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Eder Jofre: a lenda do pugilismo nacional
ARQUIBANCADA
06 maio 2016 | Por Jornalismo Júnior

Por Rafael Paiva

O “Galo de Ouro" após uma grande luta (Reprodução / Arquivo Pessoal)

O “Galo de Ouro” após uma grande luta (Reprodução / Arquivo Pessoal)

Algumas pessoas nascem para deixarem seus nomes registrados na eternidade. Dentre esses privilegiados, seria uma heresia não falarmos sobre o maior representante do boxe nacional: Eder Zumbano Jofre.

O “Galo de Ouro”, apelido que lhe fora atribuído por Benedito Ruy Barbosa, rompeu com a barreira do imaginável. Ao longo de sua trajetória profissional, o pugilista foi bicampeão mundial em duas categorias diferentes (galo e pena) e teve um impressionante cartel de 78 lutas, 72 vitórias, 4 empates e 2 derrotas.

Fruto do relacionamento do argentino José Aristides Jofre (conhecido como “Kid Jofre”) com Angelina Zumbano, cuja família era proveniente da região italiana da Calábria, o paulistano Eder cresceu num meio rodeado por indivíduos que respiravam a “sétima arte”. “Pode-se dizer que meu pai foi a síntese dessas duas escolas: a argentina, da técnica que o meu vô conhecia, com a italiana, da potência e da garra dos Zumbano”, disse Marcel Jofre, filho do grande campeão.

A trajetória para a imortalidade foi marcada por grandes desafios. Após participar dos Jogos Olímpicos de Melbourne, em 1956, nos quais fora derrotado pelo chileno Claudio Barrientos em sua segunda luta, Eder deixou o boxe amador e se profissionalizou no ano seguinte.

Três anos mais tarde, já campeão brasileiro (1958) e sul-americano (1960), o descendente das famílias Jofre-Zumbano nocauteou o mexicano Eloy Sanchez, no Grand Olympic Auditorium, em Los Angeles, nos Estados Unidos da América, e conquistou seu primeiro título mundial, como peso galo, pela então National Boxing Association (NBA), que viria a se tornar a Associação Mundial de Boxe (AMB).

Em 1962, derrotou o irlandês Johnny Caldwell, campeão europeu, num Ginásio do Ibirapuera lotado, e unificou os títulos da categoria. Nos anos seguintes, a lenda brasileira manteve-se sobrando nos ringues. Até que, em 1965, em um dos embates mais controversos da história do esporte, Eder foi derrotado, por pontos, pelo japonês Masahiko “Fighting” Harada. A revanche aconteceu no ano seguinte, e a história se repetiu: vitória contestável do adversário.

Triste pelo ocorrido, o paulistano decidiu abandonar o boxe e ficou afastado por três anos. “Nesse ínterim, meu pai foi convidado pela minha tia Olga Zumbano para se apresentar no circo dela, que percorria o país inteiro. Consta que em uma dessas exibições, meu pai foi tão bem que, à época, o meu avô e o Presidente da Federação Paulista de Boxe, Newton Campos, começaram a pegar no pé dele. Ele refletiu bastante sobre a questão, percebeu que queria aquilo para a vida e decidiu voltar a lutar como peso pena”, relatou Marcel.

O retorno, assim como boa parte da carreira do Galo de Ouro, foi magistral. Na nova categoria, em que lutou entre 1969 e 1976, além de conquistar o título mundial do Conselho Mundial de Boxe (CMB) contra a “lenda cubana” José Legrá, em 1973, Eder Jofre não teve conhecimento da derrota: foram 25 vitórias, em 25 confrontos.

Eder Jofre fotografa seu filho Marcel (Reprodução / Arquivo Pessoal)

Eder Jofre fotografa seu filho Marcel (Reprodução / Arquivo Pessoal)

Vida fora dos ringues

Enquanto não estava treinando (atividade que fazia em dois momentos do dia) ou se recuperando após uma luta, quando parava por volta de quatro semanas para a reposição do físico, Eder procurava levar uma rotina comum: saía com a família, levava e buscava o filho (Marcel) e a filha (Andrea) na escola, atendia aos fãs, dentre outras coisas.

Durante a sua trajetória profissional, o assédio era tão grande por parte dos admiradores que, em muitos casos, Eder passava mais tempo distribuindo autógrafo do que aproveitando um passeio. “Às vezes, eu saia com o meu pai pra brincar ou ir em algum evento, e ele demorava três horas pra chegar aonde era pra ter chegado, em virtude da atenção que ele dava aos fãs”, relembrou o filho.

