Home Craque da Vez Entrevista com André Jardine, do São Paulo
Entrevista com André Jardine, do São Paulo
ARQUIBANCADA
17 jun 2016 | Por Jornalismo Júnior

 

(Imagem: Reprodução/Rubens Chiri)

(Imagem: Reprodução/Rubens Chiri)

Por Breno Deolindo e Rafael Castino

No evento “Um Case de Sucesso”, realizado pela FEA Sports Business no último dia 15 de junho, na FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), o Arquibancada conversou com André Jardine, o treinador da equipe sub-20 do São Paulo Futebol Clube. Jardine é um dos maiores nomes nas categorias de base de todo o Brasil, sendo o primeiro a levar um clube brasileiro ao título da Copa Libertadores da América Sub-20.

Formado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o técnico iniciou sua carreira futebolística no Internacional, comandando o sub-10 do futsal. Após muito sucesso na equipe, Jardine fez uma escalada até o sub-20 e, depois de uma breve passagem pelo Grêmio, foi contratado pelo clube paulistano em 2015. Segue a entrevista:

Arquibancada: Hoje em dia, as categorias de base dos grandes clubes se aproximam cada vez mais da estrutura profissional, principalmente a do São Paulo. De quais acompanhamentos disponibilizam os jovens que lá treinam? (ex: psicológico, nutricional, fisioterapêutico…)
André Jardine: Tudo! O São Paulo tem uma estrutura perfeita nesse sentido. Dentista, nutricionista, psicólogo, acompanhamento social inclusive. Não falta nada. Qualquer que seja o problema identificado, o São Paulo hoje tem estrutura para resolver. Acredito que seja neste sentido um clube de ponta, dispondo realmente de profissionais de diversas áreas para atender a demanda.

A: Ainda sobre a estrutura do clube, quais são as principais vantagens e desvantagens? Como toda a qualidade dela reflete no seu trabalho? Há coisas que faltam ou que podem ser melhoradas?
AJ: A nível de estrutura física não tem mais nada a melhorar. O São Paulo tem bem mais que o básico necessário… Isso reflete na motivação geral, numa harmonia, todo mundo se sente num lugar especial, valorizado e isso é importante no dia a dia, no trabalho de campo. Talvez precisássemos de um pouco mais de pessoas para trabalhar. Como o custo para manutenção do CT (Centro de Treinamento) já é muito alto, acabam ficando restritos o número de profissionais que atuam no campo, na área técnica… É menor do que a demanda exigida. Ainda assim, nós dispomos de diversos profissionais, mas não na quantidade ideal.

A: Quais as principais diferenças entre a época que começou como treinador de categorias de base e hoje, treinando o sub-20 do São Paulo?
AJ: A gente vai ficando mais experiente… Cada ano que passa nós agregamos um somatório de decisões tomadas no ano anterior… Muita reflexão, eu tenho esse hábito de olhar o jogo de novo, pensar o que eu poderia ter feito melhor, o que eu poderia ter preparado pra partida. Isso vai nos tornando profissionais cada vez mais capacitados. A motivação e a vontade continuam as mesmas: melhorar e evoluir. Começamos a ter o ganho da bagagem e da experiência, que ainda não é muita, imaginando tudo que vou viver já que me considero jovem na profissão, mas com certeza em relação ao jeito que eu comecei, agora tenho atalhos importantes, não perco tanto tempo com algumas coisas como eu perdia no início.

A: Como é a relação do clube com a família de seus jogadores?
AJ: Hoje em dia as famílias veem com bons olhos o jogar futebol, isso mudou muito desde que esse esporte virou um negócio rentável. Os jovens, nos grandes clubes como o São Paulo por exemplo, começam a ter uma ajuda de custo significativa a partir do sub-14, ajuda esta que começa a refletir na renda familiar, principalmente naquelas que precisam de um apoio financeiro. A aceitação é muito grande, hoje, o futebol quebrou essa barreira do “joga bola quem não quer estudar” e na sociedade isso já está bem estabelecido.

