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De quebrar os ossos: conheça o Calcio Storico
ARQUIBANCADA
15 abr 2020 | Por Danilo Moliterno (danilomoliterno@usp.br)

Selecione uma vasilha de 80 metros de comprimento por 40 de largura, adicione duas colheres de futebol americano, três gotas de pique-bandeira e, por fim, acrescente MMA a gosto. Essa mistura resultará em um dos jogos mais excêntricos do mundo: o Calcio Storico Florentino.

Pouco conhecido aqui no Brasil, o calcio não é um dos esportes mais populares do mundo, muito devido à sua excentricidade. Mas, especificamente em Florença, ele é mais do que um jogo. Muito mais. É uma tradição, que transcende as gerações e atinge os corações dos pequenos florentinos, que crescem sonhando em representar suas regiões nesse espetáculo.

Acima da técnica, o calcio é um jogo de imposição física. (Foto_ Antonio Masiello)

Acima da técnica, o calcio é um jogo de imposição física [Imagem: Antonio Masiello]

Para quem tem cálcio

A verdade é que não há muitas regras. Basicamente, em um campo de areia, dois times de 27 jogadores, conhecidos como calcianti, se enfrentam com o objetivo de levar uma bola ao gol adversário. Para isso, é permitido usar qualquer parte do corpo. Para impedir o avanço do oponente, mesma regra; o que resulta em jogadas bastante violentas e impactantes

A pancadaria é livre. Em uma partida, é comum observar adversários trocando socos sem sequer se importar com a localização da bola. O estado físico de cada calcianti ao final das partidas é crítico — narizes quebrados, braços e pernas deslocados, faces desfiguradas. Além de tudo isso, a areia, antes completamente marrom, ganha grandes mechas avermelhadas.

Porém, nem tudo é libertinagem. Há restrições quanto à violência. Essencialmente, é proibido: atingir o adversário por trás (atingir é definido como dar socos, chutes e afins; empurrões como os do rúgbi são permitidos); atingir o adversário que já está no chão; jogar dois contra um (se um companheiro estiver disputando a bola com um adversário, você não deve interferir).

Só de escrever, já dá medo. De ler, deve dar também. De jogar, “é normal ter medo, essa é a base. Se você não está com medo, você não é humano. Você só tem que transformar isso em estímulo para entrar lá e fazer seu melhor”, afirma Lapo Cherici, calcianti de Florença.

As partidas costumam durar 50 minutos. O único torneio do ano, disputado no verão italiano, é composto por quatro partidas — duas semifinais, uma disputa por terceiro lugar e a grande final. Isso porque só há quatro times que praticam calcio no mundo, todos de Florença: os Bianchi, vestidos de branco, defensores da Basilica di Santo Spirito; os Rossi, vermelhos de Santa Maria Novella; os Verdi, verdes de San Giovanni; e os Azzurri, azuis de Santa Croce.

Jogadores travam duelos individuais em campo [Imagem: Antonio Masiello]

Jogadores travam duelos individuais em campo [Imagem: Antonio Masiello]

Para quem tem história 

Os times iniciam a preparação para a competição cerca de três meses antes da primeira partida; os jogadores são convocados e treinados durante este período. Chegada a semana do torneio, as regiões entram em festa. O padre de cada templo abençoa a bandeira de seu respectivo time em missas especiais. Absolutamente tudo é expectativa.

“É nossa tradição desde 1530. Você decide jogar quando tem paixão e dedicação pelas suas tradições, pelos companheiros que jogam com você, quando você tem admiração por aqueles que jogaram antes que você”, Lapo comenta a paixão que move jogadores e torcedores ligados ao calcio storico.

Tal sentimento pode ser explicado por um vigente campanilismo — o localismo ainda é muito forte na Itália. Os moradores de cada bairro sentem-se extremamente identificados com suas regiões, especificamente com as tais ruazinhas que se ligam à torre da igreja (campanile).

Tudo indica q ue o calcio storico deriva do harpastum, jogo comumente praticado por volta de 140 a.C.. Basicamente, em uma área retangular, duas equipes tentavam manter a posse de bola no seu lado do campo para impedir que o adversário se apoderasse dele. A prática era utilizada como treinamento de gladiadores durante o Império Romano. 

O jogo, disputado como é hoje, teve origem na República de Florença. Em 1737, o povo florentino havia derrubado os governantes da família Médici e fundado uma república independente, mas logo passaram a sofrer ataques de nações vizinhas. Então, um jogo de calcio storico foi organizado em Piazza Santa Croce, como demonstração de força.

 

Para florentinos

O torneio, precedido por muitos rituais e procissões, começa de verdade quando o árbitro atira a bola para o alto no meio do campo. A partir daí, o roteiro, antes tão regular, se torna um mar de plot twists. Os 54 jogadores passam a disputar a posse e a partida ganha cores.

O início é intenso. Contudo, aos poucos, nocauteados, os gladiadores passam a abandonar o pleito. O campo de areia, antes cheio, agora ganha ares desérticos. Nesse momento, aparecem lampejos de estratégia e qualidade técnica: defensores tentam jogadas individuais carregando a bola, há troca de passes horizontais na tentativa de confundir os adversários. Assim, o jogo caminha até o fim — claro, sem perder suas principais características: a emoção e a violência.

O jogo não é interrompido para que as equipes médicas entrem em campo para tratar os jogadores [Imagem: Justin Setterfield/Getty Images]

O jogo não é interrompido para que as equipes médicas entrem em campo para tratar os jogadores [Imagem: Justin Setterfield/Getty Images]

Lapo define o que é necessário para ser um grande jogador de calcio, capaz de permanecer de pé até o final e guiar seu time à vitória: “você deve estar disposto a sacrificar você mesmo, sua família, trabalho, para se preparar. Durante o jogo, você não tem que pensar nos riscos, e, acima de tudo, deve ter respeito. Respeitar seus companheiros, cores, vizinhos e oponentes.

A essa altura, já está claro o quanto o Calcio Florentino é movido pela paixão e pelo pertencimento, acima, inclusive, dos atributos desportivos. Lapo, que atuou na última temporada pela Azzurri, complementa: “Isso é diferente de tudo. É paixão, sacrifício, medo, adrenalina, tudo misturado. Tudo para jogar uma partida, talvez duas, no ano. Tudo para ser campeão de Florença. Tudo pelo respeito próprio e alheio”.

 

Abaixo você confere os melhores momentos da partida disputada entre Azzurri e Rossi em 2016:

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