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O Estrangeiro de si: as trajetórias da migração nordestina

O Brasil continuamente vivencia o fenômeno da migração nordestina e, a partir desses contextos, o “morar” pode ganhar novas interpretações, indo além de simplesmente mudar de casa e atravessando a identidade daquele que migra

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08 jul 2022 | Por Clarisse Macedo (clarissemacedo@usp.br)

“Não me sinto pertencente ao Rio de Janeiro mesmo estando aqui há muito tempo, enquanto também não me senti tão pertencente quando voltei ao Ceará” conta Kaio Braúna. O morar envolve e é envolvido por diversas significações. Alojar-se em algum local perpassa outras questões além de simplesmente ocupar e residir. “Acabei me tornando assim: uma pessoa que não tem muito bem um local definido que se aproxime da ideia de casa”, continua Kaio.

Não é por outra razão que existem evidências de que nos hieróglifos egípcios,  uma das primeiras manifestações de escrita da história, os termos casa e mãe podiam aparecer compartilhando significado entre si. E nem que, para Freud, médico neurologista criador da psicanálise, a “casa” seria a “substituta do útero materno”, onde estávamos “seguros e nos sentíamos bem” e, apenas no útero, experimentaríamos a plenitude do habitar.

Kaio Braúna, natural do Ceará que mora no Rio de Janeiro, atualmente é professor e está no sudeste desde os seus 13 anos, tendo retornado para o estado cearense no período de quarentena da pandemia do COVID-19. Sua família, habitante do litoral do estado, viu um de seus entes saindo de casa ainda novo, pois migraria ao sudeste para fazer seu ensino médio.

Kaio está no Rio desde março de 2013, quando iniciou seu ensino médio profissionalizante no Sesi. Ao concluir, cursou Ciências Sociais na UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na 1ª foto segura o diploma de conclusão. Atualmente é mestrando em filosofia e professor.
[Imagens: Reprodução/Instagram]

Para a demografia, a migração é entendida como mudança de residência fixa entre locais. No entanto, em relação às causas não há uma resposta consensual dessa mesma forma, como comenta Reinaldo Souza, doutor em demografia: “É simples imaginar por que as pessoas migram, mas os fatores exatamente que levam cada um a migrar são completamente distintos”. Isto é, cada um está inserido em um complexo social de relações específico, assim, o momento dessa decisão é particular. 

Apesar de ser difícil entender as motivações mais particulares de cada migrante, é sabido que a migração está geralmente associada ao interesse em melhorar condições de vida. E quando se trata especificamente da migração nordestina, é evidente que as oportunidades econômicas são ímpares. Ou seja, o diferencial de oportunidades entre o lugar de partida e de chegada influencia a escolha.

“A decisão de ir para São Paulo veio da falta de oportunidade na cidade em que eu morava. Faltava principalmente oportunidade de emprego”, comenta Girlene Souza, pernambucana que morou em São Paulo de 2013 até 2020. “A maior expectativa era conseguir um trabalho e continuar os estudos. Imaginei que em São Paulo seria mais fácil fazer faculdade”, ela complementa.

Essa segregação regional do nordeste se manifestou em vários momentos. Lá no século XVII,  a queda do preço do açúcar brasileiro após o aumento de produção em locais internacionais culminou em uma crise que contribuiu para as saídas da região. “Os reflexos [da crise] aconteceram, por exemplo, na região Norte no ciclo da borracha, no Centro-oeste na construção de Brasília e, a partir do processo de industrialização, no eixo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, um triângulo de desenvolvimento que fomentou a macrocefalia urbana” salienta o demógrafo Reinaldo. 

