Home Escuta Aí De amigos a inimigos – a história de The Notorious B.I.G. e Tupac Shakur
De amigos a inimigos – a história de The Notorious B.I.G. e Tupac Shakur
Escuta Aí
03 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Maria Eduarda Nogueira / Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Na cena do rap norte-americano, nos anos 90, surgia duas figuras que marcariam o gênero musical para sempre: Tupac e The Notorious B.I.G. – dois rappers que começaram como amigos, mas se perderam em um mundo de rivalidades, gangues, interesses e atenção midiática. Assim como suas músicas, suas mortes também mudaram o rap mundial.

Um pouco antes da ascensão de Tupac Shakur e de Biggie, uma nova tendência musical surgia nos Estados Unidos. O gangsta rap tinha um aspecto de denúncia, pois tratava do cotidiano violento a que os jovens eram expostos nas periferias das grandes cidades. Mas nem só de consciência social se mantinha esse subgênero do rap… Temas como assassinatos, tráficos de drogas, beefs (intrigas, em uma tradução livre) entre músicas e gangues, promiscuidade e objetificação feminina também eram abordados.

Um dos exemplos mais icônicos é a música “Fuck The Police”, do grupo N.W.A.:

https://www.youtube.com/watch?v=9jOqOlETcRU%20

As influências do gangsta rap vão reverberar ao longo de toda essa narrativa. A começar pelo tráfico de drogas.

Christopher Wallace era filho único. Nascido no Brooklyn, foi criado sozinho pela mãe, que tinha que se desdobrar para colocar comida na mesa, o que resultou em sua constante ausência no ambiente familiar. Aos 12 anos, Christopher começou a vender drogas. Isso não definiu quem ele foi, mas certamente influenciou suas letras. Um exemplo é Ten Crack Commandments, em que diz “I been in this game for years, it made me an animal” (Eu estou nesse jogo há anos, isto me tornou um animal). Conhecido pela habilidade de contar histórias em suas músicas, Big – como ficou conhecido, devido a seu peso – era um artista com as palavras. Bem parecido com seu parceiro e depois arqui-inimigo, Tupac.

A semelhança entre os dois rappers não acabou por aí. Tupac nasceu em Nova Iorque, embora tenha se consagrado musicalmente na Califórnia, e também se envolveu com o tráfico. As criações dos dois jovens, no entanto, foram bem diferentes. Filho de uma integrante dos Panteras Negras, a vida de Shakur foi sempre muito turbulenta e instável, ocasionando diversas mudanças de endereço. A carga política e a militância influenciaram suas músicas e seu pensamento, a ponto de ser conhecido também como Makaveli, em referência ao filósofo italiano Nicolau Maquiavel. Um de seus primeiros sucessos, Brenda’s Got a Baby, é um retrato impactante da vida de garotas negras no “ghetto”. Tupac diz que sua inspiração foram as notícias no New York Times sobre casos semelhantes ao de Brenda, que, a cada dia, ocupavam menos espaço no jornal, revelando um descaso com a vida de adolescentes negros.

Dois cantos diferentes dos Estados Unidos. Uma paixão pela música. Uma amizade que se tornou a maior rivalidade do rap mundial. Dois assassinatos nunca resolvidos. O que aconteceu com Biggie e Tupac? É essa história que vamos contar.

Biggie e Tupac, respectivamente, enquanto ainda eram amigos. Apesar de estarem no início de seus 20 anos, ambos aparentavam ser bem mais velhos. Fonte: Reprodução

     

Los Angeles. 1993 – O início da amizade

‘Pac estava gravando o filme “Sem Medo no Coração” (Poetic Justice, 1993) quando conheceu Big, ainda iniciante na cena do rap. Os dois se aproximaram rapidamente e, logo, já estavam se divertindo, fumando e bebendo juntos. Shakur foi como um mentor para Wallace, que possuía pouca influência musical à época. Os conselhos dados pelo experiente Tupac iriam assombrá-lo posteriormente e causar arrependimento, quando sua amizade com Big se tornasse uma mera lembrança.

Nova Iorque. 1993 – O caso Ayanna Jackson e o assalto armado

Apesar de ser um ótimo músico, Tupac tinha aquilo que se chama informalmente de “dedo podre”. Não sabia escolher suas amizades, o que acabou trazendo muitas consequências ruins para sua carreira e vida pessoal. O caso de Ayanna Jackson talvez seja o maior exemplo desse comportamento.

