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“Desculpa o incômodo”: Por que nos desculpamos tanto?
Matéria Escura
11 abr 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Luís Henrique Franco (luligot17@gmail.com)

Pedidos de desculpa e elogios são necessários para o convívio social, mas algumas pessoas possuem dificuldades para se expressar, ou por pedirem desculpas demais ou por não conseguirem aceitar elogios

 

Viver em sociedade é algo essencial ao ser humano. Nossas relações com outras pessoas moldam nossas características sociais e compõem aquilo que chamamos de “ser civilizado”. Para podermos conviver juntos, porém, temos que estar abertos ao que os outros têm a dizer e, muitas vezes, aceitar a visão que eles nos passam, o que pode implicar no reconhecimento de um erro nosso.

Sob este aspecto, o pedido de desculpa é algo muito útil para o convívio em sociedade. Admitir um erro melhora as relações interpessoais e estabelece laços de afetividade mais resistentes, uma vez que também implica em se abrir para os outros e se mostrar humilde ao reconhecer que sua ação não foi a melhor possível. Desculpar-se deveria ser algo que nos livrasse de um fardo, mas o ato pode provocar estado de vulnerabilidade e gerar queda na autoestima, pois é um gesto que, visto pelo lado mais egocêntrico, pode ser entendido como uma “derrota” em um argumento, criando uma atitude defensiva no “eu”. “Esse ato de fala [a desculpa] é uma estratégia linguística para o restabelecimento da interação”, afirma Fábio Barbosa de Lima, professor de espanhol na Fatec Itaquaquecetuba e Doutorando em Língua Espanhola pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. “Isso pode fazer com que uma pessoa peça desculpas por tudo ou, por outro lado, levá-la a não pedir desculpas em determinadas situações, pois não lhe interessa, por variados motivos, a retomada da relação”.

Se por um lado é bem difícil pedir desculpas às vezes, por outro, existem pessoas que se desculpam por absolutamente tudo o que fazem e são. Essas pessoas são movidas por um sentimento de ter que explicar tudo para os outros e buscar uma justificativa que mude a maneira como o outro enxerga elas. Por ser visto pela maioria das pessoas como o reconhecimento de um erro, a desculpa pode nos fazer sentir mais tranquilos, mas seu uso contínuo demonstra insegurança e um pensamento de que a pessoa acredita estar sempre errada.

A desculpa na construção e preservação das relações

Estudioso da construção discursiva, Fábio analisou como os pedidos de desculpa eram efetuados em reality shows, tendo como foco de seu estudo os programas BBB (Brasil) e Gran Hermano (Argentina), os quais vê como bons espelhos da construção de discursos nas suas respectivas sociedades. Analisando o caso brasileiro, ele afirma que os pedidos de desculpa são construídos com o intuito de preservar as interações e relações sociais acima de tudo.

“Vamos fazer um percurso numa situação de ofensa – pedido de desculpas: um indivíduo ofende o outro. Quem é mal visto? O ofensor”, ele explica. “Mas, se o ofensor pede desculpas e o ofendido não aceita esse pedido, quem passa a ser mal visto? O ofendido, que é visto como uma pessoa que não é capaz de perdoar.” Para ele, o pedido de desculpas possui não só uma função de retomada da relação, mas também na maneira como a pessoa é vista em público.

Fábio também vê que, na sociedade brasileira, o intuito maior é o de “parecer bom” aos olhos dos outros, o que leva as pessoas a pedirem desculpas reiteradas vezes. Muitos desses pedidos, porém, não carregam o seu significado mais efetivo, visto que não são realizados para demonstrar humildade e reconhecer uma falha, mas buscam apenas preservar a imagem diante do público. “Muitas vezes esse ato é um jogo de aparências, uma atividade de imagem pública, que visa assegurar certa harmonia nas relações interpessoais.”

A questão psicológica

Contudo, o número excessivo de pedidos de desculpas que algumas pessoas fazem pode demonstrar muito mais uma insegurança que elas possuem do que um arrependimento. Pessoas assim demonstram um comportamento entranhado, associado a um medo que as fazem pensar que seus sentimentos, gestos e características estão sempre incomodando os outros.

Para o psicólogo e psicoterapeuta Antonio Aragão, “Todo comportamento é movido por impulsos conscientes e inconscientes. Atrás dos motivos conscientes há muitos outros que estão associados com fatores não apenas de sentimentos de autoestima, como também mecanismos de defesa, mecanismos de compensação, sentimentos de inferioridade, etc”.

Apesar de poder ser vista como uma correção e uma explicação de nossos atos, o que muitas vezes pode transmitir uma ideia de segurança, dar satisfação constantemente indica incerteza e dúvida quanto às nossas próprias decisões. A desculpa só é saudável quando verdadeira, não deve ser usada sempre. “Estes gestos sociais fazem parte dos códigos de boa convivência que aprendemos desde cedo a partir da educação familiar e que não estão escritos formalmente em nenhum manual, porém vêm sendo praticados e passados para frente ao longo das gerações”, afirma Antonio.

Segundo ele também, pessoas que enfrentam esse problema devem procurar ajuda na psicoterapia, pois sua proposta inicial seria justamente a de promover o autoconhecimento. “Para alguém olhar seus movimentos internos necessariamente terá que olhar em volta e conferir se o feedback que está recebendo do meio em que atua está em harmonia com o que pensa sobre si e se a imagem que quer passar ao grupo está sendo percebida do jeito que ele emitiu.”

“Eu não mereço tudo isso”

Além do pedido de desculpas, o elogio também é outra forma de expressão muito praticada em nossas relações pessoais. Nesse caso, se trata de uma forma que reconhece, percebe e valoriza algo no outro, estabelecendo uma conexão mais íntima e profunda entre os dois falantes. E, da mesma forma que existem pessoas que não conseguem parar de pedir desculpas por tudo, existem também aqueles que não conseguem aceitar elogios direcionados a eles.

Para Fábio de Lima, “o elogio pode ocasionar diferentes reações por parte de quem o recebe: entre aceitar o elogio e negá-lo há questões como o cuidado em não aparentar falta de modéstia ou superioridade em relação aos demais, a percepção da bajulação e, ainda, está em jogo a questão da dificuldade em não se comprometer com o seu interlocutor”.

Analisando a questão pelo lado psicológico, Antonio Aragão afirma que “somos, via de regra, muito mais críticos conosco mesmos e com nossos atos do que os outros são conosco”, e acrescenta: “Segundo Bert [Hellinger], quando se recebe algo gratuitamente, sentimo-nos impulsionados a retribuir na mesma medida, portanto mesmo que declaremos que receber Amor nunca é demais, na prática a troca de Amor ou Afeto entre duas pessoas obriga a um padrão de reciprocidade do qual aquela pessoa que se recusa ou se esquiva em receber tende a se considerar incapaz de retribuir na mesma medida.” Para ele também, o maior problema da dificuldade em aceitar elogios está nas consequências que esse comportamento pode acarretar na aceitação desse indivíduo dentro dos grupos da sociedade. “Quem se recusa entra num conflito pessoal porque ele quer ser aceito, porém tem dificuldade de corresponder a expectativa do outro”

Imagem: Reprodução

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