Canteiros de obras antes da construção de Brasília [Imagem: Divulgação/Arquivo Público]

Nesse contexto de crescimento de indústrias e de cidades que ocorreu no Brasil próximo aos anos 30, o local de morar e de trabalhar se afastaram e, com isso, novos espaços foram sendo integrados na memória daqueles que partiam e viviam a migração, como ocorre até os dias atuais. Foi, então, dentro dessa conjuntura que as migrações nordestinas começaram a aparecer, sendo, geralmente, de jovens adultos, entre os 18 e 30 anos, que  iam para locais no entorno do centro-sul do país, segundo o doutor em demografia Jarvis Campos, que foi entrevistado.

Entretanto, apesar da definição desse perfil, há ressalvas, pois esse padrão tem passado por mudanças. Existe um crescimento no que é denominado mobilidade, que não implica necessariamente a mudança de município. “Com o processo de globalização e de avanço nas telecomunicações e nos transportes, percebe-se que as pessoas migram menos e se movem mais. Ou seja, elas não precisam mudar de residência para poder trabalhar”, explica o demógrafo Jarvis. 

O Espaço construído e o não construído

“Lá, na nossa mente, São Paulo é mais ilusão. Quando você chega e vê, a realidade é outra, bem diferente” compartilha Francinaria Sousa.

“O pessoal que vem de lá, logo no começo, não vem para lugares bons. Eu não imaginava que São Paulo seria desse jeito” compartilha Maria Ivonalda, que saiu de Serra Talhada do Pernambuco, no final dos anos 2000, para um bairro no município de Guarulhos.

Muitos problemas sociais podem reverberar com mais incidência nos imigrantes que, muitas vezes, chegam mais suscetíveis às desigualdades. O desemprego, a precariedade de transportes, a dificuldade de inserção social, a falta de acesso à educação e todos os outros descasos governamentais refletem mais claramente nas condições de vida do imigrante.

Unindo esses fatores ao rápido processo de urbanização do país, o que se tem é uma forte periferização, isto é, a construção dos alojamentos em locais distantes das metrópoles pela ausência de um Estado que supra as necessidades. “O que mais me incomodava era a distância, as conduções lotadas, a falta de estrutura para comportar demanda da população, que todo dia tem que passar por esse transtorno”, compartilha Girlene. 

É dentro desse cenário que se dá a construção do morar do imigrante. “Muitas áreas tiveram expansão de periferias acontecendo, principalmente, nas grandes ondas de fluxo migratórios do nordeste para São Paulo e se a migração não cessa as necessidades de investimento em infraestrutura para atender esse público crescente também não”, comenta o demógrafo Reinaldo.

“Imaginava que fosse bem mais fácil, mas quando encarei a realidade, percebi que não era”, fala Juscimaria Cavalcante. “O que eu não gostei foi só da rotina muito puxada, a vida é bem mais corrida”. Ela veio para São  Paulo “em busca de um emprego para se manter”, como conta, e se deparou com um ritmo de vida diferente daquele do local que partiu, vivenciando uma das consequências da segregação socioespacial e da urbanização não planejada do país.

“Lá, na nossa mente, São Paulo é mais ilusão. Quando você chega e vê, a realidade é outra, bem diferente” compartilha Francinaria Sousa. 

Essas não são as únicas dificuldades enfrentadas ao chegar no local de destino. O preconceito é muito presente e se incide de diversas maneiras. “Às vezes, quando eu falava de onde eu era, pediam para eu fazer meu sotaque, para eu falar como nordestino. Eu me perguntava o que seria falar como nordestino. Eu estou falando como nordestino. Sempre falo como um”, comenta Kaio Braúna.

Outro exemplo está na forma escolhida para se referir aos que são dos estados do nordeste. “Aqui no Rio, quando se chama as pessoas nordestinas, não existe plural, é todo mundo paraibano”, complementa Kaio. “Tem uma feira aqui chamada ‘feira dos paraíba’, que é uma feira nordestina do Rio de Janeiro”. Atitude que não se encerra no Rio, a ideia do nordestino vem sempre acompanhada de um estereótipo, além do próprio nordeste, que é imaginado, recorrentemente, como uma região homogênea, sem distinção entre os estados.

