaso, muitos fãs já derramaram algumas lágrimas.

Ao longo dos recém completados 300 episódios, algumas situações foram ao extremo, deixando quem assistia bastante nervoso diante de tamanho drama. Os criminosos, em alguns episódios, chegam aos agentes ou aos seus familiares e amigos. Lógico que os envolvidos insistem em exercer o cargo da mesma forma, mesmo que a ordem seja ficar de fora das investigações.

Na prática, porém, de acordo com o professor Leonardo Ferreira Faria do IBEPJ, isso compromete o caso: “Os profissionais evitam trabalhar em situações em que há contexto de familiaridade ou vínculo social e familiar. Mesmo se fizessem isso, a atividade ficaria comprometida por ter envolvimento de caráter pessoal, interferindo, assim, na análise, apuração e entendimento por parte do profissional”.

Um ponto que é bastante abordado na série é a assinatura do infrator. Segundo Faria, “ela é definida de acordo com um tipo de comportamento durante o crime, que não faz parte e excede do que é necessário para a execução dele. A assinatura está relacionada com as fantasias e, frequentemente, envolve parafilias, que são fantasias ou comportamentos frequentes, intensos e sexualmente estimulantes, envolvendo objetos inanimados, crianças ou adultos sem o seu consentimento, com sofrimento ou humilhação de si próprio ou do parceiro”.

“Pode ser de caráter pessoal e ter relação direta com a necessidade e justificativa do ato criminoso”, complementa. Há casos em que ela não é tão evidente e cabe ao profiler fazer uma apuração detalhada com determinação e paciência.

O perfil da vítima, assim como é mostrado em Criminal Minds, é muito importante nas investigações da vida real. “Ele irá direcionar para a motivação criminal e, desta forma, conduzir para o esclarecimento e a relação existente entre vítima e acusado. Esta análise pode fornecer informações sobre o agressor desconhecido (características e traços), sugestões de investigação e estratégias para entrevistas e ensaios”, explica o professor.

Porém, nem tudo é absolutamente verídico. A entrevista cognitiva, por exemplo, é, na verdade, uma hipnose e, em âmbito judicial, a declaração da vítima neste estado não pode ser usada. Além disso, o perfil não é passado na frente de alguns policiais, que tomam notas de tudo que está sendo falado. Na prática, é algo mais informal e dialogado. O jatinho utilizado pela equipe também não é cinco estrelas, como aparece na trama.

O elenco é multitarefa. Em vários episódios é comum um ator ou outro dirigir as cenas, como a Aisha Tyler (Tara Lewis), Mategna e Adam Rodriguez (Luke Alvez) já fizeram na atual 14ª temporada, que estreou no último dia 26 de setembro. Ademais, em termos de roteiro, a equipe conta com um ex-agente do FBI, Jim Clemente.

Entretanto, o clima entre a emissora e o drama policial não é dos melhores. No final da 13ª temporada, não havia sequer expectativas de renovação, mesmo com o último episódio dando ares de continuação. Nos últimos anos, a audiência da série tem apresentado queda e as renovações ocorrem na última hora. Para a temporada atual, a CBS encomendou apenas 15 episódios, tornando-se o ano mais curto da série. De acordo com a presidente da emissora, Kelly Kahl, o número pode aumentar.

 

Equipe completa da 14ª temporada. Imagem: Karina Merli/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

O Criminal Profiling

O perfilamento criminal nada mais é do que um tipo de análise comportamental, que pode auxiliar nas investigações de um crime, durante um julgamento ou no acompanhamento do réu após a decisão da pena. Ele também pode contribuir na prevenção de crimes, em entrevistas e interrogatórios, estabelecer um perfil vitimológico e ajudar no redirecionamento de investigações.

Na concepção da advogada e pesquisadora Verônyca Muniz Veras Medeiros, trata-se, principalmente, de uma junção do direito com a psicologia: “Como o Criminal Profiling é utilizado para auxiliar em investigações criminais, principalmente, com policiais, ele acaba tendo uma relação com o direito, quando se fala em método de investigação ou da parte jurídica. Portanto, é preciso ter conhecimento sobre direito e psicologia para trabalhar com isso.”

Na Europa e nos Estados Unidos, essa ciência é utilizada como evidência em tribunais. No entanto, no nosso vizinho de continente, a prática vem sendo questionada por especialistas justamente pela sua frequência e a falta de discussão sobre o quão confiável, válida e admissível ela é dentro de um tribunal. Ademais, para psicólogos e psiquiatras, a forma como os agentes a empregam é crítica, já que muitos acabam levando mais em conta a sua experiência profissional.

Na concepção de Faria, tudo depende em como a ciência comportamental é empregada. “A confiabilidade irá depender do uso correto das técnicas por meio de toda a teoria científica existente na atualidade. O Criminal Profiling pode ser usado como prova concreta desde que haja confiabilidade, fidedignidade e reconhecimento científico na sua aplicabilidade.”

