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Domingo e a discussão da luta de classes
CINÉFILOS
03 out 2019 | Por Mariana Carrara (marianacarrara@usp.br)

Domingo (2018) acompanha o dia 1° de janeiro de 2003 de uma família burguesa gaúcha. Enquanto Lula tomava posse como novo presidente do Brasil, a família, em uma casa de campo, celebrava o ano novo com um churrasco. Parentes, agregados e empregados formam o enredo do longa.

Em momentos com a câmera no tripé, o espectador acompanha de longe o movimento de aparências da família: um na churrasqueira, alguns sentados na mesa comendo e bebendo e várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Em outros, a câmera em plano-sequência segue os personagens e revela seus segredos, traições e angústias, o que dá dinamismo para a história e desconstrói a ideia de família rica perfeita.

Gravado em Pelotas, município do Rio Grande do Sul, o filme ambienta muito bem a localidade. Cenas da casa de campo, do rio, cenas que mostram o empregado matando o carneiro, tirando sua pele e os sons, tudo isso contribuiu para que o espectador possa perceber o Sul como ele é. Ter a maioria do elenco e equipe técnica gaúchos também colabora para isso. Não só pelos sotaques, mas também por saberem retratar a própria cultura e, às vezes, até estereótipos da região.

Lucas Paraizo, roteirista de Domingo, escreveu o filme a partir de suas memórias de infância no Sul do Brasil. Ele já ganhou diversos prêmios e foi eleito “Roteirista do Ano” em 2017 pela Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA). [Imagem: ABRA]

Um grande retrato do modo de vida da elite gaúcha, com alguns exageros e sátiras, Domingo traz à tona a luta de classes. O faz não só mostrando a relação de tensão dos patrões ricos com os empregados ― o adolescente que assedia a filha da empregada, a matriarca que humilha os funcionários ―, mas também discutindo a diferença do significado da eleição de Lula para as diferentes classes.

Laura (Ítala Nandi), a matriarca da família, quando escuta ou vê Lula, faz cara de desgosto, de raiva. Ela representa bem o que a elite, inicialmente, achava do novo presidente, com valores de antítese aos interesses burgueses. Ela teme que a eleição de Lula seja uma “vingança dos pobres” e que possa perder a casa para os sem-terra. Já os empregados, quando  o escutam discursar ou conversam sobre, o fazem com esperança. Esperança de que as coisas vão melhorar. 

É por isso que o filme faz refletir. Ele não tem um enredo hollywoodiano que empolga, causa curiosidade, com começo meio e fim e um problema para solucionar, mas as discussões que levanta o torna interessante e faz refletir. 

Em alguns momentos, Domingo chega a ser confuso para o espectador, porém é original, brasileiro e diferente do que costumamos ver no cinema. Não é previsível, mas reflexivo. O filme provoca uma reflexão importante em um momento de acirramento político e, em especial, para repensar os motivos de cada um, e de cada classe social, para gostar ou não de certas ideologias políticas. 

Após circuito de festivais internacionais, o longa tem data de estreia prevista para o dia 3 de outubro no Brasil. Confira o trailer

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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