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Do tradicional ao polêmico: o uso das redes sociais na política

Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades.

JPRESS
17 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

O texto abaixo faz parte de um novo projeto experimental da Jornalismo Júnior.

Por Tamara Nassif (tnassif@usp.br) e João Pedro Malar (joaopedromalar@gmail.com)

Talvez você já tenha lido essa frase em algum lugar. Proferida por Jair Bolsonaro em seu Twitter, faz parte de uma publicação que gerou controvérsia em relação ao uso de redes sociais por figuras em cargos de poder. Essa situação não foi a primeira do tipo no Brasil, tampouco ao redor do mundo. São vários os casos de polêmicas criadas por um uso não institucional das redes sociais, inclusive por chefes de Estado.

Donald Trump, Narendra Modi, Recep Tayyip Erdogan. Conhecidos por veicular ideologias nacionalistas, opiniões conservadoras e discursos inflamados, eles divergem de uma linha mais tradicional do uso de redes sociais, até então tido como padrão para líderes políticos. O Twitter, por exemplo, era predominantemente utilizado para passar agendas, mensagens de condolências, comunicados oficiais e opiniões mais abrangentes que englobavam o todo da sociedade. São exemplos dessa conduta Justin Trudeau, Theresa May, Mauricio Macri e Shinzo Abe.

No entanto, nota-se uma perda de espaço dessa estratégia comedida de comportamento nas redes para uma mais incisiva. Mais agressiva, menos polida. Mais direcionada, menos abrangente. Mais privada, menos pública.

“Essa separação [entre público e privado] é complexa quando se trata de uma pessoa que ocupa cargo público”, é o que diz Vitor Blotta – advogado e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)– já que pode ocorrer uma violação do princípio da impessoalidade, ideia esta esperada na administração pública. As redes sociais, nesse sentido, aumentam a chance de diluição entre o público e o privado. Usa-se um perfil pessoal para abordar questões do âmbito presidencial, e vice-versa.

O caso de Donald Trump é mais aparente. Há duas contas em uso: @POTUS, sigla para President Of The United States (Presidente dos Estados Unidos, em tradução livre), e @realDonaldTrump, criada em 2009, quando o presidente era apenas um empresário e personalidade televisiva. A primeira se resume a somente reproduzir, ou retweetar, o conteúdo produzido pela segunda. O que se percebe é uma continuidade da figura de empresário, ao invés da adoção da de presidente. Isso não ocorreu com seu precursor, Barack Obama: os tweets feitos por sua conta presidencial eram exclusivamente institucionais ou que veiculavam uma imagem mais neutra.

Mas existem consequências legais para uma violação do princípio da impessoalidade? Para Blotta, há apenas uma hipótese de crime prevista na lei de Impeachment que se relaciona com esse caso: uma atuação incompatível com a dignidade, decoro e honra do cargo (art 7º, parágrafo IX). O professor destaca, porém, que o texto é muito subjetivo e sujeito à interpretação, o que, aliado ao apoio do presidente no Congresso, relativiza a realização de punições legais. A possibilidade de sanção foi levantada após uma série de tweets feitos pelo presidente Jair Bolsonaro no Carnaval, incluindo a frase inicial deste texto e a polêmica pergunta “O que é golden shower?”.

Presidentes usarem as redes sociais de maneira não institucional permite traçar paralelos com o discurso associado ao de campanhas eleitorais. E isso não é uma coincidência. Para Adrian Gurza Lavalle, Editor-Chefe da Brazilian Political Science Review e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), o que se mostra é uma continuidade do discurso de campanha marcado por “linguagem direta, provocativa, que suspende as regras de cortesia e se dispõe de todos os recursos possíveis para concorrer com o outro sem parcimônia”. Na história da relação dos meios de comunicação com a política, isso é algo inédito.

E esse ineditismo é uma ameaça à democracia. “O presidente de uma nação não pode se comportar como um candidato, porque não pode opinar sobre qualquer coisa. Esse tipo de atitude vulnera a posição institucional que ele assume, devendo ser mais comedido e respondendo à toda sociedade representada por ele”, disse Lavalle. Ao priorizar sua base eleitoral e de apoio, ele descarta o outro montante da população que não pensa como ele enquanto figura privada. Nesse sentido, o problema recai no fato de que ele foi democraticamente eleito para representar toda uma sociedade, ao invés daquela parcela que o elegeu. No caso de Bolsonaro, isso se torna ainda mais problemático quando pensamos na frase que proferiu em fevereiro de 2017: “as minorias têm que se curvar às maiorias”.

Lavalle também cita que se espera que um presidente utilize canais mais oficiais para construir sua imagem pública, como jornais e grande imprensa. Ao tornar uma rede social seu principal canal de comunicação, ele desvaloriza o veículo tradicional. Para além da problemática de desmerecer o trabalho jornalístico, que muitas vezes está aliado a uma busca denunciatória de infrações, o jornalismo também tem o papel de filtrar informações absurdas ou falsas, e isso não acontece na grande maioria das redes sociais. Um exemplo dado por Lavalle é o “kit gay”, que não teria recebido atenção caso tivesse sido filtrado anteriormente pela imprensa tradicional.

Sem esses filtros, consegue-se utilizar um discurso mais apelativo e que atinge mais pessoas, algo que o funcionamento das redes sociais facilita. A análise e aproveitamento de algoritmos permite a elaboração e proliferação de um discurso direcionado para uma base, ou possível base de apoio, ainda não alcançada. Cria-se uma fala sob medida, que dá uma aparência de verdade e atende às demandas ideológicas de parte da população, independentemente da factualidade associada a esse discurso. “A democracia foi feita para funcionar com filtragem, e sem filtros ela não funciona”, disse o professor.

Uma rede social que ilustra esse direcionamento de discursos é o WhatsApp. Porém, para Mayra Rodrigues Gomes, linguista e professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), mais importante que o meio é a receptividade do interlocutor e a credibilidade do locutor. Nesse sentido, o WhatsApp é uma rede “pessoa a pessoa”, em que as conversas são normalmente feitas por quem já se conhece, trazendo a credibilidade e confiança necessárias para absorção de um discurso que já desperta interesse (receptividade). É o que Lavalle diz sobre o efeito do aplicativo: “ele atinge uma magnitude brutal em termos de capacidade de função”.

Essa questão comunicacional envolvendo as redes sociais pôde ser observada nas eleições presidenciais brasileiras de 2018. Ambos os candidatos do segundo turno, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, utilizaram-se dos discursos apelativos característicos das redes, com um diferencial que Bolsonaro já fazia isso há mais tempo que Haddad. De acordo com Lavalle, a reta final do segundo turno foi crucial para Haddad no momento em que sua base decidiu sair do Facebook, Twitter e WhatsApp e ir para as ruas, buscando convencer aqueles que estavam dispostos a ouvir o outro lado — algo pouco provável na internet.

As redes sociais têm um potencial de difundir, com tremenda eficiência, discursos e ideias direcionados. E esse potencial é cada vez mais utilizado por políticos ao redor do mundo, incluindo presidentes e primeiros-ministros. A transmissão de ideias ocorre em conjunto com uma mistura da figura pública com o indivíduo, algo que pode levar a violações éticas e jurídicas. Acima de tudo, a própria democracia é ameaçada por essa prática, já que ela desconsidera uma parte da população — e suas necessidades e anseios — e permite o compartilhamento de conteúdos falsos ou manipulados. Em busca do apoio político, o decoro, a verdade e a democracia são postos em xeque. Em um governo de todos para todos, isso não pode acontecer.

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