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Da Grécia Antiga aos Torneios Medievais: Um giro por esportes históricos 
ARQUIBANCADA
30 mar 2021 | Por Pedro Guilherme Costa (pedro.massa@usp.br)

A aurora dos esportes históricos 

Em meio às ruínas da Grécia Antiga, aos restos do imponente Império Romano e aos campos extensos da Europa, há fantasmas de diversos tipos. Dentre eles, alguns ainda vagam pela glória proporcionada pelo esporte de sua determinada época. Atletas do Olimpo, gladiadores e cavaleiros medievais se foram há muito tempo, mas nunca estiveram tão vivos no imaginário popular. Antes isolados, agora coexistem na mídia, mas principalmente pela História. É por meio dela que primeiramente recuperam suas armaduras. 

Como um movimento social expressivo, o esporte se entrelaça com a história do mundo em diversos períodos, sendo essencial em uma análise acerca do funcionamento de uma determinada sociedade. Como explicar a política do Pão e Circo, em Roma, sem esbarrar no Coliseu? 

Trazer essas figuras fantasmagóricas de volta à vida se torna especial quando se aborda o sentido contextual de tais práticas.

Desse modo, a aurora desses esportes não está no momento em que o atleta grego recebeu sua coroa de louros, o gladiador ganhou as honras do imperador ou o cavaleiro derrubou seu oponente do cavalo, mas sim atualmente. A plateia destes períodos não acabou, mas, no momento, entram nos locais de competição por meio de livros e pesquisas de campo. 

Essa matéria do Arquibancada irá abordar não só como eram realizadas algumas modalidades desses períodos escolhidos, mas também realizar observações, de modo geral, sobre o impacto que o esporte como fenômeno social possuiu, destacando sua importância no estudo pela História.

 

Quando os deuses desciam aos estádios da Grécia

Um dos mais antigos estádios gregos, o Estádio Panatenaico, situado em Atenas. [Imagem: Wikimedia Commons]

Antes de mais nada, é necessário esclarecer: essas práticas eram realmente esportes? O professor Fábio de Souza Lessa, doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especializado em diversos temas que abordam a Grécia Antiga, ilumina a questão. Por mais que tenham concepções sobre o estudo do esporte ser algo da contemporaneidade, gregos e diversos outros povos viveram o fenômeno esportivo sem necessariamente teorizá-lo.

Retornar à Grécia Antiga também é retornar ao esporte do povo grego. Os deuses do Panteão da mitologia observavam, em meio às guerras, ao surgimento da democracia, aos grandes pensadores, a prática esportiva florescer. Por meio dela, pode-se tirar um grande contexto do funcionamento do mundo grego. 

Com que frequência o grego médio pensava sobre política? Também é necessário refletir se ele já deixou de ir à guerra por conta das Olimpíadas. Por mais que não seja o foco da matéria, os Jogos Olímpicos reuniram uma grande gama de esportes e se tornaram um verdadeiro referencial desse contexto, que logo se expandiu ao contexto geral da Grécia Antiga. O festival reuniu esportes com apelo militar, eventos que exaltam sua cultura politeísta (diversos deuses) e diretrizes que se baseiam na organização social das cidades e parte da moral da época, entre outros.

As Antigas Olimpíadas eram uma festividade em exaltação a Zeus, o Rei dos Deuses na mitologia grega. Esta sociedade era pautada por rituais religiosos, como bem relembra Lessa, o que transportava o Olimpo, a morada dos deuses, à esfera pública. Sendo assim, a religião também integrava a noção de cidadania.  

Além das Olimpíadas, havia outros eventos esportivos pan-helênicos (pan = todos, helênico = grego), todos em homenagem a um determinado deus ou herói. Uma das origens do evento é inclusive baseada na lenda de Hércules, um semideus. Há também a aproximação do atleta vencedor a um herói mitológico, já que esse se aproximava dos atributos do Olimpo. 

Observa-se também que os valores esportivos eram parte de um movimento de identificação da sociedade grega como um todo, assim como pertencer a uma determinada polis. As polis eram cidades independentes, com uma organização de governo própria. Os mesmos mecanismos que excluíam os estrangeiros da polis também os excluíam dos jogos. E os ginásios, assim como espaços de debate público, tornaram-se um ambiente de concretização e sociabilidade do cidadão grego. A ginástica, por exemplo, era um dos quatro pilares do processo educacional. 

