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Doce entardecer na Toscana – O poder de um discurso
CINÉFILOS
11 mar 2020 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br) 

Doce entardecer na Toscana (Dolce fine giornata, 2019) é um filme polonês que retrata, a partir da vida de uma poeta vencedora do Nobel de Literatura, o preconceito contra refugiados e o impacto de um discurso mal compreendido. A história, em si, não é das mais interessantes, talvez pelo roteiro pouco dinâmico, mas seu significado sensibiliza quem assiste.

Maria Linde (Krystyna Janda) é uma escritora polonesa judia que vive na Toscana desde a infância. Lá ela conheceu seu marido (Antonio Catania) e teve sua filha (Kasia Smutniak). Agora é avó de duas crianças, que foram visitá-la com a mãe. Linde não corresponde aos estereótipos da idade: é uma senhora rebelde, progressista e independente. Além disso, desenvolve um caso com um jovem egípcio de 35 anos, conhecido da família.

Maria Linde e Nazeer, seu amante egípcio. [Imagem: Arteplex Filmes]

No meio do filme, acontece um ataque terrorista em Roma, o que intensifica a xenofobia e o nacionalismo italiano. Em uma data perto desse acontecimento, Maria Linde é convidada para discursar na prefeitura em agradecimento a seu prêmio Nobel. Diante de pessoas arrasadas com a tragédia, a poeta faz um discurso com uma interpretação dúbia, que pode trazer conotações negativas. 

Em seu discurso, ela trata o atentado terrorista como uma forma de arte e diz que as pessoas não podem ter tanto medo a ponto de deixarem de viver. Afirma ainda que, no meio de tanto caos, é preciso ver a beleza nas coisas. Mas em quais coisas? Isso não fica claro, e alguns acusam Linde de simpatizar com terroristas. A escritora passa a ser vista com maus olhares, e sua família também sofre as consequências.

Maria durante seu discurso polêmico. [Imagem: Arteplex Filmes]

As outras cenas não chamam tanto a atenção quanto esse clímax, mas há momentos em que o preconceito contra estrangeiros é retratado de maneira sutil. Um exemplo é quando Salva, neto da protagonista, desaparece por algumas horas e é encontrado por Nazeer o amante egípcio. Embora a família afirme que é amiga do jovem árabe, a polícia, desconfiada, leva-o a um interrogatório. Tudo isso no clima de medo e suspeita quanto a imigrantes.

Como se passa na Itália, o idioma predominante do longa é o italiano. Porém, entre a família, Maria conversa em polonês.Há momentos ainda, como durante uma entrevista feita por um jornalista do Le Monde, nos quais os diálogos são em francês. Por fim, há canções do Frank Sinatra, cantadas em inglês. As quatro línguas presentes podem confundir um pouco quem assiste. Mas, ao mesmo tempo, essa diversidade de idiomas enriquece a narrativa, tornando-a mais realista do que muitos filmes hollywoodianos nos quais as personagens, em geral, só falam inglês mesmo quando retratam outras nacionalidades.

O elenco foi bem selecionado. A maioria das atrizes e dos atores nasceu no país de origem da personagem que interpretam, o que tornou as falas mais naturais. Além disso, as atuações conseguiram trazer o drama, a comoção e a crítica desejados. A atriz Krystyna Janda, inclusive, recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Sundance por sua interpretação. A fotografia também conseguiu retratar esse efeito: mostra o choque de uma cidade, até então simples e pacata, preocupada com ameaças terroristas.

Como já mencionado, embora a história não seja cativante, traz uma reflexão importante e atual. As relações familiares, o preconceito nacionalista e o impacto que as palavras podem trazer são temas muito bem abordados nesse longa cult polonês. Embora seja um filme de difícil absorção, vale a pena se concentrar por 90 minutos para captar sua mensagem.

Doce entardecer na Toscana estreia dia 12 de março no Brasil. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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