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É a onda que vai, a onda que vem
CINÉFILOS
27 jul 2010 | Por Jornalismo Júnior

Os cinco primeiros minutos de filme não têm falas, nenhuma palavra. A atenção passa a ser destinada inteiramente para as figuras que aparecem na telona e, justamente devido ao não som, lembramos, ou nos damos conta, que estamos no fundo do mar. O começo do filme enfatiza a diferença entre os habitats terrestre e aquático e torna possível perceber quão quieto é o fundo do oceano, que, quando quer, se faz bravio e barulhento na animação. Tem início a saga de “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar” (Ponyo on The Cliff By The Sea).

 

Em plena geração do 3D e das animações gráficas de impacto, o filme “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar” tem estréia no dia 30 de julho e direção de Hayao Miyazaki, o mesmo de “A Viagem de Chihiro”. O consagrado diretor mostra que o 2D ainda tem força e não é o primo pobre na escala evolutiva da animação contemporânea. 

Sosuke é um menino de cinco anos que mora com a sua mãe, Lisa, em uma casa ao estilo campestre, isolada, porém próxima ao mar e cercada por um caráter sustentável em seu funcionamento. Seu pai, Koity, é capitão de barco (navio) e por isso passa a maior parte do tempo no mar. A comunicação da família se dá em algum espaço entre a terra firme, onde Sosuke e Lisa estão, e o oceano, plataforma de trabalho do pai.

No dia em que Sosuke encontra Ponyo dentro de um frasco de vidro jogado ao mar a vida dos dois pequenos muda completamente. Sosuke enxerga em Ponyo uma verdadeira amizade sem saber que para realmente poderem ficar juntos terá que passar por uma aventura encharcada de emoções, superações e aceitações.

Falando em animações oceânicas, se alguém imagina encontrar em Ponyo uma versão oriental de “A Pequena Sereia”, clássico das produções Disney de 1989, terá sua expectativa parcialmente frustrada. Ponyo tem realmente influências da animação da Disney, mas matem especificidades de uma animação feita no contexto atual. Afinal, os tempos mudaram – se antes o fundo do mar era representado por cantos ritmados de “alalasî”, hoje ele é mais silencioso. Se antes os seres marinhos dançavam felizes da vida entre corais, hoje eles lutam para se desvencilhar dos lixos jogados ao mar pelo homem. E ainda mais, se na época de Ariel os mundos aquático e terrestre queriam descobrir um ao outro, na nova produção de Miyazaki o homem teme a fúria do mar em épocas pós Tsunami.

Pequenos grandes espectadores

Além de ter que abstrair a moral ecologicamente corretada da animação, a criança que for assistir ao filme Ponyo também tem que saber conceitos básicos da biologia genética. Tudo porque um dos detalhes para se entender por que Ponyo consegue virar humana é que quando a peixinha dourada é encontrada por Sosuke, este corta o dedo com o frasco de vidro em que Ponyo estava presa. Desse modo, ela prova um pouco do sangue do garoto. “O sangue dele alterou o seu DNA”, dirá o pai de Ponyo, Sr. Fujimoto, desvendando o mistério furiosamente e gerando um novo enigma para crianças ocidentais de cinco anos que provavelmente não sabem o que é nem para que serve o tal ácido desoxirribonucléico.

“A água do mar me mantém úmido”

É o que diz Sr. Fujimoto em uma das suas raras aparições no mundo terrestre. A fala resume o personagem – e de certa forma o tema principal do filme – que devido aos desgostos em relação ao mau convívio do homem com a natureza decide renunciar a vida seca em troca de uma obstinação por não só preservar a vida marinha, mas também fazê-la prevalecer sobre a vida humana.

Não que o pai de Ponyo seja o vilão da história. Aliás, a obra não traz nenhum vilão em seu sentido estrito. O Sr. Fujimoto repreende a vontade de Ponyo de se tornar humana para ser igual a Sosuke e assim poder se aproximar dele (uma amizade amorosa que por vezes se confunde com uma paixão inocente e predestinada entre duas crianças, dois mundos). Porém, se por vezes a sua vilania é justificada pelo desgosto da vida seca, ela também se desfaz ao longo da história enquanto Fujimoto passa a se dedicar para que Ponyo não vire espuma do mar. Para isso, a pequena terá que conquistar o amor verdadeiro de Sosuke, que terá que aceitá-la, sendo ela um peixe dourado ou uma adorável menina de cabelos ruivos. Nesse sentido, a natureza não só mantém Fujimoto úmido, mas também sensível (menos seco) à sua existência e importância. Um equilíbrio que, atualmente, falta à maioria de nós.

Por Mariana Queen

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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