 Na questão bélica, existiram os esportes com apelos militares, as tréguas que correspondiam aos períodos dos grandes jogos e a questão do treinamento. Mas não se encerra nestes pontos, já que nem toda guerra é travada no campo de batalha. De certa forma, cada polis estimulava seus atletas na busca pela honra, não só para ele, mas para ela também.

 Sendo assim, ter um atleta campeão de uma Olimpíada era uma forma de impor, para além das armas, a influência cultural de uma determinada cidade. Esse aspecto, como reforça Lessa, é uma reafirmação da mentalidade de agón (competição) entre os gregos, que permeava diversas esferas desta sociedade.

Representação de alguns atletas corredores gregos. [Imagem: British Museum Blog]

No âmbito dos atletas, há uma certa importância do tempo de praticar. Mas nem todos possuíam o privilégio de se dedicar aos treinamentos, o que permanece até os dias atuais. De modo geral, os atletas vinham de um pequeno grupo de privilegiados. Não era como se Phillipos, o grego médio da polis, fosse para Olímpia competir. Essa é uma visão romântica, já que, mesmo sendo da polis, o tempo deve ser direcionado à sobrevivência. O esporte profissional, então, tinha ares aristocráticos.

Indo aos estádios, esses atletas refletiam também uma parte da moral desta sociedade. A nudez no momento da competição é um teste para a avaliação da cultura judaico-cristã. Mas na época, ao invés de gerar estranhamento, era um hábito sem erotização. Na verdade, essa questão se expande para simbolizar a necessidade de o grego se desnudar para a vida pública, nada ter a esconder, e, em outra perspectiva, o espírito da liberdade.  

Por outro lado, Lessa aponta que “os jogos eram também espaço de masculinidade”, já que os jogos à deusa Hera, protagonizados por mulheres, não possuíam o real significado que os jogos masculinos possuíam. Mesmo podendo assistir ao evento de Olímpia, que era um fenômeno de integração da polis, o papel feminino neste caso se restringia à torcida. 

As Olimpíadas reuniam competições ilustres da época:dos esportes das vilas aos das grandes polis, durante cinco dias de evento. Dentre eles, vale fazer uma separação, baseada em Lessa, entre esportes aristocráticos e esportes democráticos. O primeiro grupo, como o próprio nome já diz, refere-se aos esportes direcionados a um grupo que, além de tempo, possui estrutura financeira e status. As corridas de biga e o hipismo entram neste grupo. Os esportes democráticos seriam os demais jogos, mais acessíveis, como a prática do atletismo de modo geral, lançamento de dardo, lutas corporais, corridas a pé, entre outros.

Do último grupo, um jogo possui mais destaque em níveis de contexto: o discóbolo. “O lançador de disco como ícone da própria democracia”, como trabalha Lessa, vem da ideia da proporção circular, que reproduz símbolos característicos do modelo político como a rotatividade e a equidistância que se liga à equidade. A área que se tem hoje para lançar o disco é limitada na parte de trás, mas, na Antiguidade era um espaço ilimitado para impulsionar esse disco da democracia. Com esse exemplo, percebe-se a riqueza contextual que pode haver até mesmo na estrutura de um disco antigo, ou no corpo de um atleta que se expande a um corpo cívico.

 

Coliseu, o circo de Roma 

As ruínas do Coliseu, a grande estrutura esportiva do Império Romano. [Imagem: Wikimedia Commons]As ruínas do Coliseu, a grande estrutura esportiva do Império Romano. [Imagem: Wikimedia Commons]

“Todos os caminhos levam a Roma”. Essa conhecida expressão histórica se refere à imensa extensão das estradas romanas, no auge da fase imperial. Por outro lado, pode ser vista como a grande influência que a presença romana deixou no mundo ocidental, seja pela língua, costumes, leis, entre muitos outros. Além dessas presenças imateriais, também persistem as ruínas. Em uma estrutura circular, turistas hoje podem estar no mesmo local em que houve grandes espetáculos, movidos por gritos e aplausos. O Coliseu, além de restos, é um símbolo de como uma parte da estrutura esportiva em Roma se comportava. 

Mas antes de falar dele, é necessário outra viagem histórica. Inicialmente, enquanto Roma ainda era apenas mais uma cidade-estado (definição semelhante à polis), o esporte estava muito ligado ao treinamento militar. Tinha-se a visão, por parte da aristocracia romana, de que praticar publicamente outros esportes que não Arco, Equitação e Esgrima, relacionados à guerra, demonstrava uma fraqueza de classe.