A: Pessoalmente, como é lidar com o sonho de um jovem?
AJ: É difícil, essa é a parte mais difícil. Quando a gente tem que dispensar um menino ou de alguma maneira limitar os sonhos dele é a parte mais difícil da profissão. Já tive que fazer diversas vezes ao longo desse tempo e toda vez a gente sofre, como da primeira, porque mexemos com um sonho. Tentamos mostrar para eles que muitas vezes é apenas um caminho diferente, que ele sai de um clube para criar um espaço em outro clube. Nós buscamos amenizar, mas sabemos que o menino sofre…

A: Atualmente, grandes mídias esportivas acompanham de perto campeonatos das categorias de base: como os jogadores lidam com isso? Como eles se comportam perante um maior cobrança? Acaba ajudando ou atrapalhando na motivação deles?
AJ: Eles gostam porque começam a justamente ver a coisa mais próxima do profissional, começam a sentir na pele o que é ser jogador de time grande. Quando erram um lance, perdem um título ou um jogo, são cobrados, são vaiados. Isso tudo tem enriquecido muito a experiência dos jogadores para sentir o mínimo possível dessa diferença quando chegarem no profissional. Eu acho que isso soma e ajuda bastante.

A: Como você enxerga a situação do Lucão? Capitão do time de base do São Paulo e da Seleção Sub-20, hoje é um dos mais contestados no time principal do São Paulo.
AJ: A torcida tem que ter uma certeza: o Lucão é muito jovem, ainda é sub-20 e poderia estar jogando com a gente (nas categorias de base). Ele está pagando o preço de ter subido muito cedo para o profissional, o que sempre tem dois lados: o bom, de já ter convivido nesse ambiente e se adaptado mais rápido. O ruim é que, na minha opinião, acabou perdendo o momento mais importante da formação de um jogador, que é a etapa do sub-20, onde os meninos começam a enfrentar jogos com grau de dificuldade  parecidos com o profissional. Eles vão errar e vão ser cobrados em um grau menor. É o último momento para eles poderem errar e amadurecer com isso. O Lucão não teve esse período, digamos que ele ta vivendo o sub-20 dele agora, dentro do profissional, logo, cada erro cometido, que são iguais aos que os nossos cometem, são cobrados pela torcida do time principal; aí, não tem perdão.

A: Além de qualidade técnica que é essencial, hoje em dia, o que se espera de um jogador da base para que ele esteja apto para o profissional? O extra campo afeta na decisão dele subir ou não?
AJ: Um pouco de cada coisa: o extra campo, a personalidade, a qualidade técnica, a capacidade de se relacionar com os jogadores, o carisma…. O somatório de tudo isso é o que vai fazer o menino ser mais aceito, mais querido pelos jogadores experientes, isso tudo ajuda nessa adaptação. Podemos acompanhar o caso do Luquinhas (Lucas Fernandes, meia do time profissional do São Paulo), um jogador extremamente inteligente, carismático, querido… A adaptação dele está acontecendo de forma muito rápida, pois ele é bem aceito por todos ali. Lógico, tem muita qualidade, mas além disso, o carisma e a maneira de se relacionar tem aberto cada vez mais as portas.

Lucas Fernandes, o 'Luquinhas', jogando pelo time profissional (Imagem: Reprodução/Google)

Lucas Fernandes, o ‘Luquinhas’, jogando pelo time profissional (Imagem: Reprodução/Google)

A: Como que se dá sua relação com a comissão técnica do time profissional do São Paulo?
AJ: O São Paulo tem tentado aproximar o máximo os dois CTs, mesmo com a grande distância que impossibilita o convívio diário, algo que nos ajudaria muito [o CT das categorias de base é na cidade de Cotia, enquanto o profissional fica na Barra Funda, em São Paulo]. O ideal são os dois Centros de Treinamentos lado a lado, juntos, experiência que já vivi no Internacional por um período. O melhor mesmo é o convívio diário, é estar treinando muitas vezes no campo do lado. Por conta da distância física dos CTs isso não é possível atualmente, mas o São Paulo está tentando achar uma maneira de equilibrar e de estarmos pelo menos uma vez por semana treinando no campo junto aos profissionais. Estamos longe da perfeição, porém,  muito melhor do que eramos antes e a tendência é que isso se aperfeiçoe cada vez mais.

