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Os diferentes tipos de praia – e a importância de conhecê-los
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30 set 2020 | Por Camila Paim (camilapaimf@usp.br)

No verão, quando o sol aparece e todos querem relaxar, um lugar que chama a atenção da maioria é a praia. Com seu protetor solar e uma espreguiçadeira, não tem lugar melhor para esquecer da vida, enterrar o pé na areia e tomar uma boa água de coco. 

Entretanto, não são todas as praias em que o acesso ao mar é pela areia. Algumas nem tem tanta água de coco. Às vezes, é até possível encontrar alertas de tubarões ou de maiores correntezas. Essas sutis diferenças são melhor compreendidas quando entendemos quais são os diferentes tipos de praias e como podemos distingui-las.

De fato, as praias podem variar em declividade, largura, a presença de dunas e de um tipo específico de vegetação, por exemplo. Além disso, também é possível analisar a vulnerabilidade da praia à ação de eventos extremos ou à elevação do nível do mar. Segundo o professor e pesquisador do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP) Eduardo Siegle, a importância de conhecer os diferentes tipos de praia é tanto para “entender os processos envolvidos na dinâmica costeira, como também para definir a suscetibilidade das praias a mudanças com influências externas.”

 

As ondas

É comum ouvir falar de praias tranquilas para tomar banho de mar ou ideais para surfar. Essas características dependem principalmente da força das ondas. “Ao longo do litoral brasileiro, por exemplo, podemos observar de forma simplificada que o nível de força de ondas que alcançam o litoral vai diminuindo de sul para norte”, comenta Siegle. As ondas são geradas a grandes distâncias e deslocam-se pelo oceano até chegarem às regiões mais rasas. 

Surfista na Praia de Pipa, RN. [Imagem: Reprodução/Pipa]

Surfista na Praia de Pipa, RN. [Imagem: Reprodução/ Pipa]

Outra característica importante das praias é a sua temperatura. Muitas praias no Nordeste, por exemplo, costumam ter a água bem aquecida ao longo do dia. Siegle explica que as áreas de maiores latitudes, em regiões mais frias, recebem ondas mais energéticas pela proximidade com áreas de geração de ondas, com ventos mais intensos. As áreas tropicais, mais distantes dessas regiões de ventos intensos, recebem ondas menores. Mas isso não tem relação direta com a temperatura da água, mas sim da posição geográfica em relação às áreas de geração das ondas mais energéticas. 

 

O sal

Algumas vezes, pessoas comentam que sentem que as águas de determinada praia é mais ou menos salgada do que as de outra. Essa diferença na concentração salina pode ocorrer em função da proximidade de rios que deságuam no mar. Ou seja, se a praia está próxima à desembocadura de um rio, sendo ele de água doce, a água vai apresentar menor salinidade. 

A concentração de sal também varia em períodos chuvosos. Com muita chuva, a descarga de água doce pelos rios aumenta e a salinidade diminui. Em períodos mais secos, acontece justamente o contrário. Assim, a água realmente pode parecer mais ou menos salgada dependendo da época e da localização da praia. 

 

Os ecossistemas marinhos

O Brasil tem uma variedade muito grande de fauna e flora dentro e fora d’água. Os ecossistemas costeiros, tanto de mares e rios, mas também estuários e manguezais variam de acordo com diversos fatores.

Jodir Pereira da Silva, biólogo marinho pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) destaca a hidrodinâmica. Ela sofre a influência direta de correntes oceânicas, vento, latitude, configuração da costa, entre outros. Somado a isso, “existe a influência da descarga de água doce de origem continental em quantidade e fluxo variáveis, assim como a constituição do substrato (base) e a turbidez da água (característica que determina a propagação de luz).”

Mergulhadores no Arraial do Cabo, RJ. [Imagem: Reprodução/ Instinto Viajante]

Entre as características que podem definir a variedade da fauna e flora marinha, destacam-se a produtividade primária (que depende de energia radiante do Sol, transparência da água e profundidade), latitude (que determina valores médios de energia disponível), disponibilidade de nutrientes minerais e complexidade ambiental. Logo, animais e plantas desenvolvem-se nos ambientes mais favoráveis quanto a esses aspectos. 

Segundo Jodir, as maiores variedades, tanto na fauna como na flora, estão nas regiões de menores latitudes (mais próximas à linha do Equador) do que em maiores latitudes (em direção ao sul). “Na Costa Nordeste do Brasil temos grande variedade de ambientes e grande disponibilidade de energia radiante. Espera-se maiores índices de diversidade neste tipo de ambiente.” 

 

O óleo nas praias 

Quando questionado sobre a importância de diferenciar os tipos de praia, Siegle destacou que conhecer o perfil natural de uma praia é a melhor proteção para eventos extremos e para podermos manejar da melhor forma esses ambiente, até mesmo prevendo como elas se comportarão  quando sujeitas a diferentes cenários.

Voluntários trabalhando na limpeza da praia de Carneiros, PE. [Imagem: Reprodução/ REC Aerial Media]

Voluntários trabalhando na limpeza da praia de Carneiros, PE. [Imagem: Reprodução/ REC Aerial Media]

Em agosto de 2019, manchas de óleo começaram a surgir em praias Nordeste e, posteriormente, chegaram até em parte do Sudeste. O descaso do governo nesse período ficou marcado, mas graças à mobilização de organizações não governamentais (ONGs) e apoio da população costeira, a limpeza das praias foi intensa e bem-sucedida. Contudo, parte do óleo depositou-se na parte submersa, em camadas que foram recobertas com areia. Apesar do óleo estar “escondido”, ondas mais energéticas podem provocar sua ressuspensão, trazendo-o novamente para praias. Além disso, o que ficou depositado em canais, após entrar em estuários, pode ser transportado posteriormente para ambientes adjacentes.

“Esse realmente foi um grande desastre ambiental que causou muitos impactos em ambientes costeiros que serão ainda sentidos por anos”, relembra Siegle. “Mesmo esse óleo que não estando visível, ele continua impactando o ambiente pela sua composição química”.

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