Com o ganho de tons mais imperiais, segundo Lessa, Roma se depara com o mundo grego, este que já tinha se expandido em cultura por parte de Alexandre, O Grande. Mas é no momento da conquista que há uma ressignificação cultural, com readaptações da mitologia, teatro, e, também, o esporte. Neste ponto de virada, a elite romana começa a valorizar esportes não necessariamente militares, em suas luxuosas vilas isoladas. 

Recapitulando, nesse primeiro momento é possível novamente observar o maior poder de influência e de adesão cultural da aristocracia, fator que se manterá persistente na adoção de políticas públicas, até no Coliseu. Foi inclusive por conta da elite que uma maior gama de esportes chegam majoritariamente ao público romano, já que um importante político foi quem trouxe, entre outros, o atletismo grego a Roma. A conscientização pelo esporte passou a se tornar mais presente, pois era quase nula antes desse ponto. Houve maior presença de palestras e espaços públicos para realização das atividades, mas não comparado a estrutura grega de educação. 

Estabelecida a grande mistura de referências e a organização social do que é chamado de esporte romano, temos as características mais exploradas dele: o anfiteatro e o público. 

O espetáculo romano conhecido como Circo, já estabelecido desde a República, ganhou no Império um objetivo claro. Foi nessa fase que se tornou evidente a influência do poder na vida esportiva com o intuito de dominação. Essa mentalidade foi decisiva para estabelecer o Anfiteatro Flávio, mais conhecido como Coliseu de Roma. 

No Coliseu, os romanos experimentaram um outro tipo de fenômeno esportivo nas arenas: uma espetacularização violenta. Diferentemente da cultura grega, em que as competições eram pautadas na religiosidade e tinham regulamentos mais rígidos no caso de violência, o esporte como um entretenimento mais violento entra em primeiro plano. 

A luta entre dois gladiadores, parte do espetáculo violento de Roma, representada em um mosaico. [Imagem: Flickr / Creative Commons]

Um aspecto marcante dos jogos era a presença de animais selvagens. A caça, execução e luta entre espécies de animais comuns e exóticos na arena, trazidos de vários lugares do Império, era mais um símbolo da dominação e poder romanos, uma forma de dominar as adversidades e forças da natureza em um universo urbano. Enquanto alguns prisioneiros entravam na arena com pouco ou quase nenhum armamento, certos gladiadores eram treinados especificamente para essas performances com animais. Só na inauguração do Coliseu, cerca de nove mil animais foram abatidos, dentre eles leões, elefantes e ursos. 

O pretexto do esporte também era utilizado para exaltar execuções públicas. Tito, o romano médio, podia entrar gratuitamente na Arena, sem nem mesmo imaginar a política por trás da grande estrutura circular. Seu Estado, ao invés de executar desertores e prisioneiros em alas isoladas em prisões, sem plateia, transporta oportunamente essa morte à arena para gerar satisfação popular. Ou seja, os jogos também possuíam certo um caráter punitivo, o que ia de acordo com a tradição romana. 

Os combates entre gladiadores precederam o Império, mas a partir dele ganharam padronizações e influência crescente. Havia os condenados a serem gladiadores, que possuíam sua liberdade restringida e lutavam por ela, e os voluntários, que viam no espetáculo uma chance de fama ou de pagar dívidas. Independentemente das condições, eram treinados em escolas especializadas. Geralmente pertencentes ao estrato aristocrático, com uma estrutura completa de organização, com médicos, massagistas e treinadores. Existiam diversas divisões entre os combatentes, identificadas pelo equipamento. Alguns, discriminados por sua origem ou por crimes, davam o sangue na arena e recebiam uma distorcida redenção social. 

Os anfiteatros faziam parte de uma expressão da sociedade, reforçada pelo Estado Romano. Vai além de uma simples política de entretenimento, já que evidenciava símbolos de manutenção  e propaganda política. Os aspectos esportivos presentes nas práticas sangrentas também influenciaram o interesse do povo romano. Em resumo, deve-se desconfiar do ponto de vista da arquibancada, os interesses e expressões por trás de olhares apaixonados pela estrutura esportiva.