Nas gravações do filme “O Lance do Crime” (Above the Rim, 1994), ‘Pac conheceu Nigel – também conhecido como Haitian Jack -, um gângster famoso e respeitado na indústria hip hop. Ele apresentou ao rapper diversas baladas na costa Leste americana e o influenciou em suas escolhas estilísticas – as jóias caras e as roupas mais justas, por exemplo. Numa entrevista à revista Vibe, Shakur diz: “Eu costumava me vestir com roupas largas e tênis. Eles [Nigel e seus amigos] me levaram às compras, foi quando comprei meu Rolex e todas as minhas jóias. Eles me fizeram maduro, me introduziram à todos esses gângsteres no Brooklyn”.

Em resumo, Nigel tomou Tupac como seu protegido, que, paradoxalmente, recebeu de tudo, menos proteção.

Nigel e Tupac – na foto, a grande quantidade de acessórios de ouro revela a ostentação que acompanhava essa amizade

Em uma das noites de balada em NY, Shakur conheceu Ayanna Jackson, uma amiga de Haitian Jack. Eles se envolveram romanticamente na mesma noite. No dia seguinte, o rapper a convidou para sua suíte luxuosa no hotel Le Parker Meridian, onde também estavam Nigel e Charles Fuller, representante de ‘Pac.

O que aconteceu em seguida também permanece um mistério: Ayanna alega que Tupac e seus amigos a estupraram, embora o rapper tenha negado veementemente até o final de sua vida. O resultado? Tupac e Fuller foram condenados à cadeia, enquanto Nigel, devido à sua influência, escapou das acusações.

Ainda no mesmo ano, ‘Pac vivenciou um episódio que marcou sua ruptura com Biggie. Nos estúdios Quad, em Manhattan, o rapper foi assaltado e levou cinco tiros. Ele havia sido convidado pelo agente do rapper iniciante Lil’ Shawn para gravar uma música – serviço pela qual Shakur cobrava, devido à sua fama e suas dificuldades financeiras após as acusações de assédio sexual. Ao chegar no hall do elevador, o rapper e seus amigos foram cercados por três homens encapuzados com armas, que exigiam seus pertences valiosos.

Mesmo tendo levado dois tiros na cabeça, de forma impressionante, Tupac subiu para o andar da gravadora, sangrando e completamente debilitado. Ao abrir a porta, todos o olharam com cara de espanto, inclusive Biggie Smalls e seu agente, Puffy Combs.

Shakur foi ao hospital e teve que se submeter à uma cirurgia. No entanto, no dia seguinte ao ataque, foi à sua audiência do caso Ayanna Jackson, no qual recebeu a sentença máxima de 25 anos.

Tupac chegando na audiência, após apenas um dia no hospital

Nova Iorque. 1995.

Enquanto ‘Pac ainda estava na cadeia, Biggie lançou a música “Who Shot Ya?” (quem atirou em você, em uma tradução literal). Ela foi tida como a primeira diss track – música feita com o intuito de difamar e insultar outro artista – entre os dois rappers, embora Big tenha negado que se tratava de uma referência ao antigo amigo.

Tupac, no entanto, levou a sério o conteúdo da música. Embora temas como tiroteios e beefs (nome dados às intrigas no hip hop) fossem comuns no gansgta rap, a proximidade dos eventos levou os envolvidos a acreditar que Big estava zombando da situação. O que não pegou nada bem. E levou ao maior beef da indústria.

Source Awards. 1995.

O nome Suge Knight tem peso. Empresário da Death Row Records e integrante da gangue dos Bloods de Los Angeles, Suge desempenha um papel importantíssimo em uma causa não tão nobre assim: ele foi responsável por instigar ainda mais a incipiente rivalidade entre costa Leste e Oeste, que, após o episódio do Source Awards, passou a ser ainda mais estigmatizada pela mídia.

No mesmo ano em que participou dessa premiação, Knight assinou um contrato com Tupac, para que ele fizesse parte da Death Row em troca do pagamento de sua fiança. A oferta era boa: a gravadora tinha nome dentro do rap e ficar na prisão, impossibilitado de muitas coisas, não era um desejo de ‘Pac, principalmente por estar no auge de sua carreira.

