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De Almodóvar para todas as mulheres – todas elas
CINÉFILOS
30 out 2014 | Por Jornalismo Júnior

por André Meirelles e Marcos Nona
andremcdg@gmail.com
e marcosvnona@gmail.com

O diretor Pedro Almodóvar apresenta um filme intenso, formado por personagens cheios de sensibilidade amarradas sob a responsabilidade de colocar em jogo as temáticas do universo feminino moderno. Tudo Sobre a Minha Mãe (Todo sobre mi madre, 1999) é um filme que discute diversos assuntos complexos que por muito tempo foram considerados tabus pela sociedade, como AIDS, transsexualidade, prostituição, morte e gravidez indesejada. Todas essas polêmicas se transformam em um drama provocativo que esteve novamente em cartaz pela 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Neste longa espanhol, Manuela (Cecilia Roth) é uma enfermeira que vive em Madri com seu filho Esteban (Eloy Azorín). No dia de seu aniversário, o jovem ganha de sua mãe um ingresso para a peça “Um bonde chamado desejo”, estrelada pela atriz Huma Rojo. Após o espetáculo, Esteban é atropelado ao tentar pegar um autógrafo da atriz. Sem rumo ou motivações, a morte do garoto leva Manuela a se mudar para Barcelona e iniciar uma busca pelo pai de Esteban, uma transsexual conhecida por Lola. Enquanto luta para superar a morte trágica do filho, Manuela reencontra antigos amigos como a também transsexual Agrado, e faz novas amizades ao conhecer a bela freira Rosa – interpretada por Penelope Cruz – e a própria Huma Rojo em uma surpreendente reviravolta.

Manuela é uma mãe protetora que ama e cuida de seu filho, Esteban.

Almodóvar exibe seu talento com uma narrativa peculiar: o início do filme é um grande apanhado do que vai ocorrer durante todo o enredo. Sem revelar elementos cruciais para o desfecho da trama, o diretor oferece dicas sutis de quais serão os rumos tomados pela história e, quando se concretizam, os acontecimentos causam no espectador a sensação de deja vu. Por exemplo: em uma das primeiras cenas, Manuela participa de uma encenação no hospital, representando uma mulher cujo marido morreu e que precisa decidir se vai doar seus órgãos – posteriormente seu filho Esteban realmente morre e ela precisa fazer essa mesma decisão. O mais curioso é que os dois médicos que conversam com ela na encenação são os mesmo que anunciam a morte de Esteban.

Em outra cena, o filho atravessa a rua sem olhar para os lados e quase é atropelado por um carro – futuramente ele morre da mesma forma. Também há outra tomada em que Manuela se encontra diante uma parede com a foto de Huma, que no futuro será muito importante em sua vida. Ou seja, existe uma previsibilidade intencional no começo que não desconstrói o restante da narrativa. Pelo contrário: ela prioriza e dá maior intensidade aos desdobramentos que ocorrem.

A inesperada amizade entre Agrado, Manuela e Rosa traz à tona os momentos mais cômicos do longa.

Apesar das reflexões que o filme proporciona acerca de assuntos tão delicados, Almodóvar conduz a trama com inteligência ao usar-se da ironia e de personagens carismáticas que dão leveza à obra, mas sem diminuir a seriedade dos temas. As quatro personagens centrais possuem personalidades que se completam e apresentam as diferentes facetas da mulher: Manuela é a mãe corajosa e protetora; Rosa é a freira frágil e bondosa; Agrado é autêntica e bem humorada; e Huma é uma verdadeira homenagem a todas as atrizes de sucesso. Em Tudo Sobre a Minha Mãe, o diretor explora a humanidade de suas personagens como nunca antes, contrastando com obras anteriores como Carne Trêmula e Maus Hábitos, também em exibição na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 

 

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