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CINÉFILOS
12 mar 2009 | Por Jornalismo Júnior

Saulo Yassuda

À primeira vista, o título do recente documentário de Helena Solberg (Vida de Menina) pode soar piegas: Palavra Encantada. Mas um simples olhar atento no logotipo do filme, no qual o “en” aparece meio à parte – (en)cantada –, a ideia inicial começa a seguir um caminho distinto. Com o duplo sentido no nome – cantada/encantada –, pode-se imaginar um pouco mais sobre o que o documentário vai falar – mesmo assim, muito pouco.

A sinopse diz que Palavra (En)Cantada faz um passeio pelo cancioneiro brasileiro, discutindo a relação entre música e poesia. Mas o filme é muito mais que isso. Ele é muito mais rico do que pretende ser. Isso se dá, principalmente, pela escolha (e atuação) dos entrevistados, que delineiam o filme como um ser carismático. Entre eles, estão os “sagrados” da MPB Chico, Caetano e Gal, além de artistas de safra mais recente, como Lenine e Adriana Calcanhotto, juntamente com alguns “outsiders” da MPB: Arnaldo Antunes, Tom Zé. Gente da poesia, do hip hop, do teatro e da academia fazem parte do time de entrevistados. Os professores José Miguel Wisnik e Luiz Tatit, da USP, são peças importantíssimas no documentário, tecendo comentários ricos e, quando em quando, bem humorados.

Soma-se às falas das personalidades vídeos incríveis de arquivo e fotografias antigas, tudo “mixado” com maestria, de maneira que o público possa se divertir (Tom Zé e Zé Celso Martinez Corrêa geram boas risadas), cantar junto e aprender. Palavra (En)Cantada tem um quê de didático, mas sem aquele ranço escolar. É como se não tivesse a pretensão de ensinar, mas soltasse ao público referências e mais referências das mais diversas, para que os espectadores fossem buscar, pesquisar, ir atrás caso se interessassem.

O filme trata de diversos temas relacionados à musica brasileira de forma cronológica “pero-no-mucho” – a edição, repito, contribui muito para deixar essa história interessante. Fazem parte de Palavra (En)Cantada, entre outros, a bossa nova, a relação entre música e literatura, a eterna questão “letra de música é poesia?”, o fim da canção e a trajetória de personagens como Noel Rosa, Dorival Cayimi, Vinícius de Morais e Wally Salomão. Uma gama de assuntos que se entrelaçam.

Na maioria das vezes, os entrevistados cedem seus depoimentos dentro de suas próprias casas. Em outras, na rua, no café, no bar. Ferréz, ficcionista e poeta da periferia paulistana, por exemplo, foi entrevistado em um bar de bairro, com direito a estufa com salgados atrás. A diretora do filme ganha pontos ao mesclar uma cultura considerada superior, puxada pelos “sagrados” da MPB, com uma cultura, muitas vezes, tida como “menor”, como o hip hop. Ela chega a entrevistar os rappers BNegão e Black Alien e mostrar trechos de shows. Apesar disso, é uma pena que a edição deixe o rap e mesmo o manguebeat como uma músicas “à parte”.

A maioria dos entrevistados se sente à vontade, “em casa” (mesmo porque, muitas vezes, como dito, realmente estão em casa), apesar de haver alguns mais acuados e outros que vão se soltando aos poucos. Muitos cantam, cantarolaram, recitam. É nessa mistura de falas, declamações, cantorias, imagens, vídeos e até mesmo citações poéticas que, quando invadem a tela por escrito na, que o título do filme passa a fazer mais sentido. Uma palavra pode muita coisa.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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