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Doutor Sono: A difícil tarefa de fazer jus a um clássico
CINÉFILOS
07 nov 2019 | Por Anderson M. Lima (anderson.marques.lima@usp.br)

O ano de 2019 foi, com certeza, o ano no qual Stephen King ganhou mais adaptações de seus livros. Entre erros e acertos, a última aposta envolvendo o escritor é Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019), continuação do livro e filme O Iluminado (The Shining, 1980). Alguns fãs mais entusiastas poderiam dizer que essa última afirmação está errada, mas de fato, o longa serve como seguimento para ambas as obras. 

Quando o filme de Kubrick saiu em 1980, ele se tornou rapidamente um clássico cult do terror e do cinema. Entretanto, alguns ajustes foram feitos pelo diretor, alterações que não agradaram King, especialmente no tratamento dado ao círculo familiar mostrado na narrativa. 

Eis que em 2019, a produtora Warner Bros. decide investir na adaptação do livro que segue a história de Danny Torrance (Ewan McGregor), com Mike Flannagan comandando a direção. O diretor não é nenhum novato na arte de adaptar livros de King, já que também dirigiu o eficiente Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017). 

Com a difícil tarefa de dar seguimento a um clássico e respeitar a obra original, Flanagan consegue fazer as duas coisas. Nos dois primeiros terços do longa, o livro recebe mais atenção e é melhor adaptado, mas quando chega em seu último terço, Doutor Sono faz todas as homenagens possíveis ao filme de Kubrick, conseguindo interligar os dois mundos. À primeira vista, essas homenagens podem parecer forçadas, já que reproduzem fielmente cenas clássicas do original de 1980, no entanto, encaixam perfeitamente no roteiro. 

Além de mostrar o que aconteceu com Danny, o longa serve para introduzir novos personagens, como a iluminada Abra Stone (Kyliegh Curran) e o bando de “vampiros” comandado por Rose, The Hat (Rebecca Ferguson), criaturas que buscam “iluminados”, sugando seus poderes e perpetuando suas vidas. Com relação à Curran, apesar de desempenhar seu papel muito bem, ocasionalmente escapa um sorriso que nos tira da tensão criada e isso pode prejudicar a tentativa de causar sustos. Ferguson faz uma vilã irrepreensível: imponente e cheia de camadas. Não é estranho torcer por ela em algumas cenas e o desenvolvimento dos duelos de poderes entre as duas personagens é bem interessante, como na cena em que ocorre uma batalha mental entre as atrizes.  

McGregor consegue interpretar o problemático protagonista de forma que torçamos para que ele vença seus desafios, sendo o alcoolismo seu principal inimigo. Fazendo relações com a história de seu pai, Jack Torrance (Jack Nicholson no original), há uma cena emocionante em que Danny homenageia-o ao vencer o problema do alcoolismo.   

Os fantasmas do passado voltam para aterrorizar Danny em uma homenagem nostálgica aos medos de infância vistos em O Iluminado [Imagem: Divulgação]

Os efeitos visuais geralmente entregam um resultado satisfatório, sendo artístico e estiloso. Entretanto, em determinados momentos, como nas mortes dos “vampiros”, a sensação vista se assemelha mais ao seriado Sobrenatural (Supernatural, 2005), deixando a situação mais inverossímil e removendo a atmosfera de tensão criada até o momento. 

A parte que mais rememora o longa original é a sonora. Há sempre um barulho perturbador no fundo de tela, quase inaudível, mas que nos deixa incomodados nas situações tensas que o filme nos entrega. Situações essas que não aparecem em grande quantidade, mas são eficientes quando solicitadas. 

Apesar de o longa de 1980 ser mais claustrofóbico e intimista, o de Flanagan tem um ritmo lento e fragmentado, ganhando intensidade em sua parte final. A nostalgia impera nesse momento, pois além de representações fiéis de cenas do original, temos respostas a algumas perguntas, homenagens explícitas e implícitas, além de reimaginações de cenas que haviam sido interpretadas por Nicholson no passado, sendo refeitas por McGregor no presente. O Hotel Overlook continua sendo um personagem à parte e é interessante revisitar alguns de seus moradores, como as gêmeas Grady ou a moradora do apartamento 237. 

O objetivo desde o início era colocar as duas produções de forma unificada, reparar o gargalo entre O Iluminado de Kubrick e O Iluminado de King. Se houvesse uma maneira de fazer isso, mesmo que um pouco, era o que eu queria como fã”, comenta Flanagan em entrevista ao Entertainment Weekly. Se o diretor consegue esse feito, vai depender da sensação de cada espectador ao fim da sessão. 

Independente disso, Flanagan já ganhou a aprovação que tanto desejava: a do próprio Stephen King. “Não quero entrar em uma grande discussão sobre o quão o filme O Iluminado é bom ou o que eu sinto por ele. Tudo o que eu posso dizer é que Mike pegou o material, criou uma história incrível (…) Porque ele conseguiu pegar o meu livro, Doutor Sono, a sequência, e de alguma forma conectá-lo tranquilamente à versão de Kubrick de O Iluminado. Então, sim, eu gostei bastante disso,” comenta o escritor na mesma entrevista citada. 

Se Doutor Sono conseguiu mudar um pouco a percepção de King em relação a O Iluminado de Kubrick, não há razão para não se dar uma chance para essa nova empreitada. Evitar as comparações será a melhor maneira de aproveitar ambas as obras.  

O longa tem estreia prevista para o dia 7 de novembro no Brasil. Confira o trailer

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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