"Feira dos paraíbas" derivada da migração nordestina

Feira de São Cristóvão, que ocorre no Centro Luiz Gonzaga de Tradições e é popularmente conhecida por “feira dos paraíbas” [Imagens: Reprodução/Facebook]

Para além dessas atitudes preconceituosas mais palpáveis, existem outras que estão atravessadas pelo sentimento comum. O demógrafo Reinaldo explica: “Às vezes, em São Paulo, com relação ao imigrante, há um sentimento de como se ele não fizesse parte do que faz São Paulo ser esse Polo econômico do país”. 

Como constatado, ainda que exista uma pluralidade de perfis de pessoas que saem do nordeste e migram para o centro-sul, o grande fluxo são de pessoas em busca de emprego. Com isso, há um grupo disputando mercado de trabalho com vários outros, inclusive com os centro-sudestinos. “Quando tem-se uma situação de depressão econômica, as pessoas começam a perder o emprego. Se nessa situação não há uma visibilidade da estrutura econômica, coloca-se culpa do problema estrutural no ‘imediato’ e ‘simbólico’ “, completa o demógrafo.  Por exemplo, um paulista que é atingido pelo desemprego interage com um imigrante empregado e o culpa pela falta de colocação no mercado.

“Sempre imaginamos que em cidade grande tem mais oportunidade de emprego, e tem mesmo várias opções, mas também tem muitas pessoas querendo a mesma” compartilha Girlene. “Muitas vezes, são até mais qualificados que a gente, com maior tempo de trabalho na área”.

É extremamente importante sempre lembrar-se de que o sudeste cresceu com a força de trabalho do nordeste. E se há necessidade de nordestinos migrarem, é porque há, na estrutura social do país inteiro, uma desigualdade, a ponto de não oferecer os mesmos recursos na região de origem. Aquelas atitudes fomentam a desigualdade ao culpar a vítima e não o agressor. “Prefere-se penalizar a pessoa que está desempregada a entender que a estrutura social é a culpada disso tudo” explica o demógrafo Reinaldo.

Outro fator a ser destacado é a forte presença da cultura nordestina nesses estados. Com esse preconceito, direta ou indiretamente vivenciado, pode haver a formação de redes locais de solidariedade, que não são construídas necessariamente visualmente, mas vividas. Ou seja, essas redes vão muito além de centros de tradição, por exemplo. Pode haver a formação de um núcleo familiar, ainda que sem laços sanguíneos, entre as pessoas que vão se identificando umas com as outras.

“Tal como existe entre Rio e São Paulo, existe uma rivalidade entre Pernambuco e Rio Grande do Norte, por exemplo, disputando quem é o verdadeiro dono de Fernando de Noronha”, comenta o demógrafo Reinaldo. “Essa rivalidade não existe em São Paulo por causa dessa união, ou seja, acontece não por serem unidos em origem, mas porque acabam sendo unidos no destino, principalmente com o preconceito que ambos sofrem ao serem colocados dentro de uma identidade social difícil de romper”, completa. Cabe também pontuar que, apesar do risco da criação de rótulos, esses espaços culturais são importantíssimos para expressão da diversidade e heterogeneidade daquele que se manifesta.

De volta pro lugar que eu sou

“Só tenho minha casa hoje por conta dessa ida para São Paulo e eu agradeço muito por essa oportunidade na vida de ter ido”, compartilha Juscimaria.

“Eu e meu marido casamos no Piauí, ficamos uma semana lá e já viemos para São Paulo, mas para passarmos só um ano, trabalhar e voltar. Fomos ficando mais um pouco… nisso, estamos aqui há 13 anos”, conta Francinaria Sousa. A experiência da migração é particular e, além da mudança recente de perfil pontuada anteriormente, há alguns outros efeitos incidentes, como a migração de retorno.