Já conhecido por sua inimizade com Sean “Puffy” Combs, o dono da Bad Boy Records e responsável pelo sucesso do The Notorious B.I.G., Suge aproveitou o discurso do Source Awards para deixar um recado:

“Se alguém aqui quer ser uma estrela e se manter como uma estrela, sem ter que se incomodar com o produtor executivo querendo dar pitacos em todas as músicas e aparecer em todos os vídeos dançando, então venha para a Death Row”.

 

Los Angeles. 1996.

Fora da prisão e com toda a energia para gravar, Tupac lançou sua resposta à música de Biggie. Hit ‘Em Up tinha versos pesados e ofensivos, e bem mais direcionados ao rival e à Costa Leste. A diss track já começa com Shakur afirmando que não tem amigos e por isso, ficou com a mulher do “filho da puta gordo”.

Esse fato mostra uma das grandes características da rivalidade. ‘Pac, que já tinha uma fama por seu temperamento, estava empenhado em destruir – musicalmente, ao menos – o seu ex-amigo. Especula-se que a influência de Suge possa ter sido decisiva nesse comportamento do rapper. Enquanto isso, Biggie tratava o beef sempre como algo pequeno, sem muita relevância – talvez por respeito pelo antigo mentor, que o ajudou a ascender na carreira. Isso nos leva a pensar até que ponto toda essa briga não passou de um mal entendido? Até que ponto atores externos influenciaram?

O fato é que perguntas como essa não foram consideradas pela mídia, que se atentou bastante à rivalidade Oeste-Leste, potencializando ainda mais as disputas. A atmosfera que envolvia Christopher Wallace e Tupac Shakur fazia com que as pessoas esquecessem que no fim, eles eram apenas garotos em seus 20 anos tentando mudar sua realidade através do rap. A importância dos dois para o gênero é algo incomparável, que permanece intacta mesmo após duas décadas. Por isso, os acontecimentos narrados a seguir ainda carregam tanto impacto.

Las Vegas. 1996.

Era noite de luta. Mike Tyson estava no ringue. E seu amigo Tupac Shakur não poderia faltar esse grande evento. O último de sua vida, infelizmente.

Os detalhes que envolvem a morte do rapper foram explorados em diversos documentários e, recentemente, em uma série da Netflix. Em “Unsolved: The murders of Tupac Shakur and The Notorious B.I.G.”, temos contato com as investigações feitas por detetives em dois momentos diferentes, com o contexto das gangues e muito mais. A complexidade que envolvem os dois casos impede que os antecedentes e os desdobramentos sejam discutidos de forma breve. Por isso, o texto apresentará uma versão resumida.

A caminho de uma casa noturna, sentado no banco de passageiro – “shotgun”, em inglês – do carro de Suge Knight, Tupac foi assassinado.

Um carro parou ao lado da vítima no semáforo, deu os tiros fatais e saiu acelerado. Esse tipo de ataque, os drive bys, não era raro nos EUA, e já foi abordado em diversas produções culturais que envolvem a periferia norte-americana. Definitivamente, esse drive by foi um dos mais famosos da história.

Última foto tirada de Tupac, antes de sua morte

Los Angeles. 1997.

Seis meses depois, Biggie Smalls estava em uma área perigosa. Como o representante da Costa Leste, estar em LA era um alerta – ali não era seu espaço.

O mundo ainda estava impactado com a morte de Shakur e alguns suspeitavam de seu arqui-inimigo. Até que Christopher Wallace também foi morto em um drive by.

Ambos os assassinatos nunca foram resolvidos. A mãe de Big, Voletta, lutou por muito tempo para ter justiça, o que é abordado incansavelmente na série Unsolved. Ela denunciou o departamento de polícia de Los Angeles por seu descaso com o assassinato do filho, mas nunca teve uma resposta definitiva quanto à investigação.

Voletta Wallace, carregando um quadro do filho

Ambos os assassinatos continuam não resolvidos. Ainda hoje, referências a esses dois rappers são feitas na cultura hip hop, seja para condenar os beefs da indústria ou para relembrar suas músicas, que contavam histórias e revolucionaram o rap como um todo.

Recentemente, a série Unsolved, protagonizada por Josh Duhamel, trouxe à tona a investigação dos assassinatos. Também de produção recente, o filme All Eyez On Me (2017) conta a história de ‘Pac. Toda essa repercussão cultural nos mostra não somente a influência de Biggie e Tupac, mas também como suas mortes intrigam a sociedade mesmo depois de quase 20 anos.

R.I.P Biggie e Tupac.

Por Maria Eduarda Nogueira
mariaeduardanogueira@usp.br

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