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Da imagem à crítica, da crítica ao humor
Na Estante
08 out 2014 | Por Jornalismo Júnior

Já disse Confúcio que uma imagem vale mais que mil palavras. Muitas vezes o que um texto tenta explicar com páginas e mais páginas de frases difíceis e enfadonhas, uma imagem consegue sintetizar e explicar muito mais claramente. E os quadrinhos, as charges, os cartuns e as caricaturas possuem esta função, com a vantagem de suscitarem, além de uma reflexão mais profunda, também o humor e a ironia. Mesmo muitas vezes usados como sinônimos, esses desenhos têm características próprias e singulares, e é importante diferenciá-los.

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Os quadrinhos contam a história em várias cenas e geralmente possuem personagens e elencos fixos. A primeira tira em quadrinhos, “The Yellow Kid”, apareceu na revista “Truth” e era publicada esporadicamente entre os anos 1894 a 1895, quando estreou no jornal “New York World”, e passou a ilustrar as páginas de domingo. A tirinha era desenhada por Richard Felton Outcaul, e retratava a história de um garoto careca e dentuço, que sempre usava uma camisola amarela e só se comunicava pelos dizeres nela inscritos. Ilustrava, de maneira crítica e satírica, a cidade de Nova Iorque e seus guetos, o consumismo e o processo de urbanização.

Mafalda, Turma da Mônica, Snoopy e Calvin são algumas histórias em quadrinhos famosas e de grande prestígio.

As caricaturas ironizam a partir do exagero e da deformação das características físicas e pessoais. Uma caricatura é atemporal: uma pessoa ao ver uma caricatura do Ronaldinho Gaúcho, não precisará de experiências anteriores para entendê-la. É um humor que começa e termina em si mesmo.

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Já a charge está totalmente pautada no tempo e retrata um acontecimento político ou algo em voga na mídia. Para ser compreendida, uma charge precisa estar localizada no tempo, espaço e contexto da situação. A charge da cartunista Laerte sobre a declaração de Levi Fidelix no debate do dia 18 de setembro talvez não fosse entendida por alguém que não viu o debate ou sua repercussão nos meios de comunicação.

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Finalmente, o cartum tem um caráter extremamente crítico e tem por objetivo satirizar uma situação corriqueira, cotidiana. Por isso, também é pautado pela atemporalidade. Relacionamentos, brigas e esportes são temas frequentes nos desenhos. Difere-se do quadrinho porque não tem personagem fixo, e geralmente ocorre em uma cena só. Para diferenciá-los, é genial a premissa de Chico Caruso, grande caricaturista brasileiro: “Se você afasta a câmera, pegando o plano geral, sem detalhes, e a piada é universal, como a do náufrago, é um cartum. Se você aproxima a câmera, pegando o chamado plano americano — da cintura pra cima — e localiza a piada, aí é charge. E se você fecha a câmera só na cabeça, o close, é caricatura.”

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O termo “cartoon” veio da língua italiana- cartone- e quer dizer “cartaz”. A expressão surgiu em 1841 na revista inglesa “Punch”, a mais antiga revista de humor do mundo. No tempo em que circulou (de 1841 a 1992 e 1996 a 2002), publicou cerca de 8000 caricaturas que hoje estão em acervo no site da revista. Aos poucos, os cartuns começaram a ficar famosos também em jornais e outras plataformas.

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“Então, é um dia ensolarado , talvez com chuva, nevoeiro , gelo e neve, e ventos moderados com a chance de chegar a força de um furacão.”

No Brasil o termo foi neologizado para “cartum” em fevereiro de 1964, na revista Pererê de autoria de Ziraldo: “no Brasil, a gente tinha que grifar, já que era palavra estrangeira. Ficava uma coisa chata. Então eu fui falar com o Aurélio, contei a ele que tinha criado a palavra e ele disse que ia dicionarizá-la.” A partir da década de 30 os cartuns foram ficando cada vez mais populares no país.

Da imagem ao olhar

O caráter mais importante dos cartuns é o olhar crítico sobre o objeto ou assunto retratado. Nada escapa do olhar de alguns cartunistas brasileiros, como Laerte, Carlos Latuff e Jorge Guidacci, sempre mordazes e pontuais em suas considerações sobre os temas atuais.

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Laerte

Laerte é uma das mais importantes cartunistas e quadrinistas do país e já publicou suas tiras na Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, o Pasquim, o Balão, Gazeta Mercantil entre muitos outros jornais e revistas. Possui inúmeros personagens como o “Overman”, “Piratas do Tietê”, o “Faguntes” e o “Síndico”. Militante das causas LGBT dentro e fora dos quadrinhos, em 2010 Laerte deu uma entrevista à Folha sobre a sua escolha pela prática crossdressing publicamente e em 2012 criou a Associação Brasileira de Transgêneros (ABRAT).

Carlos Latuff

Carlos Latuff iniciou sua carreira como ilustrador em 1989 e grande parte do seu trabalho é dedicado à primavera árabe e à questão palestina, da qual é simpatizante. Em 2012 foi classificado por Israel como o 3º maior antissemita do mundo em razão de seu cartum que acusava o governo de Israel. No cartum, o premiê israelense Benjamin Netanyahu era retratado torcendo uma criança palestina, acusando que a principal motivação da guerra na Faixa de Gaza era ganhar votos para as próximas eleições. Latuff respondeu ao título afirmando que “crítica ou mesmo ataque à entidade política chamada Israel não é ódio aos judeus porque o governo israelense não representa o povo judeu, assim como nenhum governo representa a totalidade de seu povo”.

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Carlos Jorge Guidacci

Carlos Jorge Guidacci nasceu em Manaus em 1939 e aos 17 anos entrou pra Escola Belas Artes. Participou de várias exposições e em 1964 ganhou o primeiro Prêmio de Xilogravura no III Concurso Latino-Americano de Gravura (Havana). Ele conta que era preciso fazer várias charges e mandar para a censura, mas a maioria voltava riscada com X de “censurada”.

O cartunista também foi processado (e mais tarde recebeu anistia) pela Lei da Segurança Nacional por um de seus desenhos publicados no Pasquim na época da ditadura militar. Era uma charge do presidente Figueiredo, com uma bomba em seu estômago prestes a explodir. O cartunista publica suas intervenções artísticas no site http://www.tracehumor.blogspot.com.br/

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Para Glauber Rocha, cineasta brasileiro, a função da arte era violentar o público e ser uma ferramenta de transformação. Isso, com certeza os cartunistas brasileiros fazem. E entre desenhos, travessões e cenas, compondo um mundo imaginário limitado ao espaço do quadrinho, eles vão pautando e recompondo esse mundo aqui de fora, tão maior e mais sem graça que o dos “Piratas do Tietê.

Por Isadora Vitti
vittidora95@gmail.com

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