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Por trás das luzes neon, Espírito Jovem é um clichê raso e sem emoção
CINÉFILOS
03 jul 2019 | Por Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com)

Retrato da fama. Se o enredo de Espírito Jovem (Teen Spirit, 2018) fosse reduzido a uma frase, certamente seria essa. O longa estrelado por Elle Fanning apropria-se do famoso clichê “garota tímida do interior que sonha em ser uma cantora famosa”, para construir sua história. Porém, nem mesmo as cores neon e as baladas pop foram capazes de sustentar os rasos 92 minutos de duração, que entregam uma história sem graça e personagens desinteressantes.

Violet Valenski (Elle Fanning) é uma garota de dezessete anos que vive na Ilha de Wight, na costa sul da Inglaterra. Sua rotina é movimentada: quando não está estudando, a jovem auxilia a mãe, Marla (Agnieszka Grochowska), a cuidar dos animais e plantas da propriedade em que vivem, além de trabalhar em uma lanchonete e cantar em um bar, com o objetivo de contribuir na renda de casa. Na maior parte de seu dia, as trilhas sonoras construídas em playlists no seu iPod lhe fazem companhia, tendo sempre uma música de fundo enquanto estuda, faz suas tarefas ou simplesmente mergulha em seus próprios pensamentos.

A garota, certo dia, é surpreendida com um grande anúncio do Teen Spirit, visto em um outdoor enquanto fazia seu habitual trajeto de ônibus até o colégio. O famoso concurso musical havia chegado à ilha e buscava novos participantes. Percebendo nele a oportunidade perfeita para dar um passo em direção ao seu sonho, Violet decide se inscrever. Após participar da primeira etapa do processo seletivo, é surpreendida como uma das selecionadas para avançar no concurso. Ao ver na notícia a confirmação de que está no caminho certo, Violet precisa superar outra barreira: por ser menor de idade, quem iria acompanhá-la nas próximas etapas?

Ela toma então uma decisão improvável: sabendo da falta de incentivo da mãe, que só apoiaria sua trajetória na música caso a filha cantasse na igreja, Violet decide recorrer à ajuda de Vlad (Zlatko Buric), velho que conheceu há poucos dias enquanto cantava no bar. Ele havia elogiado a voz da garota e ao ser questionado sobre quem era, contou que fora um conhecido cantor de ópera décadas atrás. Depois que o frenesi de sua carreira passou, Vlad perdeu não só o gosto pela música, mas também a filha, que por motivos nunca explicados foi morar em outro país.

Essa é apenas uma das diversas falhas no roteiro desastroso. Quando as orientações de Vlad mostram-se válidas e Violet avança na competição, a jovem decide apresentá-lo à mãe e contar sobre o concurso. O diálogo insosso iniciado pela frase “quais são suas intenções com a minha filha?” e resolvido segundos depois não estimula a simpatia por nenhum dos personagens envolvidos. Aliás, a tentativa de criar entre os dois a ideia de um futuro casal, ainda que improvável, é um dos vários elementos do roteiro que, quando não foram deixados em aberto, apresentaram soluções rápidas, previsíveis e desinteressantes.

Luke e Violet possuem poucos momentos a sós ao longo do filme [Imagem: Copyright Diamond Films]

Um desses pontos é representado pelos interesses amorosos de Violet. De um lado, está Luke (Archie Madekwe), colega de classe, que parece enxergar a garota quando ninguém mais o faz. A proximidade entre eles cresce quando o garoto, junto com sua banda, é convidado para ser músico de apoio de Violet no concurso. Do outro lado, está Keyan (Ruairi O’Connor), vencedor da última edição do Teen Spirit, que claramente só está interessado em ter Violet por uma noite. O que poderia criar um pouco mais de conflito na história acaba sendo frustrante para quem assiste, já que nenhum dos personagens inspira o apoio do público como par perfeito para a aspirante a cantora.

Elle Fanning, mesmo sendo o destaque do filme, demora a cativar o espectador por não ter uma narrativa forte por trás de sua personagem, cujas cenas muitas vezes são sustentadas por ela cantando ou falando polonês com a mãe. Os conflitos enfrentados por Violet em relação à família e aos amigos são esquecidos depois que ela começa a ficar conhecida. Os perigos da fama, que são projetados como o principal elemento da narrativa, não representam nada além de pequenos momentos da trajetória da garota, que possui como ponto alto suas apresentações musicais. Nelas, é possível ver não apenas a transformação de garota tímida em estrela musical – na voz da própria Fanning –, como também o conceito visual que sustenta toda a produção.

A estética neon, com planos detalhe e jogos de luz, é perfeita para um videoclipe, mas soa exagerada e vazia nos 92 minutos do longa. A trilha sonora pop e marcante funciona no contexto do concurso, mas parece deslocada no resto da narrativa. Se o longa queria propor uma reflexão dos perigos da fama na vida de uma jovem adolescente, a tentativa foi falha. A ideia de futilidade como consequência da fama é reforçada pela própria produção, já que, mesmo com uma protagonista de destaque e músicas conhecidas, o longa não consegue se sustentar e entrega uma história pouco complexa e igual a tantas outras.

Espírito Jovem chega aos cinemas brasileiros no dia 20 de junho. Veja o trailer aqui:

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