 

O romance brutal dos torneios medievais 

Mesmo sem ruínas, a estrutura dos torneios medievais é recriada atualmente com base em documentação. [Imagem: Wikimedia Commons]

Por mais que corresponda a um período de mais de mil anos, uma figura parece se instalar no imaginário popular quando se trata de Idade Média: a do cavaleiro medieval. A figura se expandiu e superou sua definição mais literal, como um guerreiro montado em um cavalo, tornando-se um símbolo do período. Mas na verdade, uma boa parte da romantização e continuidade deste personagem histórico vai além do campo de batalha e chega a um grande evento esportivo: os torneios medievais. 

Na visão de Esporte mais geral, a Idade Média apresenta uma ruptura. Práticas esportivas que não pertenciam à guerra passaram por uma certa demonização ― vale citar demônios já que é a partir da Igreja Católica que esse fator entra em questão. A mentalidade cristã reinava acima de qualquer rei, o que fez com que a contemplação ao divino não se restringisse à somente uma esfera. Houve uma desvalorização do culto ao corpo, já que é a alma que precisa ser salva. Nesse retrocesso à educação física cultivada em partes pelos períodos apresentados, o pensamento do esporte entrelaçado ao treinamento militar retorna. 

No decorrer dessa matéria, um fator relacionado ao esporte foi exaltado para que se entendesse o aspecto contextual local. Na Grécia Antiga, a partir das Olimpíadas, parte do funcionamento e características do mundo grego. No Império Romano, a partir do Coliseu, a estrutura esportiva usada como política pública para se entrelaçar aos costumes romanos. Mas o que falar da Idade Média, que possui um imaginário tão distante do esporte? Por meio de algo que rodeava o período: a guerra, quecaía nas graças da Igreja quando conveniente. 

Dentre as táticas de treinamento dos guerreiros medievais, estavam as simulações de batalha em grandes campos, em que dois grupos de combatentes representavam um determinado nobre ou região. Por meio das simulações, práticas como arco e flecha, hipismo e esgrima eram exaltadas. Essa mistura de práticas, com grande destaque na figura do cavaleiro, foi se popularizando e ganhando uma estrutura esportiva em torno. Logo, passou a ser uma forma de entretenimento da nobreza, que herdou um prazer na violência semelhante à dos romanos. Assim, surgiram os primeiros torneios medievais, que foram acompanhados de festas populares. 

As simulações de batalha, as bases para os torneios medievais, muito se pareciam com confrontos reais, até no nível da violência.

As simulações de batalha, as bases para os torneios medievais, muito se pareciam com confrontos reais, até no nível da violência. [Pxfuel / Creative Commons]

No princípio, grandes cargas de cavalaria e diversos soldados guerreavam com armas reais, o que já se distancia da visão romântica de torneio que surgirá mais a frente e, por isso, mortes eram comuns, devido à falta de regulamentações definidas. O cavaleiro medieval como figura unicamente romantizada também se enfraquece, já que muitos representantes de famílias menores iam ao torneio para buscar, além da clássica honra, uma perspectiva de lucro, ganhos materiais e fama. Já para uma nobreza mais poderosa, esses eventos tinham um significado distinto, de consolidar a posição aristocrática e expandir a influência. Este é mais um modo em que conseguem se diferenciar dos demais grupos dessa sociedade estritamente dividida. 

A Igreja passou a observar a expressão esportiva com maus olhos. Por qual motivo, já que a própria defendia guerras pela vontade de Deus? Não seria só mais uma prática militar? Pelo contrário, já que a presença de ganhos materiais, perspectiva de lucro e uma morte mundana eram fatores frequentes nessas batalhas, fato abominado pela Igreja. Ela chegou a recusar sepultamento àqueles que morriam nos torneios e tentou proibir diversas vezes os torneios destas “cavalarias profanas”, que, ao invés de peregrinar por Deus, atentavam-se a bens materiais e ao entretenimento que tomava muitas vidas. 

Por mais que a tentativa de proibição tenha falhado, a Igreja iria se satisfazer com o desdobramento de outro movimento. Após certos fatores, como derrotas vindas do Oriente Médio, a cavalaria nobre estava enfraquecida e até mesmo defasada, tendo em vista a invenção de novas táticas de guerra. Então, há um movimento de substituição da violência característica dos torneios por uma abordagem ostentatória, em um trajeto de redenção da imagem do cavaleiro. 

