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Detroit: Become Human, ser ou não ser (humano)
SCI-FI
15 jan 2020 | Por Vinicius Garcia (vini.garcia.ferreira@usp.br)

Cogito ergo sum. Penso, logo existo. Seja em latim ou em português essa célebre frase do filósofo e matemático francês René Descartes diz muito sobre a humanidade, e, com o passar dos anos, nunca foi esquecida. A existência, o que é e como se apresenta, é algo ainda muito incompreendido pela humanidade. Caso compreendêssemos completamente a vida, a consciência, a racionalidade, o que seria da poesia e da filosofia? É nessa incerteza que o jogo Detroit: Become Human (2018) situa brilhantemente seus questionamentos, embutidos em uma história de alto calibre. 

O jogo, exclusivo do PlayStation 4, é um jogo “narrativo”, à Heavy Rain (2010) ou Beyond Two Souls (2013), ou seja, o grande foco do jogo é na história e como as decisões do jogador a afeta. Portanto, para jogar esse jogo é preciso que se entenda que não haverá grandes explosões e cenas de ação, como o também exclusivo Uncharted: A Thief’s End (2016), aqui a principal atração está na apreciação dos belos gráficos e da história envolvente.

O conjunto das peças

Assim como robôs, tema principal do jogo, um videogame deve ser analisado como uma junção de diversas partes diferentes que unidas servem um mesmo propósito. Em uma análise geral, o jogo é espetacular, atingindo máximos em quaisquer escala numérica arbitrária que você leitor possa querer inventar. Porém, para realmente entender o motivo de tanta grandiosidade, é preciso desmontar o conjunto, dissecá-lo, até que se separem os principais componentes que contribuem para esse desempenho.

Jogabilidade

Como dito anteriormente, a jogabilidade não é o grande foco dessa obra. Entretanto, isso não significa que os controles são ruins. A maior qualidade dessa área, talvez, seja que todo o mapeamento dos botões seja muito intuitivo, ou seja, é estabelecida a cada botão uma função muito clara. Além disso, o cuidado e o carinho empregados neste mapeamento é muito evidente. As interações com objetos são controladas pelo analógico que, geralmente, imita o movimento que o personagem faz dentro do jogo.

Contudo, o mais importante aspecto desta seção é, sem dúvidas, o sistema de escolhas. Especialidade da Quantic Dreams, desenvolvedores desse jogo e de muitos outro similares, essa dinâmica é o que dá ao jogo grande parte de sua excelência. O propósito básico deste sistema é que a experiência de cada jogador seja única, já que é necessário arcar com os erros da mesmo maneira que se lida com as vitórias, aqui não há a famosa tela do “game over”, o que deixa toda a obra muito mais divertida, porém bem mais tensa.

As escolhas tomadas são sempre ilustrada após cada fase em um diagrama. Imagem: Playstation.com

As escolhas tomadas são sempre ilustrada após cada fase em um diagrama. Imagem: playstation.com

Gráficos

O desempenho gráfico é simplesmente de tirar o fôlego, e é difícil descrevê-lo de maneira diferente. Usando e abusando das novas tecnologias gráficas desenvolvidas, o jogo beneficia-se muito dessa beleza visual, já que usa muito de cenários bem construídos e ângulos de câmera inteligentes para intensificar o que a narrativa causaria naturalmente no jogador.

Vale dizer também que aqui, como em todos os aspectos do jogo, a atenção para os detalhes é provavelmente uma das melhores qualidades desta seção. Ver a interação de luz e sombra, que é em última instância algo pequeno, e ver o realismo das construções que são exploradas, o que é bem mais perceptível, pode gerar o mesmo impacto em um jogador atento o suficiente.

Exemplo do potencial gráfico dessa obra. Imagem: playstation.com

Exemplo do potencial gráfico dessa obra. Imagem: playstation.com

História

Aqui chega, enfim, o “coração” dessa obra futurista. A narrativa é o que dá corpo ao videogame, o que acaba dando muito certo devido à presença de personagens cativantes e um enredo bem construído e envolvente.

