Home Lançamentos Dois Caras Legais e a comédia de erros
Dois Caras Legais e a comédia de erros
CINÉFILOS
14 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

Ocupados vasculhando a sala de projeção, Healy (Russell Crowe) e March (Ryan Gosling) não notam a chegada de uma mulher armada e acabam feitos reféns. Prestes a ser executada, a dupla é mais uma vez surpreendida, agora pelo serviço de quarto que bate à porta. Nos breves segundos em que a assassina se vira, March rapidamente se debruça no companheiro, procurando sem sucesso uma arma escondida no tornozelo. Sem entender nada, a moça volta-se à porta rindo e, após abri-la, se depara com a filha de March à espera. Esta, imaginando ter café quente em mãos, arremessa o conteúdo do bule na tentativa de queimar a criminosa. Obviamente, no entanto, o café estava frio. Cansada então da palhaçada, a moça dá um passo à frente, escorrega na poça formada, bate a cabeça no assoalho e acaba enfim desacordada. Cenas como esta são apenas uma pequena fração da espontaneidade presente em Dois Caras Legais (The Nice Guys, 2016).

The Nice Guys_1

Investigando o sumiço da filha da chefe do Departamento de Justiça americano, o detetive particular March terá que juntar forças com o brutamontes Healy, a fim de desmembrar uma conspiração orquestrada pelas companhias automobilísticas do país. Passado no anos 70, o filme ainda contrasta o furor da revolução hippie com o submundo de prostituição e gangues. E aqui, os figurinos e penteados característicos colaboram para que o espectador possa se sentir de fato imerso na época. Em uma das festas, por exemplo, a banda que aparece é uma nítida referência à Earth, Wind and Fire.

Mais do que a fiel caracterização, no entanto, a energia de Dois Caras Legais deve muito à divertidíssima dinâmica de dupla. Mesmo que de um vigor físico robusto, Haley é quem será a parte racional do grupo, optando algumas vezes pela apuração ao invés da violência. No entanto, uma vez certo do que procura, a ofensiva vem brutal e ágil. E as expressões sempre serenas de Crowe enquanto distribui socos acabam tornando-o ainda mais intimidador. Por outro lado, ganhando dinheiro imerecidamente com casos insolucionáveis, March desconta a perda da mulher e a desilusão do emprego na bebida; o que o deixa, digamos, “alegrinho”. E o olhar aflito de Gosling enquanto dá gritinhos nunca deixa de ser hilário (e acredite, são muitos). Mas é justamente as peripécias do álcool que o levam à resolução dos problemas. É por ter, por exemplo, caído do parapeito da sacada enquanto tentava conquistar uma garota, que March acaba resolvendo um dos principais dilemas da investigação. Será então do contraste das personalidades que virá o motor para o desenrolar da trama.

The Nice Guys_2

Infelizmente, o mesmo não se pode dizer dos vilões do filme (cujos disfarces serão aqui mantidos). A primeira aparição de um deles é extremamente caricata, sem contar que a obra nem se preocupa em esconder sua identidade, considerando que a ideia era a de que ele estivesse disfarçado, o que torna a revelação totalmente anticlimática. Da mesma forma, o arco de um dos outros vilões é também risivelmente mal desenvolvido, guardando até mesmo um momento à la Scooby-Doo, “se não fossem por esses garotos enxeridos”. Não à toa, por não ter uma sensação de urgência, a conclusão acaba soando um pouco acomodada demais.

As cenas de ação, embora em sua maioria não muito dinâmicas, apresentam um ritmo eficiente quando brigas simultâneas são montadas em paralelo. Para tal, uma trilha sonora genérica de ação ainda consegue acentuar bem a tensão das cenas. Ao mesmo tempo, a trilha também impulsiona o espectador para o universo da obra, abrangendo tanto clássicos dos anos 70 (Rock and Roll All Nite, do Kiss e September, do Earth, Wind and Fire), como temas de soul característicos dos filmes da década.

Num tempo em que as dinâmicas de dupla parecem sempre recicladas de sucessos anteriores, Dois Caras Legais, ainda que como homenagem aos anos 70, surge como um fôlego ao gênero policial. E mesmo que a unidimensionalidade de seus vilões e o final esquemático tirem um pouco do brilho da experiência, é fascinante como a imprevisibilidade do roteiro nunca soa preguiçosa; a espontaneidade impera. Assim, não há erro de comédia, mas sim uma comédia de erros.

Assista ao trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=H6OXgjMhUxs

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*