Home Cultura Drag pelo Brasil
Drag pelo Brasil

A arte drag queen como entretenimento e como ato político

JPRESS
08 jul 2019 | Por Emylly Alves

As duas primeiras entrevistas desta reportagem foram realizadas no Cabaret da Cecília, espaço inspirado nos cabarés franceses. Quase madrugada, uma portinha me deu acesso ao lugar de clima intimista. Bebi drinks embaixo do estroboscópio com formato de caveira no porão abafado da casa noturna. Assisti à performances de dança, teatro e música. Escutei, por duas vezes, o finalizar da noite com: “quem mostra a genitália ganha drink”. Tinha o objetivo de conversar e conhecer a Morgana Histriônica e a Mercedez Vulcão, em diferentes noites. Mas, a três mil quilômetros do centro de São Paulo, também escutei a história de Amélie Bracchi, jovem artista que conheci em festas na noite da capital potiguar. 

Gabriel Morgante performando Morgana Histriônica [Imagem: Instagram/Reprodução]

“Eu tinha uma questão de me montar, de me travestir.” Ator, Gabriel Morgante imitava figuras femininas em peças teatrais desde criança. Mas ser drag queen veio somente em 2015. Naquele ano, ele teve diversas crises de ansiedade e também foi diagnosticado com transtorno de personalidade histriônica — caracterizado por um padrão de emocionalidade excessiva e a necessidade de chamar atenção para si mesmo, incluindo a procura de aprovação e comportamento inapropriadamente sedutor. Desse transtorno, a Morgana leva o nome: Morgana Histriônica.

“Eu vi na arte drag uma forma de extravasar meu alter ego e também minha personalidade — que nem sempre é tão fácil de lidar. A Morgana foi essa junção: do feminino e de usar a questão dos diagnósticos num outro ser.” Apesar de ser uma personagem, a Morgana é uma parte importante e influente do Gabriel. “Na verdade, ela é diferente de mim. Mas faz parte de mim, porque tem coisas que eu tenho. Como se eu isolasse algumas características que a formam. Já o Gabriel é uma junção de várias outras coisas.”

Gabriel Morgante prioriza profissionalmente o trabalho artístico comercial e também o mais conceitual, incorporando performances e diversos tipos de intervenções. Ele integra, inclusive, o elenco do comercial do Banco do Brasil vetado pelo presidente Jair Bolsonaro em abril deste ano.

“Mas drag em si já é uma expressão artística. Eu sair de casa assim já é uma forma de questionamento. Faz as pessoas pensarem diferente. E entenderem isso como uma demonstração de força, de luta”, diz. Ele investiu em um canal no Youtube: o Transtô, em que interpreta outros personagens com transtornos de personalidade. “A ideia do canal é dar voz a essas pessoas que, na sociedade, são marginalizadas.” 

Gabriel Morgante também é comediante, fazendo comédia não só com a Morgana, mas com os seus outros personagens. “O Gabriel, em si, é muito engraçado, muito autêntico, muito expressivo. E a Morgana também faz comédia. Ela tem um humor próprio: ácido, ríspido às vezes, agressivo, irônico”, explica.

Morgana Histriônica em post de divulgação de sua apresentação na Virada Cultural [Imagem: Instagram/Reprodução]

Para o Gabriel, a questão da drag queen nasce dentro de cada um e vai além da aparência. “Tem que ter uma alma drag, uma veia correndo dentro de si; que transforma. Tem que ter uma personalidade forte. Porque drag queen é uma militância, é uma forma de protesto, é uma forma de política. De ser um cidadão político.”

Para dar vida à Morgana Histriônica, leva em média de duas até três horas e meia na maquiagem. Com o figurino, são até quatro horas. Comenta que já demorou mais, mas encontrou sua própria técnica. Apesar de ter feito cursos de maquiagem no teatro, foi a prática que o fez encontrar a que funciona para ele. Buscou referências e criou seu próprio estilo a partir das coisas que via. “Cada pessoa entende do que é feita sua viagem estética. Também não é limitadora, existem variações de Morgana”, afirma.

