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Depressão: mais perto do que se imagina
Corpo e Mente
05 jun 2019 | Por David Ferrari (davidwillianferrari@gmail.com)

HOJE

Hoje

Véspera do que deverá ser um dos dias mais felizes

Meu aniversário

Não será, mas sinto novamente

Que a vida passa por mim

 

Amanhã, estarei feliz

Sim

Estarei e não serei

Pessoas e mais pessoas virão por vários lados me parabenizar

Essa é a ideia ao menos

Mas e semana passada quando eu precisava desse abraço?

Onde estavam?

 

Não culpo ninguém

Ou então teria que me culpar também

Pq não sou só eu que vivo de altos e baixos

E também não dou assistência como eu mesmo espero deles outrem

 

Mas amanhã

Serei 18

E o que isso significa?

Acho que só um número mesmo

Número significativo claro

Mas será que vou ser outro?

Aproveitar mais?

Amadurecer mais?

Ou só um número erótico pra aqueles que o querem

Assim como eu quis…

 

E a vida?

Bem, ela vai continuar

Como sempre

Um trem que insiste em vagar

Quando eu descerei a estação?

Bem, não sei

Já cogitei pular

Já clamei pelo fim

Mas covardes nem assim tem vez

Autor: Delph

Não querer levantar da cama. Chorar. Não ver mais sentido na vida. Sentir-se só. Tristeza. Tédio. Ansiedade. Muitos podem achar que são apenas sentimentos passageiros de mais um dia ruim, mas esses são apenas algumas das sensações que integram a rotina da pessoa com depressão. E esta pessoa pode parecer estar longe de nós, mas às vezes está ao nosso lado.

Segundo dados de 2015 da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 322 milhões de pessoas são afetadas pela depressão. Isso corresponde a 4,4% da população mundial. Este índice vem em constante crescimento. Entre 2005 e 2015, o número cresceu mais de 18%.

O ponto mais preocupante é que a depressão é uma doença democrática. Ela atinge a mulher, o homem, o cis, o trans, o intersexual, o branco, o negro, o amarelo, o vermelho, o pobre, o rico, a criança, o adolescente, o jovem, o adulto, o idoso… Enfim, afeta todas as pessoas, sem qualquer distinção, embora determinados grupos tenham maiores índices de incidência – estudos indicam que as mulher sofrem mais com a depressão, e, segundo o IBGE, a faixa etária de 60 a 64 anos é mais afetada no Brasil. Já que ela é democrática, universitários também são vitimados.

O ambiente acadêmico, com toda a sua complexidade, pode contribuir para o estudante desenvolver e até mesmo atenuar a depressão. “As muitas exigências e demandas da vida universitária trazem angústias, estresse, dores, medos e anseios. Em 2011, um relatório do fórum nacional de pró-reitores e assuntos comunitários estudantis divulgou que 47% dos universitários possuem algum sofrimento psíquico”, relata Thiago Mendes Pereira, psicólogo clínico.

A universidade é um reflexo de uma sociedade. Já que a nossa sociedade tem sido cada vez mais superficial, as relações interpessoais no ambiente universitário têm seguido o mesmo caminho. A fragmentação das turmas, a dificuldade para se relacionar com as outras pessoas e até mesmo a incapacidade de dizer que é depressivo são apenas alguns dos fatores que tornam as instituições ambientes tóxicos.

Porém, um fator muito importante a respeito da depressão é o diagnóstico. A doença possui sintomas muito relativos. Dentre os 20 graduandos ouvidos para a elaboração desta reportagem, alguns pontos foram similares, como crises de ansiedade e de choro, a dificuldade em levantar da cama e o sentimento de solidão. Todavia, pessoas diagnosticadas com depressão podem não manifestar essas ocorrências. Por isso, a melhor forma de diagnóstico é através de um acompanhamento com um psicólogo.

Neste ponto, muitos se recusam a buscar o tratamento. Embora saibam que não estão bem, o medo de conversar com as pessoas próximas, como família e amigos, impede a busca de apoio. Devido à visão preconceituosa a respeito da doença, decorrida da desinformação, frases como “é frescura” ou “é o diabo” costumam ser ditas, minimizando a depressão. Entretanto, a ajuda é extremamente necessária para que os estágios do distúrbio não avancem.

Com isso, o apoio familiar e dos amigos é de suma importância. “A dificuldade em conversar com suas famílias pode ser explicada por fatores culturais e de criação. Famílias que têm o hábito e costume de falar sobre o que sentem com um ou mais integrantes geralmente possuem maior facilidade para lidar com suas emoções e sentimentos”, afirma o psicólogo Thiago Pereira. Além disso, o profissional sugere que as pessoas sempre busquem conversar com outras de confiança, sejam elas amigos ou familiares.

