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Netflix: ‘Era uma vez um sonho’ e o lugar-comum do drama de superação estadunidense
CINÉFILOS
16 dez 2020 | Por Gabriela Caputo (gabrielacaputo@usp.br)

Nossas raízes e os desafios que enfrentamos nos fazem quem somos. Família é tudo. Não se pode desistir de quem se ama. Temos de ser melhores que nossos pais. Histórias de superação baseadas em tais noções já foram contadas algumas vezes no cinema hollywoodiano. Era uma vez um sonho (Hillbilly Elegy, 2020) apresenta essa narrativa a partir de um cenário suburbano, uma família complicada e uma criança prodígio que vai compensar os erros dos que vieram antes dela.

O longa da Netflix é uma adaptação do livro autobiográfico de mesmo título, publicado em 2016. O enredo do filme se inicia com uma crise na família: quando a mãe do protagonista, J. D. Vance (Gabriel Basso), é hospitalizada após uma overdose, a irmã pede para que ele retorne para sua cidade de origem. Diante o conflito entre novas prioridades e sua antiga vida familiar, o jovem resolve voltar e ajudar.

O momento de ponderação antecipa uma importante discussão, relacionada à responsabilidade emocional. Quem deve cuidar de quem? Até onde vai a obrigação de salvar as pessoas que se ama? São questionamentos que marcam a trajetória dos Vance, e fazem o protagonista mergulhar em memórias durante sua curta viagem.

A partir de inúmeros flashbacks, o drama alterna essa linha temporal com uma história anterior: a infância e adolescência de J. D. e os percalços da família Vance, com origem na mudança dos avós, do interior de Kentucky para o subúrbio de Ohio. 

 

Amy Adams interpreta Bev Vance em Era uma vez um sonho. Na imagem, a personagem está sentada no carro dirigindo. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Amy Adams interpreta Bev Vance. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Como Bev Vance, mãe de J. D., Amy Adams oferece uma performance satisfatória, com forte entrega nas cenas mais intensas. O papel é delicado: Bev é uma mulher fragilizada, viciada em drogas e emocionalmente instável. 

O elenco também conta com Glenn Close como a avó, apelidada Mawmaw. Na personagem são reconhecidos os traços cuidadosos de uma figura materna presente e protetora, confiante na capacidade do neto e adepta de certa rigidez e agressividade para convencê-lo a persistir.

As atrizes renomadas — duas figuras subestimadas pelo Oscar — concedem ótimos momentos ao filme, mas o jovem Owen Asztalos, que interpreta J. D. quando criança, também merece destaque. No entanto, o elenco de peso não consegue salvar a história de seu lugar-comum. 

O longa, especulado como uma das possíveis apostas da Netflix para a temporada de premiações, não traz novidades como produção de drama doméstico. A narrativa é lenta, previsível, e pouco envolvente. Apesar do teor fortemente emocional, a mistura de flashbacks com cenas do presente e a narração do protagonista  não tornam a obra mais interessante. Os pontos altos da produção talvez sejam a fotografia e a caracterização dos personagens — aspecto que geralmente agrega valor ao modelo “filme de Oscar”. 

Em Era uma vez um sonho, as cores também contam a história, mesmo que sutilmente. De início, vibrantes e quentes, estão nas roupas, na natureza, no acalento do abraço materno. As primeiras cenas do filme captam a atenção justamente por isso. A pregação de um pastor sobre Deus, família e resiliência ecoa pelo rádio no cenário rural, enquanto as pessoas trabalham, rezam e convivem. É o retrato de quem ainda não alcançou o sonho americano, mas tem fé de que um dia chegará lá. 

 

Glenn Close no papel de Mawmaw [Imagem: Divulgação/Netflix]

Glenn Close no papel de Mawmaw [Imagem: Divulgação/Netflix]

O reforço dessa narrativa, que contempla uma cultura de orgulho pelas raízes interioranas e a fé na salvação da pobreza, atraiu críticas relacionadas ao espectro político. A história de J. D. Vance foi interpretada por alguns norte-americanos como representação da parcela dos EUA responsável pela eleição de Trump e pelos ideais de “tornar a América ótima novamente”. Os próprios título e subtítulo do livro em inglês, Elegia Caipira: Memórias de uma família e uma cultura em crise, apontam para esse panorama de sociedade que, no longa, aparece de forma ora idealizada, ora estereotipada.

A atmosfera agradável que prende o olhar num primeiro momento não se sustenta por muito tempo, e vai se tornando acinzentada. A mudança dos avós para Middletown, subúrbio de Ohio, marca a passagem do colorido interiorano para o poluído e destemperado ambiente urbano. Faltava esperança, diz J. D. quando narra esse novo lugar. A mudança nos elementos ilustra a decadência que sofre a classe baixa norte-americana.

A mensagem final é bonita e emocionante, mas nada surpreendente. Um lugar-comum, que explora a perfeita narrativa de superação do estadunidense em busca do sonho americano. Para além da entrega de Adams e da singeleza maternal, ainda que bruta, de Close, Era uma vez um sonho não é um filme memorável. E, se chegar a concorrer a prêmios importantes no futuro próximo, o sucesso é improvável.

Era uma vez um sonho já está disponível na Netflix. Confira o trailer

 

*Imagem de capa: Divulgação/Netflix

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