A partir deste ponto, os romances, cantados e escritos, se voltam a destacar o novo tipo de modalidade: as justas. Era comum que John, um certo camponês médio, ouvisse a grandes histórias envolvendo os heróis e vilões dessa competição. Essa prática consistia em dois cavaleiros portando lanças, que deveriam guiar seu cavalo em direção ao oponente e acertar certas partes do corpo para ganhar mais pontos, ou derrubar o oponente para vencer. Até equipamentos novos foram criados para auxiliar esse esporte. A literatura também foi ativa, já que os próprios cavaleiros deviam se inspirar na ficção romântica ao valorizar regras e o valor do oponente. 

Os torneios medievais transpareceram a organização social da época, a exemplo da nobreza usando-os como uma forma de comunicação e distinção das demais classes. Além disso, evidencia uma alternativa à mentalidade da Igreja acerca do Esporte na época, e a demarcação das dimensões do poder clerical. Além desses fatores, está a existência deste evento esportivo como expressão da teatralidade, cultura e romantização medievais. Por mais que não propriamente visto desta forma, o cavaleiro medieval se expande para além do campo de batalha, e, nas justas, se torna um atleta. 


Os esportes remanescentes 

Quais são as sombras históricas que pertencem ao Esporte?

Quais são as sombras históricas que pertencem ao Esporte? [Unsplash / Steven Lelham]

Alguns esportes destes períodos são capazes de atravessar o tempo, assim como seus símbolos. Antes de falar deles, por que isso acontece? O estudo dos esportes, assim como grande parte do que é conhecido no mundo, provém de uma perspectiva centrada na Europa. Além disso, a historiografia, ou seja, a forma como a História é contada, é predominantemente focada no ponto de vista aristocrático. 

Os personagens médios criados para a matéria, Phillipos, Tito e John, poderiam dar seu lugar para outras visões de esporte. Talvez, com isso, fosse possível descobrir um esporte que faz parte da cultura mesoamericana, tão próxima geograficamente, mas tão distante em uma perspectiva histórica. Mas a pauta fez o caminho oposto. Além de expor a possibilidade de riqueza contextual ao explorar o tema, aproveitou-se do imaginário popular acerca desses períodos conhecidos para evidenciar que grande parte da história desses esportes tão romantizados constitui uma teia de valores controversos que ainda permanecem. 

Nos dias atuais, os esportes das Antigas Olimpíadas são os que mais ganham destaque. Provavelmente porque quando as Olimpíadas retornam, no século XIX, a proposta é justamente um resgate às práticas realizadas pelos antigos gregos e valorização de sua cultura. Além de que os jogos citados dos outros períodos eram caracteristicamente violentos, o que não se encaixa nos valores esportivos atuais. Dentre os esportes remanescentes:

  • As provas de velocidade se mantiveram. Por exemplo, as modalidades Stádion, Díaulos, Dólikhos, correspondiam a corridas que deveriam ser dadas em torno do estádio, variando o número de voltas. Atualmente, há corridas de revezamento de bastão. Nos antigos Jogos Olímpicos, uma corrida semelhante era feita utilizando tochas para o repasse, a Lanpadedrómia. Uma curiosidade é a existência de uma corrida, a Hoplitodrómia, que devia ser completada utilizando todo o conjunto militar, entre acessórios de armaduras e armamento. 
  • No âmbito dos lançamentos e arremessos, o de dardo aparecia na forma do Ákon, enquanto o lançamento de disco possuía o nome de Dískos. Também não se pode esquecer o arremesso corporal, ou salto a distância, correspondente à prática da Pédema. 
  • Nos esportes marciais, o Pýgme era uma luta entre dois oponentes que deveriam restringir seus golpes aos punhos, que deveriam estar cobertos com tiras de couro. Se assemelhava bastante ao boxe. Por sua vez, o pancrácio era um combate livre, provavelmente uma das práticas mais violentas no estádio, já que o arsenal de golpes era extenso por conta da maior liberdade de abordagens. Lembra a atual estrutura do MMA (Mixed Martial Arts), que mistura diversas lutas em uma só. 
  • A prática do Hipismo, corridas e manobras com o cavalo, ainda é presente em competições atuais. Além de se expandir para os três períodos históricos, também conserva seu tom restrito a uma classe mais rica. 
  • As justas existem atualmente em uma escala muito menor, promovidas por entusiastas da Idade Média. 

Os valores esportivos dos períodos se entrelaçam com a comunidade a que pertencem e vão além dos esportes até hoje. Exclusão, violência, masculinidade e poder de influência são alguns destes pontos que continuam presentes, e estudar História no Esporte é também ter mais alternativas de abordagem ao falar da permanência destes problemas em demais esferas.

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