Home Saúde Depressão e bioquímica cerebral: além do aspecto psicológico
Depressão e bioquímica cerebral: além do aspecto psicológico
JPRESS
28 maio 2015 | Por Jornalismo Júnior

Por Luiza Queiroz (luly.agnol@gmail.com)

Nas últimas décadas, as pesquisas médicas avançaram significativamente, inclusive no que diz respeito à psiquiatria. Infelizmente, uma maior quantidade de informações a respeito de transtornos mentais não foi suficiente para estimular a inclusão daqueles que sofrem com problemas de saúde mental – é o caso dos indivíduos vítimas de depressão, o distúrbio mental mais frequente da atualidade.

Um dos aspectos da discriminação em relação à depressão é o fato de tal transtorno ser visto como uma simples “tristeza” ou “estado de espírito” por parte da população, e não como um problema físico do organismo. No entanto, não só o humor depressivo é consequência de uma alteração no sistema nervoso, como também é acompanhado de outros sintomas corporais ainda mais incapacitantes: dificuldade em levantar da cama, alterações no sono e no apetite, incapacidade de sentir prazer em atividades que antes eram agradáveis etc.

Os episódios depressivos relacionam-se, principalmente, aos níveis das substâncias químicas chamadas de neurotransmissores, responsáveis pela comunicação efetiva entre os neurônios. O espaço entre dois neurônios é chamado de sinapse (ou fenda sináptica). Durante a comunicação entre células nervosas, é nessa região que os neurotransmissores são lançados pelo primeiro neurônio e alcançam o neurônio seguinte, transmitindo dessa forma a informação desejada entre cada um deles. Uma reação específica ocorrerá no neurônio receptor dependendo do neurotransmissor emitido.  Logo, sendo sensações e emoções reações químicas do organismo, uma alteração nos níveis dos neurotransmissores gera alterações psicológicas e físicas no corpo do indivíduo.

É o que ocorre nas vítimas de depressão: no caso, os principais neurotransmissores envolvidos são noradrenalina, serotonina, dopamina, e recentemente descobriu-se que o glutamato  também está incluído. Quando uma ou mais dessas substâncias não se encontram em quantidade suficiente no espaço da sinapse, os hormônios causadores de emoções como alegria, euforia e bem-estar não são produzidos pelo sistema nervoso e iniciam-se, então, os indícios da depressão. A maioria dos medicamentos antidepressivos atua justamente aumentando os níveis de neurotransmissores, porém não causam dependência.

Comunicação entre Neuronios

Até recentemente, especialistas tentavam localizar quais regiões do cérebro eram afetadas pelo transtorno e relacionar tais áreas aos sintomas. De fato, existem alguns locais no cérebro mais prejudicados: em especial, o sistema límbico (responsável por controlar as emoções) e o hipotálamo (ligado às sensações de fome, sede, sono, desejo sexual etc.). Porém, Ricardo Alberto Moreno, médico psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, esclarece que, nos últimos anos, psiquiatras e psicólogos vêm trabalhando com o conceito novo de conectividade: é a concepção de que os neurônios do cérebro estabelecem trocas de informações entre si independentemente das regiões cerebrais em que se encontram. “Logo, por causa de tal complexidade, não podemos dizer que há uma região específica para a depressão”, afirma.

O especialista explica que existe predisposição genética, ou seja, indivíduos hereditariamente mais suscetíveis à depressão; entretanto, fatores ambientais também têm um grande papel no desenvolvimento do transtorno. Outras doenças crônicas (como as cardiovasculares e até as diabetes) também geram alterações químicas no organismo e relacionam-se ao estado depressivo. Existe, ainda, a atuação do clima no desenvolvimento do tipo de depressão chamada sazonal: principalmente no outono e no início do inverno, a menor luminosidade do ambiente facilita a ocorrência da doença. Tal fenômeno é mais acentuado em países de clima temperado, onde as estações são mais bem definidas, mas estudos revelam que a situação ocorre mesmo em países tropicais, como o Brasil.

Cérebro-Depressão 2

Fundador do Grupo de Apoio às Doenças Afetivas (GRUDA), o psiquiatra trabalha há 30 anos na área de suporte àqueles que sofrem de transtornos mentais. Quando questionado a respeito do aumento de casos de depressão na atualidade, Alberno Moreno afirma que não se trata, na verdade, de um aumento no número de afetados, e sim de um aumento na visibilidade do problema. Segundo o doutor, então, a ideia de que o ritmo de vida atual, por ser mais rápido do que costumava ser no passado, gera mais depressão nos indivíduos é falsa: “A humanidade nunca viveu tão bem como se vive agora. Hoje, não temos aquelas carências básicas, do tipo alimentação, guerras, que são fatores de estresse muito impactantes.”

A depressão e a saúde pública

Além da opressão social aos portadores de depressão, é importante ressaltar que há, de certa forma, uma opressão econômica quanto ao custo do tratamento para a doença – o preço de um antidepressivo, por exemplo, pode chegar a até R$200,00, e os recursos para transtornos mentais oferecidos no sistema público de saúde ainda são muito limitados.

Por afetar justamente indivíduos na faixa etária em que seriam mais produtivos (por volta dos 25 anos), a depressão causa impactos econômicos na produtividade a nível mundial, além de aumentar os riscos de acidentes de trânsito e no trabalho (já que pacientes depressivos têm mais dificuldade em focar a atenção nas atividades cotidianamente realizadas). Um estudo realizado pela Aliança Europeia contra Depressão revela que os custos com a doença – incluindo baixa produtividade, dias de trabalho perdido, baixas médicas – podem chegar a 92 bilhões de euros por ano para a União Europeia. No Reino Unido, em 2000, estimou-se os custos diretos com tratamentos para a depressão como sendo equivalentes a 370 milhões de libras, com 84% desse valor sendo atribuído para medicamentos antidepressivos.

No Brasil, o governo disponibiliza alguns antidepressivos no sistema público de saúde. Em 1986, foi criado em São Paulo o primeiro CAPS – Centro de Atenção Psicossocial. Os CAPS, como centros de saúde mental, integram o Sistema Único de Saúde (SUS).

Esses recursos, entretanto, mostram-se insuficientes para a demanda da população brasileira, como explica a Dra. Leila Cury Tardivo. Psicóloga clínica e coordenadora do Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social do IPUSP, Tardivo dá seu parecer a respeito de programas de saúde mental públicos: “O problema é que não há (programas de saúde mental voltados à população de baixa renda) em número suficiente, mas existe sim. Deveria haver psiquiatras e psicólogos nas Unidades Básicas de saúde (o que nem sempre ocorre). Muitas vezes, quando há um psiquiatra, é apenas um e poucos psicólogos com uma enorme sobrecarga de trabalho”.

Além de marginalizar ainda mais a população de baixa renda que necessita de ajuda psiquiátrica e psicológica, a negligência do sistema público para com a saúde mental contribui para fomentar a ignorância e o preconceito. Nas palavras da Dra. Tardivo: “Deixar longe e negar é uma forma de se defender. Mas não resulta em nada de proveitoso”.

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
COMENTÁRIOS
Luis Pedro
Nossa, nunca havia pensado dessa maneira. Muito bom mesmo! Parabéns http://comohipnotizarumapessoa.info
20 jun 2016
 
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*