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Telecine: ‘Desculpe te Incomodar’ com a minha crítica social, mas o capitalismo é um problema
CINÉFILOS
11 nov 2020 | Por Lívia Magalhães (liviabmagalhaes@usp.br)

Com o nome já sugestivo ‘Cassius Green’, ou, como é chamado, ‘Cash Green’ (que, em tradução livre, significa dinheiro verde), podemos ter uma ideia de sobre o que Desculpe te Incomodar (Sorry to Bother You, 2018) vai tratar: a busca por sucesso e riqueza e as implicações éticas que se encontram no meio do caminho.

Cash Green (Lakeith Stanfield) está sem dinheiro e sem emprego. Vivendo na garagem do tio (Terry Crews), ele começa um trabalho como atendente de telemarketing. Chegando lá, encontra um sistema baseado em metas e promessas vazias: se você fizer mais vendas vai ser promovido lá para cima, os chefes juram, e se tornará um power caller (ligador do poder, como são chamados os atendentes de luxo).

Mas Cash não consegue fazer as vendas. Isto é, não consegue até que um colega de trabalho, negro como o protagonista, lhe dá uma dica. Para vender basta usar a sua “voz de branco”.

“Fale como se não tivesse preocupações. Todas as contas pagas. Está feliz com o futuro. Está pronto para pular na sua Ferrari lá fora depois deste telefonema… Expire um pouco enquanto fala. Suave, tipo ‘não preciso deste dinheiro’… Não é uma voz de branco de verdade. É a voz que eles queriam ter. O que eles pensam que a voz deles é.”

Cash na agência de telemarketing e, no fundo, Langston (Danny Glover), o colega que lhe recomenda usar a “voz de branco”. [Imagem: Divulgação/Annapurna Pictures]

À medida que Cash é promovido na agência, ele percebe que as coisas não são exatamente o que parecem ser – são muito piores. O filme inicia com uma clara proposta de crítica ao capitalismo e ao racismo que, apesar de sempre presente, se transforma no decorrer da trama, deixando o telespectador sempre preso à tela e com um constante questionamento: “isso está realmente acontecendo?”

Green vai enriquecendo, mas acaba perdendo as amizades e a namorada na trajetória. Detroit (Tessa Thompson), uma artista, termina com ele ao perceber que Cash está ficando preso dentro da sua “voz de branco”. Algumas cenas depois, porém, durante a exposição de Detroit, percebemos que a artista também adota uma “voz de branca” enquanto tenta vender suas obras para os ricos.

Tessa Thompson faz o papel de Detroit, artista que namora Cash. [Imagem: Divulgação/Annapurna Pictures]

Além de Stanfield e Thompson, a película conta com atuações de Armie Hammer (Steve Lift) e Steven Yeun (Squeeze). A direção de Boots Riley é ousada e autêntica, com recursos criativos e muitas implicações que não ficam explícitas – é o tipo de filme que, apesar de passar uma mensagem e uma história de forma clara, contém várias outras camadas que podem não ser percebidas no primeiro contato.

Mesmo com todas as camadas sendo importantes e devendo ser discutidas, o filme é daqueles que é melhor assistir não sabendo quase nada sobre. Por melhor que ele possa ser em relação à técnica, à história ou à performance dos atores, o que realmente ressalta em Desculpe te Incomodar é como a experiência de assistir a película faz o telespectador se chocar.

Confrontados com uma realidade aparentemente exagerada, ficamos sem reação. Rimos, achando algumas situações cômicas demais para serem um retrato de nossa época, e sentimos um soco no estômago com metáforas precisas sobre a face inescrupulosa do capitalismo.

O filme é situado em um presente alternativo que só pode ser interpretado como uma grande sátira da realidade. Por mais surreal que possam parecer as situações que ocorrem em Desculpe te Incomodar, é sempre possível traçar um paralelo com o que acontece do outro lado da tela.

O longa faz parte do catálogo do Telecine. Confira o trailer:

*Capa: [Imagem: Divulgação/Annapurna Pictures]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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