A: O objetivo do São Paulo com sua base é a conquista de títulos nessas categorias ou a  formação  do maior número possível de jogadores para subirem ao profissional e ajudarem o time principal?
AJ: Os dois. No entanto, existe uma ordem. Em primeiro lugar, formar o maior número de jogadores possível que tenham nível adequado para jogar em clubes como o São Paulo, sabendo que alguns vão para outros times, porque o São Paulo não vai conseguir abranger toda a demanda de atletas que estão sendo formados por nós ali. Num segundo momento, muito importante também, as conquistas de títulos,  pois elas vão aumentando o nível de experiência dos jogadores, ensinando os meninos a lutarem pela vitória, a gostarem de ganhar, criando um espírito vencedor, o que é uma exigência para se jogar no São Paulo. Só pode jogar no São Paulo quem é vencedor, quem gosta de ganhar!

A: Você ainda não foi campeão de uma Copa São Paulo de Futebol Júnior. Sendo o torneio de base com maior relevância dentro da grande mídia, existe um desejo especial e uma cobrança, seja sua ou da diretoria, por essa conquista?
AJ: Esse ano eu tive pela primeira vez a  oportunidade de jogar a Copa São Paulo “vestindo a camisa” de um grande paulista. Já havia jogado pelo Inter, duas ou três vezes, e é diferente a importância que grandes paulistas dão para Copinha em relação aos clubes de outros estados. Esse ano, pude sentir na pele o quão é relevante este torneio para os clubes de São Paulo. Nós demos o nosso melhor, na verdade, o time chegou para o campeonato em um estágio de cansaço alto, principalmente o cansaço mental, já que fomos campeões da Copa Brasil e da Copa RS, competições que terminaram apenas em dezembro. Foram muitos jogos decisivos, desgastantes, que exigiram muito do grupo.  A copinha entrou no cenário logo depois das competições, e não pudemos abrir mão destas porque eram julgadas como importantes também. Esse ano, vamos nos preparar da melhor forma possível, pois uma das metas dessa temporada é conquistar uma Copinha novamente para o São Paulo e sabemos que temos potencial para isso. Com todo respeito aos outros times, mas no próximo ano, iremos fazer algo a mais para conquistar este torneio.

A: Para finalizar, você cogitaria trocar seu cargo como treinador do sub 20 do São Paulo por uma vaga de técnico em uma equipe profissional, mesmo que de menor expressão?
AJ: Se acontecer, será um coisa que eu terei de pensar bem, pois por mais que eu queira ser treinador de times profissionais, hoje o mercado é extremamente instável. Para quem não tem financeiramente uma estabilidade considerável é sempre difícil arriscar. Hoje, no meu caso, seria arriscar ou, dizendo assim, investir. No São Paulo, eu me considero muito bem colocado no mercado, com uma grande visibilidade, uma remuneração adequada e em dia. Isso nos dá condições e uma satisfação muito grande de fazer aquilo que gostamos, de vermos resultados em um trabalho de médio a longo prazo, coisa que no profissional, muitas vezes, você não consegue, é tudo a curto prazo. Teria que ser um projeto muito sedutor para me fazer trocar o sub-20 do São Paulo por um time profissional, já que na maioria das vezes, em um ou dois meses você está na rua procurando emprego. O São Paulo é um clube que me acolheu muito bem e um local onde eu me sinto em casa.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*