Sobre ter lidado com preconceito comenta suas experiências: “eu lidei em um relacionamento afetivo. Talvez estivesse relacionado a ele aceitar o seu próprio feminino ou aceitar o feminino no outro”. Gabriel acredita que, às vezes, as pessoas pensam que a incompreensão só existe no “mundo diferente” mas, no próprio universo LGBTQ+, há o conflito de entender a performance apenas como arte. “É meu trabalho também, é minha terapia, mas faz parte de mim.”

Gabriel Morgante acredita que cada vez mais a cena drag queen não tem se limitado ao circuito underground e tem conquistado novos públicos. Apesar disso, ainda deveria ser mais valorizada financeiramente. “Não é barato. A maioria das drags faz outras coisas para se manter nisso. Muitas desistem por não terem como comprar alguns itens. Arte não tem preço, mas custa bastante. As pessoas precisam valorizar esse trabalho que é difícil e cuidadoso.”

Sobre a aceitação familiar, relata que não foi difícil. “Minha família é muito pequena. Meu pai faleceu há 10 anos e minha mãe mora comigo, ela sempre me apoiou em tudo.” Alguns parentes não acreditavam que ele teria sucesso na arte em geral. “Mas, por mais que eu não tenha um alcance nacional, tenho respeito e consigo viver com isso, pagar todas as minhas contas. Enfim, tenho apoio das pessoas que fazem questão de estar na minha vida”, comenta.

 

Um vulcão de drag

Pedro Machitte performando Mercedez Vulcão [Imagem: Instagram/Reprodução]

Pedro Machitte, formado em artes cênicas pela Unicamp, diz que tinha vontade de ser drag queen há muito tempo e que já se montava eventualmente em algumas situações. “Uma vez, fiquei na porta do aniversário de uma amiga recebendo convidados. Faz muito tempo isso. Uma outra, estava trabalhando em Recife, no mesmo tempo em que ocorria a Parada LGBTQ+ lá, e me montei. Mas tudo muito amador ainda.” Encarnou, de fato, a Mercedez Vulcão em 2015, quando fez o Drag Queen Curso no Sesc Consolação, no centro de São Paulo. 

“Participei desse curso. Nele, percebi que queria fazer aquilo. Depois, fiz a versão extensiva. Acabamos montando um espetáculo: Cabaré Show Drag.” Pedro comenta sobre o nascimento da Mercedez Vulcão e diz que ela vem do teatro. “Eu já sou ator também. Então, segui ligando a drag com isso. Faço teatro desde os 11 anos de idade e a drag apareceu para somar.” Suas principais referências, desde que queria ser drag queen, vêm de filmes do Almodóvar.

Mercedez Vulcão em seu espetáculo Cabaré Show Drag [Imagem: Instagram/Reprodução]

Para Pedro Machitte, existem diferentes drag queens. Ele define sua performance como teatral. Sendo assim, dependendo de quem se quer ser, são necessárias habilidades distintas. “Por exemplo, se você for uma drag que canta, precisa saber cantar. Se for drag uma que atua, precisa saber performar. Se é uma drag mais da moda e fashion, precisa saber costurar, desenhar, fazer as próprias roupas.” Também lembra que todas as habilidades podem ser desenvolvidas. “Eu não nasci sabendo fazer maquiagem, por exemplo. Com o tempo, fui lapidando e aprendendo por conta própria, vendo vídeos do Youtube, olhando fotos e pensando nos aspectos que podia melhorar.”

Acredita que, atualmente, é mais fácil ser drag queen pelo acesso à informação. Também existem programas que deram mais visibilidade à cena transformista, como Ru Paul’s Drag Race, reality show no qual as drags competem pelo título de Drag Queen Superstar. “O Ru Paul’s abriu uma grande porta, deu uma glamourizada na profissão. Mas, vale lembrar, que o universo drag vai muito além.”