A busca por um especialista é muito importante, porém as pessoas que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) podem não conseguir o acesso ao tratamento. Mesmo o SUS dispondo de profissionais para o atendimento psicológico, existe um déficit para o mesmo. Um dos estudantes ouvidos pelo Laboratório relatou que esperou por um mês para conseguir ser atendido por um psicólogo no sistema público. Tal demora é extremamente prejudicial, pois o estado clínico pode ser agravado durante este período. Por outro lado, as pessoas em menor estado de vulnerabilidade social, que possuem planos de saúde, conseguem o acompanhamento.

O acompanhamento terapêutico é muito importante ao depressivo. E o tempo do tratamento pode variar dependendo do estado clínico. “A duração vai depender de vários fatores, como a gravidade. Uma medicação psiquiátrica leva de dois a seis semanas para começar a fazer efeito no organismo. Às vezes o tratamento dura seis meses, outros até mesmo anos”, salienta o psicólogo.

Durante todos os estágios da depressão, a ajuda é extremamente necessária. Para o depressivo, o sentimento de solidão fica muito instável. Mesmo em lugares cheios, ele sente-se só. “A família e amigos devem se comprometer com e acompanhar o tratamento, principalmente quando o paciente expressa vontade ou desejo de morrer. Eles precisam auxiliar na alimentação saudável, na prática de exercícios físicos e na realização de atividades prazerosas”, indica Thiago.

A doença é muito prejudicial ao adoecido. Mesmo tendo consciência de seus atos, eles buscam meios de extravasar a dor – “extravasar” no sentido de aliviar. Os meios de alívio são bem relativos. Alguns dos entrevistados relataram ter o hábito de automutilação. Outros exageravam na alimentação. Também foi relatado o consumo de drogas, lícitas e ilícitas, como álcool, cigarro, maconha e cocaína. Porém, foi consensual: esses métodos eram apenas momentaneamente efetivos.

Todavia, os efeitos deles duram muito mais que o do alívio. Devido ao sistema nervoso central relacionar tais atos como “prazerosos”, ele sempre estará estimulando para que esses meios de fuga se repitam. No caso das drogas, muitos podem adquirir o vício. Na mutilação, a tendência é o agravamento, podendo chegar até em pensamentos e atos suicidas. E no caso da comida, o desenvolvimento da obesidade. Portanto, a depressão não atinge apenas a saúde mental, mas também pode atingir a saúde física.

Sendo assim, a depressão é uma doença muito complexa e totalmente contemporânea. Ela está mais próxima de nós do que pensamos.

 

Segue, abaixo, alguns relatos coletados ao longo da produção da matéria. Atenção: alguns deles possuem conteúdo sensível e possível gatilho.

“Durante a minha adolescência, eu tinha amigos, me divertia, era visto como “normal”. Mas quando as crises surgiam, eu me sentia totalmente incapaz de agir por conta própria. Isso era sempre encarado como frescura, preguiça, falta de força de vontade”

“Eu sentia nesses momentos que era melhor pra mim e para os outros eu ficar sozinho, porque eu seria uma presença desagradável no geral”

“O diagnóstico foi um alívio para mim”

“Eu buscava contar uma história pra mim mesmo sobre como o meu suicídio poderia desencadear muita coisa ruim pra pessoas de quem eu gosto. Minha atitude poderia significar alívio pra mim, porém sofrimento para outros. Mas a empatia é um valor que precisa ser ensinado e cultivado.”

“ Eu mentia pra minha família, falava que estava bem e eu me distanciei de certa forma dos meus amigos. Eles estavam lá, mas não estavam ao mesmo tempo já que eu não conseguia falar sobre como eu estava”

“Eu dormia quando não tinha sono. Aos finais de semana, eu passava dois dias deitado na cama sem fazer absolutamente nada.Não levantava nem para comer, nem pra tomar banho. Por mais que eu acordasse cedo, eu não conseguia sair da cama. Não conseguia me dedicar para a faculdade. Fora as crises de ansiedade que ocasionalmente ocorriam.”

“Não sentia vontade de fazer nada. Nem comer, sair, muito menos render na faculdade”

“Por mais que eu queria dizer que não, que as pessoas estão entendendo que é uma doença, que é comum, que não é contagiosa, tem o lado das piadinhas, de não ter paciência com as pessoas”

“Por um tempo eu tentei ignorar (os sintomas da depressão), mas comecei a perceber os sinais quando notei que já não tinha mais vontade de sair da cama nem mesmo para fazer as coisas que eu gosto”

Busque ajuda.

Acesse o site ou ligue para a CVV (Centro de Valorização à Vida):

 

https://www.cvv.org.br/

Disque 188

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