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Entre a frustração e a tragédia
CINÉFILOS
25 out 2013 | Por Jornalismo Júnior

Por Ana Luísa Abdalla
anita.abdalla.usp@gmail.com

Além das retrospectivas cinematográficas de Stanley Kubrick e Eduardo Coutinho, outro nome ganha também a sua parte  na  37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Lav Diaz, cineasta que possui como temas principais de suas obras o retrato social e politico de diferentes lugares de seu país de origem, as Filipinas; terá doze filmes exibidos até o dia 31 de outubro. Dentre os filme estão os premiados Morte Na Terra de Encantos (Kagadanan sa banwaan ning mga Engkanto, 2007) e Melancolia (Melancholia, 2008).

Lerma Paharon (Klaudia Koronel),  narradora e personagem do filme de Diaz, Nu Sob o Luar (Hubad Sa Ilalim Ng Buwan, 1999), começa a trágica história de sua família, contando sobre como o negócio que tinham falhou, obque fez com que eles se mudassrm para um casa extremamente simples no meio de lugar algum, o que mexeu com a vida de todos. Vivia com seu pai, Lauro (Joel Torre) – frustrado por ter fracassado em seu sonho de ser padre, e sua mãe Clara (Elizabeth Oropesa) – que vivia um romance secreto com o amigo da família Roman Fanlo (Julio Diaz). Além disso, compartilhava o lugar também com sua irmã 3 anos mais jovem, Agnes (Isabel Granada).

O drama da vida de Lerma se centrava na gravidade de seu sonambulismo, sendo muitas vezes trancada em seu quarto após dormir. A medida, aparentemente drástica, se justificava por episódios em que a jovem saía da casa e andava sozinha, às vezes até mesmo sem roupa, pela mata nos arredores. Por conta disso, foi estuprada quando criança. Esse fato marca a vida da personagem, que sonha ainda com o rosto de seu agressor nunca encontrado, vendo em todos os rostos que vê na rua, o dele. Encontra o amor justamente naquele que a ajudava a superar esse trauma, o jovem pescador Ador (Mike Magat).

Porém, ao longo da trama, somos levados a perceber que a busca pela jovem Lerma sonâmbula no matagal pelos pais, irmã e pelo tio deficiente que também morava com a família, Domeng (Richard Joson), era só mais um dos diversos dramas que os personagens iriam passar.

Quando a mãe, Clara, descobre que a esposa de seu amante está para retornar à cidade e que sua chegada significaria o fim de seu romance, entra em absoluto desespero. Sente-se extremamente culpada pela traição ao marido. Há, ainda, o peso da revelação de que sua filha mais nova, Agnes, é, na realidade, filha do amante. Tamanha culpa, somada ao medo do abandono que se aproximava, Clara busca em vão, o conforto na confissão ao padre da cidade. Todo esse desespero culmina na cena mais chocante de todo o longa: quando sem ser encontrada em seu quarto por Domengo, o deficiente grita e passa a procurá-la pela vizinhança, encontrando-a enforcada, vítima de suas próprias angústias.

Com a família completamente desolada pela perda, Lerma ainda descobre que está grávida, contando a Ador e esperando dele um apoio que não veio. Quando o jovem pescador foi ameaçado pelo pai da moça para que tomasse alguma atitude, esse acaba fugindo, abandonando Lerma para lidar com a perda da mãe e com o filho dos dois.  Com esse cenário devastador, o pai da família, Lauro, entrega-se à sua dor. Com outra cena de prender a respiração, tenta se matar,  se cortando diversas vezes frente ao altar da igreja da cidade, sendo salvo a tempo pelo padre.

O peso do enredo se mistura com a atmosfera melancólica da obra, formado por falas simples e breves, além de carregado de uma fotografia noturna inquietante. O sentimento de culpa e angústia paira sobre todo o filme, sendo ainda mais acentuado pela história extremamente dramática e a ótima atuação dos atores.

A soma de todos esses fatores intensifica ainda mais a trama e o simbolismo da obra. Quando o filme acaba, compreendemos que os personagens não conseguiram abandonar o peso do passado de perdas e erros, vivendo traumatizados, sendo incapazes de lidar quando o presente também exigia uma valentia que há muito não existia.

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