Após a aposentadoria, o boxeador rumou em direção à política. Entre os anos de 1983 e 2000, Eder Jofre foi suplente e vereador da cidade de São Paulo, sendo representante do PDS (do início até 1989) e do PSDB (de 1989 até 2000). Dentre as suas propostas aprovadas, destacam-se, dentre outros, o “Projeto de Lei n.295/92”, que “torna obrigatório o uso de seringa tríplice nos consultórios odontológicos”; e o “Projeto de Lei n.135/93”, que “dispõe sobre a utilização de gás natural como combustível na frota de veículos oficiais, de transporte público e coletivo de passageiros, e das outras providências”.

Reconhecimento

Os feitos do “Galo de Ouro” fizeram com que ele obtivesse um respeito internacional admirável. Considerado por muitos o maior peso galo da história, Eder Jofre, em 1992, foi convidado para fazer parte do  International Boxing Hall of Fame, o Hall da Fama do Boxe. Ademais, a revista The Ring, tida como a “Bíblia do Boxe”, em uma edição comemorativa dos seus 90 anos, elegeu o brasileiro como o maior pugilista da década de 60, ficando à frente do lendário Muhammad Ali.

No Brasil, a condecoração do trabalho do boxeador não chega perto da dos grandes campeões de outros esportes como o automobilismo (caso do Ayrton Senna, por exemplo) e o futebol, no qual os grandes ídolos são citados quase que diariamente.

“Aqui [no Brasil], você tem que matar um leão por dia, você tem que ter uma baita de uma assessoria de imprensa pra se manter nas páginas das revistas, na mídia, na internet, e o meu pai nunca se deu esse trabalho, pois sempre achou que esse não era o caminho”, justificou Marcel Jofre em relação a pouca valorização atual.

Curiosidade

Um dos grandes hobbies que Eder Jofre nutriu ao longo da sua juventude era o de desenhar. Um detalhe intrigante, desconhecido pela maioria, é que esse gosto quase fez com o boxeador tivesse outra profissão.

“A primeira carreira que ele tinha escolhido era o de desenhista. Tanto é que fez até um curso de desenho arquitetônico numa escola que tinha no centro da cidade, o ‘Liceu de Artes e Ofício’. Infelizmente, aconteceu um acidente em que caiu o teto da escola e todo o material dele foi perdido. Como ele não tinha dinheiro para comprar o material novamente, acabou meio que optando pelo boxe. Pra ser sincero, eu agradeço todos os dias por ter caído o teto”, explicou rindo Marcel Jofre.

Eder Jofre e seu eterno gosto pelo desenho (Reprodução / Arquivo Pessoal)

Eder Jofre e seu eterno gosto pelo desenho (Reprodução / Arquivo Pessoal)

Atualidade

Devido ao falecimento da esposa Maria Aparecida, a Cidinha, grande paixão da sua vida, há três anos, Eder Jofre foi acometido com uma crise muito profunda de depressão, a qual causou algumas sequelas em relação à parte cerebral, sobretudo à memoria.

Ao ser diagnosticado erroneamente com Alzheimer, a lenda brasileira conviveu com situações difíceis – perdeu peso e passou a tomar inúmeros remédios. A situação só foi melhorar no momento em que o diagnóstico foi corrigido, isto é, quando se percebeu que o verdadeiro problema que o afetava era a Encefalopatia Traumática Crônica (conhecida antigamente como “demência pugilística”).

“Foi um médico chamado Renato Anghinah, que foi indicado pelo médico da Confederação Brasileira de Boxe, o Bernadino Santi, que detectou essa diferença entre uma doença e outra e começou a tratá-lo [Eder] de uma forma correta. Ele tomava cerca de 18 medicações anteriormente, agora toma 2 ou 3. Melhorou a qualidade de vida, treina duas vezes por semana, tem uma coordenação motora fantástica, tem força. Voltou a alegria de viver do meu pai. Fora a parte da memória que está prejudicada, ele tem uma vida normal. Infelizmente, precisou de um especialista na área de neurologia pra ver que era uma coisa diferenciada”, desabafa Marcel.

Comemoração

Em março, mais precisamente no dia 26, o maior pugilista brasileiro de todos os tempos completou 80 anos. Na cidade de Santos, uma festa surpresa para comemorar a expressiva data foi organizada pelo empresário Pepe Altstut e contou com a presença de ilustres campeões tais quais Miguel de Oliveira, Servílio de Oliveira, Valdemir dos Santos Pereira e Yamaguchi Falcão.

O grandioso evento emocionou bastante o “Galo de Ouro”. “Esse tipo de reconhecimento serve muito para ‘massagear o ego’ do meu pai. [A festa] funcionou como uma mensagem de que ainda lembram dele”, relatou Marcel.

Novidade

Está previsto para o ano que vem o lançamento do filme “10 segundos”, que abordará a trajetória de Eder Jofre. A direção do filme ficará por conta de José Alvarenga Jr. (diretor dos sucessos de bilheteria “O Casamento dos Trapalhões” e “Cilada.com”) e o elenco será composto por Daniel de Oliveira no papel do grande pugilista brasileiro, Osmar Prado como o mestre “Kid Jofre”, dentre outros.

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