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Evereste: a fria colisão do sonho com a morte
CINÉFILOS
23 set 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Heloísa Iaconis
helo.iaconis@hotmail.com

 

Até onde você iria para atingir o topo? Você largaria, por um tempo, o seu cotidiano para escalar uma meta, uma vontade, um sonho? Quão resistente são a sua determinação e o seu corpo?

As questões acima postas podem permear, em diferentes graus, a cabeça do espectador diante do filme Evereste (Everest, 2015). A obra, dirigida por Baltasar Kormákur, é uma coprodução entre Estados Unidos, Reino Unido e Islândia. Situado em 1996, o longa expõe dois grupos de alpinistas: um liderado por Rob Hall (Jason Clarke), um homem que coloca a segurança de sua trupe como prioridade; outro comandado por Scott Fischer (Jake Gyllenhaal), a personificação do espírito aventureiro. As equipes vão juntas rumo a uma tentativa de escalar o monte Evereste (a mais alta montanha da Terra). Escrita por William Nicholson e Simon Beaufoy, a película também finca base no livro No Ar Rarefeito: um Relato da Tragédia no Everest (Into thin air – A personal account of the mt. Everest disaster, 1997), de Jon Krakauer.

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Sir George Everest (1790-1866), geodesista e explorador inglês, foi eternizado no nome da montanha, localizada na cordilheira do Himalaia. A homenagem deveu-se ao fato de ele ter feito o levantamento trigonométrico e o mapeamento da região na qual o pico está localizado.

A fita narra uma história real, característica que, por si só, já carrega um peso. Lida-se, a princípio, com um público que pode ser dividido em duas categorias: os que conhecem os acontecimentos, lembram da história sendo desfiada pelos olhos descrentes de quem, de algum modo, acompanhou os fatos; e a parcela que não teve contato anterior com o ocorrido, aqueles que encontrarão no filme o primeiro toque com os desenrolares. A tarefa, pois, de abarcar os dois lados é um tanto desafiadora. Fato é que a obra realiza essa instigação com maestria. Sabe-se, desde o início, que o enredo não é um conto de fadas; percalços e tragédias são esperadas. Porém, as estruturas narrativa e técnica trabalham em harmonia para que a curiosidade do público seja atiçada na chave “quem sairá inteiro dessa experiência e quem será desfeito?”. O filme teria a sua qualidade reduzida se, por exemplo, ignorasse o pressuposto catastrófico e desse a falsa esperança, mesmo para quem conhece a realidade factual, de que todos, sem exceção, ficariam bem. Assim, através de um jogo em torno do desejo de encontrar o sentimento de “são e salvo”, uma tensão é produzida e conduz o público através das sequências.

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Os atores Josh Brolin, Jake Gyllenhaal e Jason Clarke em “Evereste”.

Uma violenta tempestade atinge os escaladores e gera o ápice da trama. A partir desse confronto com a natureza, tem-se uma luta pela sobrevivência. Em dados instantes, pode-se almejar entrar na cabeça dos personagens e rogar para que eles saiam da zona mais suscetível aos impropérios da neve. Um mal-estar encontra abrigo nos personagens (que precisam escapar dos ratoeiras congelantes) e no espectador, quando este é tocado pela angústia de assistir a um labirinto com poucas saídas. Estampada, ainda que mascarada de nós na garganta, a pequenez do ser humano frente aos desastres naturais. As cenas de pessoas, outrora animadas com a viagem, virando adubo, sendo tomadas por camadas de neve são, no mínimo, desconfortáveis. A maquiagem que elabora machucados, sinais de sangue e podridão é, extremamente, bem feita e corrobora para que instaurar uma atmosfera de incômodo.

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A árdua escala da montanha altíssima.

Um ponto notável da película é a sua fotografia. Em poucas palavras, pode-se dizer que muitas das tomadas, principalmente as que focam as paisagens e as riquezas naturais da esfera retratada, são imagens-poesias em movimento. Com um trabalho primoroso de ambientação do espectador, a fotografia consegue fortalecer, ainda mais, a intensidade do enredo, fazendo com que o público se coloque dentro da história e compartilhe, por vezes, das sensações vividas pelos personagens. Cabe, portanto, o alerta para que seja dado uma especial atenção para como o elemento natural é retrato. Elemento este que é desenhado, certamente, de forma bela e envolvente.

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Fotografia de Salvatore Totino e efeitos visuais de Dadi Einarsson constituem aspectos que merecem destaque.

Assinala-se, enfim, que a ação do filme é mais contida se comparada às ficções hollywoodianas (aquelas nas quais há explosões a cada dez minutos). Todavia, interessantemente, a fita prova que um estilo próximo ao documental, baseado na realidade, com planos e detalhes expressivos é uma boa opção para que os indivíduos se desafoguem, no leque fílmico de ampla circulação, dos títulos mais banais. Além das perguntas expostas no presente texto, a bondade de Rob, o desespero de sua mulher e a falta de ar de alguns alpinistas são sensações que chegam aos que assistem ao longa. Como lidar com a perda de um ente querido? Como tentar ajudar, estando tão longe, um amado que está por um fio? No elenco, há mais nomes: Josh Brolin (Beck Weathers), John Hawkes (Doug Hansen), Robin Wright (Peach Weathers), Emily Watson (Helen Wilton), Michael Kelly (Jon Krakauer), Keira Knightley (Jan Hall), entre outros. Dotado de excelentes interpretações, o filme desnuda como, em uma avalanche de segundos, o homem pode ir do céu ao inferno. A obstinação pelo cimo leva uma fatia dos sujeitos ao limbo. Ademais, a homenagem final aos agentes do real enredo é, de maneira modesta, linda.

 

Confira o trailer da película:

https://www.youtube.com/watch?v=WTt1hpwMEVQ

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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