Depender da história pode, principalmente no começo do jogo, causar uma desaceleração da emoção no jogo, causando tédio a quem não está muito acostumado com esse tipo de narrativa.

Ainda assim, o enredo é bem construído e por isso consegue manter o jogador interessado, mesmo nas partes que envolvem somente exploração. Essencialmente, a história segue três personagens: Connor, um androide policial, Markus, um androide cuidador de um idoso e Kara, que é uma androide dona de casa.

Da esquerda para a direita: Connor, Marcus e Kara. Imagem: playstation.blog

Da esquerda para a direita: Connor, Marcus e Kara. Imagem: playstation.blog

A genialidade aqui está que com esses três personagens, o jogo consegue apresentar diversos lados do mesmo problema: os divergentes. Na narrativa, um divergente é um robô que, por algum motivo desconhecido aos humanos, acaba por desenvolver algo similar a sentimentos, também apresentando certa independência de pensamentos, o que não estava programado dentro destas máquinas originalmente.

Na cidade de Detroit, titular do jogo, começam a surgir diversos casos dessa anomalia, o que gera gradualmente uma grande preocupação por parte da opinião pública, já que os humanos temem por uma “revolução dos robôs”, que possa acabar com a raça humana.

O jogo, então, propõe seu principal questionamento: robôs podem ser considerados seres vivos? E é aqui que, acima de qualquer outro grande feito técnico, ele brilha. O seu principal propósito é que o jogador, vivendo a vida dos personagens, possa cair em questionamento filosóficos e sociológicos, que acabam por transcender o pacote fechado que é um videogame.

Um brilhante quesito inovador que colabora para essa experiência intelectual é o menu do jogo. Ao contrário da convencional tela estática cheia de botões, o menu, em questões funcionais, é bem minimalista, apresentando apenas quatro teclas com a qual o jogador pode interagir, porém apresentando também uma androide. Essa robô, porém, não é meramente ilustrativa, já que ela interage ativamente com quem está no controle, gerando diversos momentos de tensão e paranoia muito similares ao que é conseguido pela série britânica Black Mirror (2011).

A androide que te observa enquanto navega o menu. Imagem: Ars Technica

A androide que te observa enquanto navega o menu. Imagem: Ars Technica

Além disso, cabe pontuar que o jogo não se limita a questões sobre a tecnologia e a vida. Há nesta obra diversas críticas e análises sociais muito interessantes e bem pontuadas por parte dos desenvolvedores, o que pode permitir que o jogador reflita sobre os benefícios e malefícios do capitalismo, o racismo, o amor, a paz e a liberdade.

Os três personagens são muito interessantes e aprofundados, algo que gera uma conexão forte entre controlador e controlado, de maneira que qualquer erro do jogador que repercute nos protagonistas e em seus companheiros tem um peso muito grande, gerando uma experiência muito rica e divertida para quem que está na frente da tela.

Veredito

No geral, o jogo é realmente quase perfeito. Talvez o caráter mais monótono em certas partes possa tirar um pouco do seu incentivo, porém, isso é compensado em partes por apresentar um gameplay bem “democrático”, já que pessoas não acostumadas com a prática conseguem se adaptar facilmente ao sistema simples de controles.

A história, foco do jogo, é, em partes, muito previsível, e dependendo do final conseguido, a conclusão pode ter um leve sentimento cliché, porém o impacto filosófico que os problemas enfrentados impõe ao jogador são o que dão a este jogo muito mais mérito, servindo em grande parte de maquiagem aos poucos defeitos que essa obra apresenta.

Se vale a pena comprar? Com certeza. Poucas obras, em qualquer mídia, conseguem ter um impacto tão direto e duradouro quanto Detroit, de maneira que, passam-se os dias, passam-se as noites, e aquela velha pergunta de Shakespeare não sai da cabeça…

Confira o trailer oficial do jogo:

Laboratório
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