“Tem crescido de forma muito acelerada o retorno de nordestinos à região nordeste, e não necessariamente para o mesmo município ou estado de nascimento” explica o demógrafo Jarvis. Quase 1/3 das migrações para o nordeste são decorrentes da migração de retorno, segundo o último censo do IBGE, de 2010.

“O meu desejo sempre foi voltar, construir minha casa própria e ter filhos o mais próximo possível da minha família”, conta Girlene. “Hoje já estou aqui há mais de um ano, grávida e morando em minha casa própria, que é mais ou menos só um quilômetro de distância da casa dos meus pais”, ela continua.

Girlene trabalha com estética e possui seu próprio salão de beleza. Quando fez a migração para São Paulo, fez alguns cursos profissionalizantes importantes para sua carreira profissional, além da faculdade, que sonhava realizar. Juscimaria, outra entrevistada, habitualmente trabalha como manicure também nesse salão, além de atender clientes em seus domicílios. [Imagem: Reprodução/Instagram @girlene_fashion_hair_oficial]

Girlene trabalha com estética e possui seu próprio salão de beleza. Quando esteve em São Paulo, fez alguns cursos profissionalizantes importantes para sua carreira profissional, além da faculdade, que sonhava realizar. Juscimaria, outra entrevistada, habitualmente trabalha como manicure também nesse salão, além de atender clientes em seus domicílios. [Imagem: Reprodução/Instagram @girlene_fashion_hair_oficial]

E esse sonho não é só dela. “Em relação aos nossos planos aqui, queremos voltar para nossa terra e conseguir viver melhor lá. A vida aqui é uma vida muito corrida e arriscada… tem muita violência” compartilha Francinaria, ou Cinaria, como é seu apelido. Ela é do Piauí e está desde 2009 em São Paulo e veio com o intuito de retornar assim que possível. “Quando viajo para lá é muito bom. Além de matar a saudade, tem a vontade de ficar também”.

 

Francinaria no sítio com sua família, no Piauí, na última viagem que fez, em 2021. [Imagem: Reprodução/WhatsApp]

“Aprendi muito, não vou dizer que não aprendi” fala Cinaria sobre a vinda para São Paulo. “Durante esse pouco tempo que vivi aqui, deu para aprender bastante que a vida não é fácil, tanto aqui como lá, basta a gente aprender e dividir o que vai querer”.

“A felicidade é muito grande por poder voltar para o meu lugar para ficar perto da família”, comenta Juscimaria. “Eu e meu esposo tínhamos um sonho muito grande de ter uma família e, logo depois que voltamos para cá, tivemos. Meu maior sonho foi realizado. Fiquei grávida e hoje tenho uma princesa, minha companheira”, ela continua.

Juscimaria e Leonardo no batizado da filha Sara, em 2021, que ocorreu em Betânia do Piauí. [Imagem: Reprodução/ Facebook]

“Só tenho minha casa hoje por conta dessa ida para São Paulo e eu agradeço muito por essa oportunidade na vida de ter ido”, compartilha Juscimaria.

Quando se vive a experiência de migrar, existe algo no interior que ora adormece, ora desperta ao vivenciar momentos que lembram ou destoam dos momentos vividos no local de origem. “O que eu não gosto exatamente daqui é o tempo do frio. Só isso. Quando chega esse tempo, se eu pudesse voltava rapidinho para o meu Pernambuco”, comenta Maria Ivonalda. “Quando viajo para lá, é maravilhoso. Quando voltei a primeira vez para lá foi uma emoção”, ela conta. “No começo eu não pensava em morar lá de novo, hoje eu penso em voltar daqui a um tempo. Não penso em terminar a vida aqui”.

Foto tirada pela própria Maria Ivonalda, ou Ivone, como é seu apelido, quando visitou sua família em Serra Talhada do Pernambuco. [Foto: Maria Ivonalda]

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