Pedro aconselha quem pretende entrar no meio transformista: “Desista. Brincadeira [risos]. Meu conselho é: estude. Estude e expanda suas referências.” Ele observa que para as drag queens mais novas Ru Paul’s é uma referência muito forte. Acredita que isso não é necessariamente um problema, mas uma limitação. “Eu, geralmente, proponho shows com músicas brasileiras, espanholas, latinas. Claro que faço shows em inglês também. Tudo bem gostar de música pop, de diva pop, faz parte da nossa cultura LGBTQ+. Mas não podemos nos limitar a essas coisas. Temos que expandir nossas referências. É uma questão de visão de mundo.”

Pedro afirma que Mercedez não é uma personagem: “eu acho que é uma lupa em alguns aspectos da minha personalidade” [Imagem: Instagram/Reprodução]

Pedro Machitte também acredita que hoje exista uma aceitação maior da cena transformista, mas já se deparou com alguns comentários: “não é nem questão de ser homofóbico ou não, porque veio de um gay, de um diretor de teatro. Ele me falou: ‘vê se não vai deixar de ser ator para virar drag‘. Tem um julgamento de valor nessa frase e é isso que eu quero romper. Mas acho que estamos conseguindo”. Sobre sua família, acredita ser privilegiado. “Minha família é muito sussa. Ninguém me questiona nada, ninguém enche o saco. Todo mundo me apoia.”

Pedro acredita que o gênero não é uma limitação. “É uma forma de arte. Então, se você quer se expressar, pode fazer. Se quer performar o estereótipo masculino, o feminino, o estereótipo do meio do caminho, ou sei lá, se quer fazer uma coisa andrógina… Não interessa quem é você, pega e faz.”

Ele enxerga a cena transformista de São Paulo como bem diferente. “Eu vejo que é um lugar com muitas oportunidades para as drags comparado com o resto das cidades brasileiras.” Como trabalha com teatro, Pedro viajou muito pelo Brasil. Ele lembra de quando esteve no Nordeste: “tem uma cena incrível lá, são drags maravilhosas”. Mas conta que afirmavam haver pouco espaço para performarem. As festas não contratavam muito, se contratavam, pagavam pouco. “Em São Paulo, só um Cabaret da Cecília já é maravilhoso. Aqui, todo dia tem programação. É um palco aberto para quem quiser performar. E São Paulo tem muitos outros lugares.”

 

O fabuloso destino de Amélie Bracchi

Felipe Duarte performando Amélie Bracchi [Imagem: Instagram/Reprodução]

Já Felipe Duarte começou por influência de um amigo que já se montava como drag queen, sua “mãe drag”. “Como sempre amei estar nos palcos, já tinha dado vida há alguns personagens femininos no teatro e isso também contribuiu bastante. De tudo, eu já tinha o suficiente para começar a me montar: vontade e coragem.”

Sobre o surgimento da sua drag queen, Amélie Bracchi, comenta: “a verdade é que drag não nasce, ela se materializa. Todo mundo tem uma dentro de si. Uma vez, eu e alguns amigos decidimos produzir uma festa com o tema brega. Nós fizemos um ensaio fotográfico e alguns vídeos para divulgação. Foi a primeira vez que apareci como drag e DJ na noite.”

Felipe comenta que a Amélie difere dele em algumas coisas, mas que tem sua drag como uma extensão sua. “Como Amélie, eu posso ser e fazer tudo que Felipe faz, ao contrário eu não já não tenho tanta certeza. Mas, geralmente, só muda a aparência física, o interior continua sendo a mesma coisa, só que mais agitado e desinibido.”

Profissionalmente, apesar de mais jovem, Felipe pretende atuar integralmente como drag queen. “Tenho inúmeros projetos e estou tentando colocar tudo em prática. Atualmente, trabalho como DJ. Mas ser drag é não se limitar, então posso transitar tranquilamente em todas as áreas que tenha espaço para minha arte.”

Atualmente ele possui uma dupla-rotina profissional: também trabalha no setor comercial de uma rede privada de hospitais. “Felizmente, lá todos sabem que me monto e me respeitam. Fico feliz demais por ter essa aceitação até no trabalho, apesar das duas coisas não se misturarem.”