Já para Medeiros, essa ciência comportamental não pode ser utilizada como único meio de prova. “A ideia é que quando o criminoso for encontrado sejam feitas provas que possam auxiliar nesse perfil criminal. Por exemplo, fazer com que a pessoa confesse ou com que ela faça algum exame que demonstre DNA. Eu vejo que tem como você levar um laudo de perfil criminal para um tribunal, mas ele não pode ser o único meio de prova, porque é muito difícil você explicar e determinar algo no tribunal.”

“Realmente é um método científico, é confiável, mas não é definitivo, já que não tem como se ter 100% de certeza de que a pessoa vai agir de uma determinada maneira. Nós estamos falando de seres humanos e eles são imprevisíveis,” esclarece a advogada.

Assim como na série, a partir da cena do crime, dos relatos de testemunhas ou da vítima, da autópsia e da perícia, por exemplo, o especialista consegue delimitar um perfil do provável criminoso, restringindo, dessa forma, o número de suspeitos. Com base nestes dados, é possível estipular o perfil geográfico, psicológico e físico, além do modus operandi (como ele age) e a motivação.

Dessa forma, torna-se possível saber o próximo passo do infrator ou, no caso de um julgamento, estabelecer ou não a conexão com as provas forenses apresentadas. Porém, o profiler criminal aparece em investigações criminais, principalmente, quando: o crime é violento; há indícios de psicopatologia no ato; os indícios forenses não são conclusivos ou não existem; e as outras formas de investigação já foram exploradas, mas sem resultados satisfatórios.

Cabe destacar que o Criminal Profiling possui diferentes vertentes, que podem ou não serem utilizadas juntas e baseadas em pesquisas, dentre elas estão: a abordagem ideográfica (examina os indivíduos e suas características particulares) e a abordagem nomotética (análise de grupos e de leis universais).

É a partir dessa última que surgem as seguintes abordagens: o Profiling Geográfico  ou Geoprofiling (relação entre a série de crimes e a tal área de conforto do agressor, ou seja, onde ele reside, trabalha, anda habitualmente ou se a zona tem algum significado para ele) e a Psicologia Investigativa (avaliação psicológica do infrator e que engloba todo o processo, desde a gestão até a acusação).

Além das supracitadas, também existem a Criminal Investigative Analysis (é utilizada pelo FBI e, a partir do crime, se caracteriza o criminoso), ilustrada em Criminal Minds, e a Avaliação Diagnóstica (com base em análise psicológica e psiquiátrica é possível saber se o agressor tem um quadro clínico neste aspecto e o contexto crime). É importante apontar que o Criminal Profiling deve levar em conta a realidade e cultura de cada país, por isso, em locais onde ele é mais desenvolvido, a técnica aplicada acaba se diferenciando de outras localidades.

De acordo com a advogada, essas vertentes podem trabalhar juntas, mas na prática isso não ocorre. “Normalmente elas são separadas, porque elas apresentam partes que se destoam totalmente. Cada vertente vai focar em uma área e, muitas vezes, defender a sua importância. As pessoas preferem utilizar uma só para poder ficar mais claro como ela chegou àquela conclusão e como considerou que o criminoso é de uma determinada forma.”

Essa ciência comportamental também é importante para os Direitos Humanos, como explica Medeiros: “Eu acredito que o perfil criminal é uma forma de você compreender o criminoso. Então, você percebe qual é a motivação dele e entende qual é o seu lado biopsicossocial. Pode ser utilizado até como forma de prevenção, de estudo e de aprendizado sobre como funciona a sociedade e quais são as suas consequências para o criminoso.” Além disso, ela pode ser útil para a Criminologia, estudo das causas que levam ao crime e o que pode ser feito para combatê-lo.

Apesar de toda a sua abrangência e de ser uma ferramenta importante no âmbito investigativo e jurídico, não há ainda uma profissão específica de profiler no mundo. Alguns especialistas consideram a modalidade como complementar a outras carreiras, como a de investigador, psicólogo ou criminólogo.

A história

Alguns estudiosos acreditam que os primórdios do Criminal Profiling datam de 1888. O caso seria, nada mais e nada menos, do que o de Jack, o estripador. Os médicos George Phillips e Thomas Bond, a partir dos resultados das autópsias e das evidências encontradas nas cenas dos crimes, procuraram apontar o perfil do acusado de forma rudimentar.

Menos de um século depois, o FBI passou a ser uma das instituições mais importantes para o crescimento desta análise comportamental. No início dos anos 1950, o primeiro contato da organização com as ciências comportamentais ocorreu em meio ao caso Mad Bomber.  Com a ajuda do psiquiatra James Brussel, que avaliou fotos dos 30 atentados ocorridos ao longo de 16 anos, finalmente, conseguiu-se chegar ao verdadeiro culpado: George Metesky. Nos anos 1970, a Behavioral Science Unit (BSU) foi desenvolvida pelos agentes Pat Mullany, Howard Teten, Joh Douglas e Robert Ressler.

