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Entre as liberdades da imprensa
Eu Fui
20 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

 Seja quando Caco Barcellos é hostilizado e agredido na Praça da Sé, ao fazer a cobertura dos protestos em São Paulo no último dia 19 de junho, seja quando Leonardo Sakamoto nos conta que é tachado de comunista no mesmo ato, a presença da imprensa é questionada. Afinal, para que serve o jornalismo? Se este não acompanha os anseios de um movimento (ou de pelo menos parte dele), haveria aqui algo de errado, pois, quando a manifestação também é pelo direito de manifestar, a imprensa é evocada e sua liberdade posta em debate.

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Jornalista Caco Barcellos sendo hostilizado na Praça da Sé. Foto: Iaçu Notícias

As manifestações que tomaram conta de várias capitais trouxeram vários episódios nos quais a atuação da imprensa e sua presença foi questionada por muitos. Se as vozes destes jornalistas aqui mencionados são caladas, principalmente estas que há muito lutam por seu espaço dentro tantas outras, haveria garantia de que a liberdade de imprensa pudesse ser efetiva? Do caos mostrado na repressão da polícia contra manifestantes no dia 13, a icônica imagem da repórter da Folha de S. Paulo atingida por um disparo de bala de borracha poderia ser lida como alguma espécie de afronta ao trabalho do jornalista?

Quando a PM reagiu com violência aos manifestantes, como “denunciado” na capa da Folha do dia seguinte, a agressão sofrida pela repórter ganhou também destaque. Não queremos aqui diminuir a relevância de tal acontecimento, todavia, procurar os porquês da escolha da imagem da repórter, e não a de tantos outros manifestantes sendo reprimidos com truculência, leva a questionar a atuação dos jornalistas na fabricação da notícia. Se antes, o uso exacerbado da força ainda não chegara aos jornais, foi somente quando a imprensa sofreu algum tipo de violência por parte da PM que a mudança de paradigma aconteceu.

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Carro da Record, incendiado durante as manifestações. Foto: Chico Ferreira

É visível aqui uma visão elitista, na qual o jornalismo acaba por marginalizar a si próprio, esquecendo que sua própria força vem justamente de sua obrigação ouvir a todos os lados da mesma moeda. Mais do que obrigação profissional, é dever democrático consolidado depois de anos de luta contra a censura após a Ditadura, a qual a mais que silenciou . O jornalismo é antes de tudo uma prática social, da sociedade e para a sociedade, atuando nela ao seu favor, garantindo, assim, tantos outros direitos.

Indo às ruas, ao não mais vivenciar a realidade controlada das redações e através das assessorias, o jornalista precisa fazer escolhas: ou sai de sua zona de conforto ao infiltrar-se nos acontecimentos, ou continua à margem da sociedade, vendo-a de fora. Porém, quando o próprio jornalista enfrenta a rua e sofre da igual violência aos manifestantes, este, enquanto profissional, vivencia a mesma repressão. Se é neste momento em que a opinião muda, é somente porque sua voz é calada do mesmo jeito em que a voz dos manifestantes é calada.

A restrição da liberdade de expressão em movimentos sociais, como estes que acontecem em São Paulo, denunciam que a liberdade de imprensa não é uma luta hermética. Uma vez que a imprensa deveria servir à sociedade como porta-voz daquilo que acontece no meio social, quando calada não há liberdade em nenhum dos lados. Garantir a pluralidade de opiniões e o debate entre ideias distintas faz parte de ideais agregados à “liberdade”, mas que aqui, não é vista como exclusivo de um lado ou de outro.

Tratar o jornalismo como algo à parte da sociedade é reduzir a liberdade de imprensa a certa legitimidade autorreferencial de expressão e, se esta coopta pelo silêncio dos oprimidos, cala a si mesma. Nos mesmos moldes, a restrição à manifestação de qualquer opinião contrária aos discursos dominantes, seja dos jornalistas, seja de qualquer outro cidadão, enfraquece a democracia do mesmo modo em que a censura é esta mesma restrição, mas institucionalizada. Quando autorizada a repressão, ir às ruas a fim de exercer a liberdade, seja de expressão ou de imprensa, acaba por se tornar sua própria exigência e necessidade.

Por Fernando Souza

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