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Entre a privacidade e a cultura
CINÉFILOS
19 out 2011 | Por Jornalismo Júnior

[Liu Xu]
35ª Mostra Internacional de Cinema

“Liu Xu”, um filme sobre uma garota, de mesmo nome, que não aceita ter que agir conforme o que a sociedade dita, no seu caso, as conservadoras regras chinesas.

O longa foi produzido com atores amadores, o que não prejudica sua performance. É verdade que ela não chega a ser primorosa, mas as emoções são, no geral, convincentes e naturais, dando um tom de realidade à história. Destaque à personagem que dá vida a Liu Xu, que consegue transmitir a insatisfação e determinação da protagonista.

A história se passa em 2000, em Lanzhou, nordeste da China e gira em torno de uma garota que engravida, desrespeitando as regras da escola. Liu Xu sofre pressão de sua coordenadora para abortar e, como se isso já não fosse o bastante, ela e seu namorado, Chen, correm o risco de serem expulsos da escola.

A partir daí se desenrola o conflito entre a escola e protagonista, que não vê no aborto a solução para o seu problema. Dentre as demandas da diretoria está uma espécie de auto-crítica, na qual ela e Chen devem expor detalhes de sua transgressão e admitir seu erro e arrependimento.

Liu Xu reluta em atender aos requisitos da escola, ela os considera uma grande injustiça e invasão de privacidade. Além disso, não recebe o apoio que esperava de seu namorado, que defende a postura da escola e acaba a abandonando.

A protagonista vem a conhecer também a repressão da sociedade, já que é deixada de lado pelos seus amigos e chega até a perder seu emprego de monitoria. Com isso, o filme demonstra a falta de flexibilidade da cultura chinesa diante de alguns aspectos da vida como a gravidez na juventude e fora do casamento.

O longa Liu Xu é fruto do trabalho do diretor Liu Jinkai, um dos membros da Associação de dramaturgos chineses. Quando menino, Jinkai aprendeu a desenhar e era bastante interessado em tinta chinesa e pintura de lavagem. Seu interesse pela arte e pela pintura transparecem nos ângulos escolhidos para as filmagens. É interessante notar como ele, de alguma forma revela, não revelando. Frequentemente, os personagens não aparecem inteiros na tela, ao invés disso vemos apenas fragmentos, corpos sem seus rostos, braços sem os donos. Como nas repetidas cenas em que a colega de quarto de Liu Xu rebola monótona, repetida e silenciosamente com seu bambolê.

Em “Liu Xu”, deparamo-nos com uma realidade que é bastante distante da nossa mas surpreende por fugir, de certa forma, do estereótipo que se cultiva da garota oriental que seria subserviente e subordinada. No longa, Liu Xu não segue essa linha de obediência, nele a protagonista é persistente e sabe o que quer, estando pronta para questionar uma sociedade que a coloca como “moralmente deplorável e de caráter abominável”.

Assim como a cultura e os costumes chineses não nos são comuns e naturais, assim também é o ritmo do filme, diferente dos longas americanos em que tudo acontece em um instante. No filme “Liu Xu”, o tempo da história demora a passar, acentuando o impasse e os momentos de reflexão os quais a protagonista vive. Lentidão que chega a ser cansativa em alguns trechos, mas que colabora a transportar o espectador a uma cultura do silêncio, do respeito e da introspecção.

Resta saber como Liu Xu resolverá essa situação e o que falará mais alto, sua vontade própria ou a ordem da escola.

Por Renata Ferreira
ree.galf@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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