A Criminal Investigative Analysis foi baseada em entrevistas de criminosos condenados, algo que é retratado na série Mindhunter (Netflix) e as personagens principais são baseadas em Douglas e Ressler. A advogada detalha como foi esse processo: “Foram estudados e analisados vários assassinos e estupradores em série, arrombadores e incendiários para compreender se eles eram organizados ou desorganizados. Assim, estabeleceu-se que algumas características da cena do crime e do criminoso em si são consideradas organizadas ou desorganizadas”.

O banco de dados do FBI ajuda bastante nas investigações de Criminal Minds, por isso, é frequente vermos Garcia em ação, procurando por crimes semelhantes e sem solução. Mas, na vida real, O Violent Criminal Apprehension Program (VICAP) não é usado tão assiduamente.

A realidade no Brasil

De acordo com o professor Leonardo, a ciência foi trazida para o Brasil graças à especialização de brasileiros na área. “A chegada do Criminal Profiling se deu através de trabalhos acadêmicos e teve uma relevância importante, quando os profissionais brasileiros foram se especializar na Inglaterra após os anos 2000, como, por exemplo, a doutora Aline Lobato e o professor Fernando de Jesus. Estes dois profissionais trabalharam com a técnica em  casos desafiadores, que envolviam homicídios com grande complexidade de elucidação.”

Em termos educacionais a ciência comportamental é ainda uma novidade no país. As instituições que trouxeram o curso preferiram manter o nome original, justamente, para não restringi-lo apenas ao âmbito do infrator. Além disso, as referências são, em sua maioria, internacionais, mesmo na bibliografia, tendo poucos exemplares sobre o tema no país.

A área da pesquisa enfrenta o mesmo problema. Para Verônyca, a falta de estudos práticos impede o avanço da ciência no país: “A maior parte dos estudos que nós temos sobre esse assunto são dos Estados Unidos, da Europa e do Canadá. Nós nos moldamos de acordo com o que foi estudado nesses outros países; sendo que nós temos características muito específicas no Brasil, que nos diferenciam dos demais. Nós precisamos muito da pesquisa para podermos ter mais conhecimento e mais provas de que realmente essa análise comportamental funciona.”

Ela também destacou que há uma pesquisa sobre o perfil geográfico em andamento, no país.

No que tange ao mercado de trabalho, o profissional pode atuar em diversos segmentos: área de pesquisa, consultoria, perícia criminal e até em prevenção de fraudes. Porém, em meios investigativos, ele acaba sendo solicitado como último recurso. A falta de conhecimento e o preconceito em relação à área são os principais entraves.

A cultura de nosso país também não reconhece o valor da perícia, o que implica não só nas situações supracitadas, mas também, por vezes, no comprometimento das cenas criminais, já que na maioria dos casos as equipes policial e pericial não são vinculadas. Ademais, não há regulamentação. Mesmo no caso dos psicólogos não existem recomendações quanto à sua atuação. “Para trabalhar na área é realmente complicado, porque ela está engatinhando ainda,” diz Medeiros.

Outro ponto responsável por essa problemática e apontado pela advogada é a vinda tardia dessa ciência para o Brasil. “O Criminal Profiling existe há mais ou menos 40 anos e, quando ele foi criado, existia uma resistência e um preconceito, além da dificuldade de entender o método científico relacionado com a elaboração do perfil criminal, isso aconteceu entre as décadas de 1960/1970. Como ele não veio para cá nesta época, essas questões estão voltando a ser tratadas, agora, no Brasil.”

Ela também fala sobre a razão do método não ser utilizado como prova nos tribunais do país, mesmo sendo algo possível de acontecer. “As pessoas não lidam muito bem com esta análise comportamental, porque ela não é um método objetivo, claro, baseado em provas físicas. Ela trata do comportamento, então, como existe dificuldade para utilizar essa ciência na investigação, no tribunal é ainda mais difícil, porque existe ainda muita discussão a respeito.”

“Não pode colocar, no Brasil, esse tipo de prova como algo certo, mas é claro que isso é possível e muito interessante. Deveria ser utilizado sim e ter mais oportunidades para que nós usássemos esse método como meio de auxiliar no tribunal. Mesmo que seja só uma forma de explicar como o crime ocorreu e o que levou o criminoso a cometer esse crime,” complementa Verônyca.

Na concepção de Faria, a solução para expandir o Criminal Profiling no país está na conscientização. “O primeiro passo é conscientizar os gestores de segurança pública a respeito da validade e da aplicabilidade da técnica”, explica.

 

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