Para Felipe o maior destaque de uma drag é o carisma e a humildade: “você pode ser boa em tudo que faz, o público vai ficar encantado, mas não sendo carismática e humilde, não chega muito longe” [Imagem: Instagram/Reprodução]

Sobre a preparação para encarnar sua drag queen, comenta que é diária, por mais que só trabalhe como ela nos finais de semana.“Preciso fazer atividades físicas para aguentar, às vezes, três eventos seguidos, dançando e animando o público. É saindo de um final de semana já pensando em outro. Fora o trabalho psicológico: manter a calma é essencial.” Felipe comenta que a pressa é inimiga de uma drag queen bem montada.

Ele aprendeu a criar a estética da Amélie Bracchi com o auxílio das referências que tinha na internet. “A maioria das coisas aprendi com canais do YouTube. Sempre assisti tutoriais e me maquiava em casa para pôr em prática o que via. De tanto tentar, criar e recriar, a gente acaba aprendendo algumas técnicas.” Mas acredita que, para o look drag, coragem e vontade já são o essencial. “Vejo muita gente querendo padronizar o que é ou não ser uma drag. Com peruca ou sem, com figurinos exuberantes ou apenas um shortinho com blusa, somos drags da mesma forma. Chego em algumas festas de tênis e ainda tem quem pergunte: ‘cadê o salto?’ Será que eu vou me sentir menos drag por isso? Lógico que não!”

Além desses fatores, como drag queen iniciante comenta suas dificuldades, como o alto custo e a falta de valorização. Felipe afirma que já investiu muito, mas, inicialmente, ele se virava. “Na maquiagem, dava truque com uma única paleta de sombra daquelas de feira e sem marca; dois ou três pincéis; os batons e roupas da minha mãe que pegava escondido. Quando passei a ganhar dinheiro com isso, fui juntando e investindo. Até hoje é assim, procuro comprar coisas de alta qualidade para passar um bom tempo usando.”

Amélie Bracchi em uma de suas festas como DJ [Imagem: Instagram/Reprodução]

Para ele, as suas apresentações se resumem a uma palavra: “bagaceira”. “Sempre fui ‘do povão’, sempre toquei músicas que agitam a galera. Quem vê de fora diz: ‘isso é música de comunidade’. Amo fazer as pessoas se divertirem com minhas brincadeiras e dançarem as músicas do meu set, que é bem diversificado: vai do pop ao brega-funk.”

Amélie Bracchi, diferente de Morgana Histriônica e Mercedez Vulcão, é uma drag queen da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Mas é otimista quanto à cena transformista da segunda menor capital do país: “a cena drag da cidade é diversificada e está em constante transformação, entrando e saindo pessoas”.

Felipe acredita que cada vez mais espaços inimagináveis são conquistados. “Hoje tem drag queen na televisão, na música, em rádios e dando palestras pelo Brasil afora. Eu espero que seja sempre assim, cada dia mais alcançando um espaço diferente e levantando a bandeira da diversidade!” Cita também a música Império da cantora drag queen Glória Groove: “e olha só como o jogo virou. Do nada cê liga a TV, nois tá na Globo”.

Para ele, a expressão drag queen não é restrita ao gênero masculino. “Nada que é artístico pode se restringir, arte é liberdade de expressão. Aqui na cidade, nós temos o prazer de dividir a noite com mulheres que fazem drag, mas são apenas duas ou três. Se ser drag me permite me transformar em uma linda garota, porque elas não podem se transformar no que quiserem também?”

E completa: “representatividade é dar voz ao nosso meio, ao nosso povo. É saber de onde viemos, o que vivemos e onde queremos chegar. Levar isso para fora da nossa bolha e usar a nossa voz para falar por milhares de pessoas”.

Ele também afirma que arte drag é resistência. “Sempre foi e não vai deixar de ser! Fugimos dos padrões, chamamos atenção, somos chamadas de aberração e levamos uma vida que, para alguns, é coisa de vagabundo. A arte drag abre muitos caminhos, mas sempre tem aquela pedrinha no meio, não é? Mas não é terror nenhum, passamos por cima e de salto!”

Amélie Bracchi em festa na praia de Natal-RN [Imagem: Instagram/Reprodução]

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*