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Diálogos do rei gago
CINÉFILOS
11 fev 2011 | Por Jornalismo Júnior

[O Discurso do Rei]

Pertencer à realeza britânica significa correr o risco de ver-se no cinema com certa regularidade. É provavelmente uma das muitas obrigações protocolares. Desde A Rainha, passando pelo controvertido O Sequestro do Príncipe Harry, os dramas dos Windsor já mostraram ser matéria-prima farta. Afinal, toda família tem seus esqueletos guardados no armário, e não seria diferente com as cabeças coroadas. Com estreia prevista para essa sexta-feira, 11, “O Discurso do Rei” (The King’s Speech) brinca com desenvoltura na fronteira entre a comédia e o drama.

Passada às vésperas da II Grande Guerra, a história faz um retrato lisonjeiro do Rei George VI (Colin Firth), pai de Elizabeth II. Um dos favoritos para o Oscar, conta inclusive com torcida ilustre – o filme caiu nas graças da rainha.

O Rei George V reina sobre 1/3 da população mundial. Uma multidão que seu filho Bertie prefere não encarar. Acometido por uma gagueira crônica, o príncipe tem pavor a microfones e longos discursos. Mas falar em público é uma das suas obrigações reais. Já um tanto desiludida quanto a qualquer possibilidade de cura, sua esposa (Helena Bonham Carter) recorre a Lionel (Geoffrey Rush), um excêntrico “terapeuta da fala” australiano. “Talvez um bolchevique”, como ela própria diria, com má disfarçada excitação.

Ator frustrado, Lionel mergulha Bertie em sessões diárias de um tratamento pouco ortodoxo, que envolve praguejar e gritar pela janela. A situação, no entanto, se agrava quando Bertie, segundo na linha de sucessão, é obrigado a assumir o trono após a abdicação do irmão. A Inglaterra precisa de um líder capaz de fazer frente à verborragia de Hitler, e o novo rei teme falhar no dever. A pressão provocada pela mudança de cenário trará à tona lembranças da conturbada infância de Bertie, marcada pelo apreço às aparências, o respeito ao protocolo e a distância familiar.

É curioso pensar que O Discurso do Rei é quase um “filme de ator”. Mesmo que a tradição diga que o cinema é espaço do diretor, reservando o teatro aos atores. Apesar do pano de fundo histórico, o enredo não é calcado na evolução dos acontecimentos, mas se desenrola nos diálogos (entre afiados e titubeantes) do terapeuta com seu paciente. Mesmo as locações não são muito exploradas, privilegiando cenários bem cuidados e claramente delimitados: o consultório, o gabinete de locução, a sala de espera. Não surpreenderia ver a história transposta para o tablado.

O humor elegante, que o distancia de um drama convencional, encontra nas atuações calibradas seu grande trunfo. Desde o cinismo dinástico de Helena Bonham Carter, no papel de rainha, até a ligeireza esguia de um ótimo Geoffrey Rush.

Colin Firth dispensa comentários na pele do rei gago, um papel que poderia resultar patético em outras mãos. Depois do Globo de Ouro, Firth já pode ter o Oscar quase como certo. Um prêmio esperado desde o ano passado, quando a estatueta por Direito de Amar lhe escapou. A indicação a melhor filme é merecida. Resta saber se, para a Academia, histórias de reis ainda superam a simpatia de um certo garoto de chinelos.

Por Rafael Ciscati

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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