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Da ficção à realidade, o trovador solitário
CINÉFILOS
02 maio 2013 | Por Jornalismo Júnior

 

Nos gramados da UnB e em algumas garagens de Brasília, o rock nacional da década de 80 ganha um de seus maiores ídolos. Do diretor Antônio Carlos da Fontoura, o longa “Somos tão jovens” convida o espectador a juventude de Renato Russo sob a ótica de sua juventude, vivida em plena Ditadura Militar. Porém, mesmo no dia-a-dia da capital federal , é em seu quarto que o cantor, interpretado por Thiago Mendonça, aparece em sua totalidade, quase da mesma maneira com a qual ainda estamos acostumados a lembrar vê-lo nos palcos ou em entrevistas.

Da intimidade das músicas para o íntimo de seus relacionamentos, é em um ambiente particular que a jornada de Renato Mafredini Júnior em se tornar um astro do rock (ou pelo menos um trovador solitário) é desdobrada. Logo no início, somos convidados a acompanhar o quanto um acidente causado por uma doença óssea e a implantação de três pinos na bacia foram importantes para seu amadurecimento musical e pessoal. De Nietzsche aos Smiths, as influências de Renato no período de sua recuperação são mostradas a fim de compor tudo aquilo que ele tornou-se no futuro.

Após recuperação que envolveu alguns meses de cama, o ritmo progride com a apresentação do punk rock dos Sex Pistols e os primeiros shows do Aborto Elétrico, encadeando uma narrativa de construção, na qual a trajetória de Renato Russo é delineada aos poucos em mais acertos do que erros. Aliás, tal efeito é de se esperar de um filme biográfico, ainda mais quando falamos de um dos grandes nomes da música brasileira das últimas décadas. Dos desentendimentos com os integrantes da banda, passsando pela carreira solo até chegar na formação da Legião Urbana, o filme percorre através das amizades e do cotidiano uma história que ainda não fazia parte do repertório do público. Até certo ponto, tal aprofundamento só faz sentido para grandes fãs, mas, se outro objetivo do filme é conquistar uma geração que só conhece resquícios de Renato Russo, este é também alcançado.

Quando a música deve ser o mais importante

Apesar de não ser a principal intenção, o que se destaca de longe é a trilha sonora. Ora adequando-se à narrativa, ora conduzindo-a, a música foi pensada cuidadosamente para que o único pecado que não poderia ser cometido fosse perdoado nesta produção. Da interpretação das canções de Renato Russo e das bandas, somos levados a acreditar que ainda é relevante a música em meio ao turbilhão de conflitos pessoais que atravessam o filme.

Como falamos de música, é justamente na interpretação dos atores envolvidos que podemos chegar a um acordo: entre a faixa original e a versão para o cinema, a emoção que surge em nas regravações não é para ser deixada de lado. Aliás, foi ressaltado que todas as músicas mostradas no filme foram gravadas durante as filmagens, o que dá maior credibilidade à produção. A visível preocupação com exatidão e qualidade das interpretações alivia o plano da atuação, tornando-a mais espontânea e plausível.

Afinal, quem é Renato Russo?

Thiago Mendonça convence? É difícil responder tal questão quando falamos de uma figura que, tanto dentro e quanto fora dos palcos, é tão convincente por si só. Em certos momentos, principalmente quando é pretendido mostrar certa incompreensibilidade e timidez do jovem cantor, a atuação inquieta pela suposição, dado o privilégio pela imagem quase cinematográfica de Renato Russo da lembrança do público e das gravações. É claro, por não ser um documentário, o filme passa longe de (tentar) uma qualidade referencial.

Talvez a temática de sua vida pessoal fosse melhor abordada apenas através de sua musicografia, mas o filme mostra certos procedimentos que levaram a construção desta, como se possível apreender aquilo que originou sua criatividade e seu modo de ser e agir. Se “Somos tão jovens” não é ruim, mas não podemos negar que seu objetivo foi a construção de um Renato Russo já conhecido, e tal pretensão esbarra naquilo que apenas um documentário pode realizar com maior eficiência.

Se a última cena transporta da ficção à realidade, o oposto é mostrado ao longo do filme: de adolescente inseguro e até o Renato Russo atualizado na memória coletiva, o mito configura-se ao contrário, mostrando que a realidade ainda é o que sustenta, não a construção mitológica que o filme pretende realizar. Qualquer atuação, neste e em outros muitos casos, nunca será boa o suficiente, pois, enquanto personagem do imaginário, Renato Russo já foi interpretado muito bem por ele mesmo.

por Fernando Souza

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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