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Fashion Revolution Week 2017: O futuro da moda em pauta
Eu Fui
02 maio 2017 | Por Jornalismo Júnior

Foto de Capa: Gabriel Bastos

Money. Fashion. Power. É com essas três palavras-chave que a Fashion Revolution ofereceu, mais uma vez, uma semana de moda diferente ao Brasil, propondo-se a discutir o fluxo de dinheiro destinado a esta indústria. Realizada entre os dias 24 e 30 de abril, a semana teve o objetivo de estimular formas de revolução no mundo fashion, e foi marcada por debates sobre sustentabilidade, inclusão social e formas de comunicação consciente.

O movimento global Fashion Revolution veio da união de líderes da indústria da moda sustentável. O estopim para a formação desse conselho foi o desabamento do Edifício Rana Plaza, em Bangladesh, no ano de 2013. O acidente no prédio, que alojava 4 fábricas têxteis, deixou 1133 mortos e 2500 feridos. Foi a partir desse acontecimento que o lado obscuro da moda tornou-se mais evidente. Desde então, notou-se a urgência em discutir a conscientização no mundo da moda e seu verdadeiro impacto, tanto na esfera social quanto na ambiental, desde a produção até o consumidor final.

Incentivando o consumo consciente, o Trocaria promoveu uma ação em que se trocava uma peça antiga por uma nova, de acordo com a avaliação do produto. Foto: Gabriel Bastos

O evento principal foi realizado no Unibes Cultural, na rua Oscar Freire – luxuoso centro da moda paulistana – e contou com uma exposição de moda sustentável, oficinas, intervenções artísticas e rodas de conversa. Aproveitando o evento e o conceito de consumo consciente, o Trocaria esteve presente. Funcionando como uma loja, a pessoa trazia sua peça de roupa, que era devidamente avaliada, e então recebia um vale para pegar uma roupa nova de mesmo valor.

Destaque para as rodas de conversa, em que vários assuntos foram discutidos ao longo da semana. No dia 26, uma das temáticas centrais foi a Sustentabilidade Social na Moda. Debatendo sobre os desafios do marketing para com a moda inclusiva, Michelle Simões, estilista e criadora do blog “Guia do Viajante Cadeirante”, mencionou suas dificuldades: “Fui do corpo perfeito para o completo oposto.” Antes, quando entrava nas lojas, tudo lhe servia. Após o acidente que a deixou paraplégica, a situação mudou. “Senti falta de representatividade”. Por fim, ela entendeu que sua condição não a excluía dos interesses da moda, visto que há, na mesma condição de Michelle, 45,6 milhões de brasileiros. Portanto, o mercado não é inexistente; só é necessário que a indústria perceba e se adapte.

Ainda no mesmo dia, opiniões divergentes cercaram um debate sobre a sustentabilidade e a função social da moda. Maria do Carmo, doutoranda em moda, afirmou: “Quando a gente fala em função social da moda, é preciso lembrar das pessoas que precisam de emprego, como na periferia”. Entretanto, foram levadas em consideração as condições precárias a que muitos trabalhadores do ramo são submetidos. O estilista Isaac Silva, presente no debate, disse ter passado por muitas situações que o deixaram desconfortável, como, por exemplo, o fato de funcionários da indústria têxtil terem simplesmente sido tratados como máquinas. Ainda na época, ele pensava em mudar esse cenário: “Quando eu tiver uma marca, vou fazer diferente”. Geni Ribeiro, que trabalha há anos no ramo sustentável da moda, opinou sobre o assunto e disse que, apesar de tudo, esse ideal ainda é bem recente, por isso não é tão explorado. “O movimento está nascendo, ele tem de crescer como um negócio de verdade. Sem virar negócio, a coisa não acontece”.

Moda inclusiva também foi um dos temas discutidos na Fashion Revolution Week, voltando-se para uma questão que poucos se atentam. Foto: Bruna Arimathea

No sábado (29), muitos foram os assuntos debatidos. Dentre esses, esteve em pauta uma discussão sobre jornalismo e moda conscientes. De acordo com Marina de Luca, que trabalha na área de comunicação do projeto, houve dificuldades em promover o movimento por meio da mídia tradicional: “Veículos tradicionais ainda enxergam o estigma da moda sustentável como algo “hippie” e subestimam os leitores que possuem”. No entanto, Nathalia Levy, editora da Elle online, ao mencionar o ideal defendido pela sua editoria, ressaltou o quanto as marcas perdem ao ignorar a importância desses projetos. “Quando elas deixam de abordar a sustentabilidade, acabam perdendo sua relevância, a graça em falar sobre”. Notou-se também que, tanto as marcas quanto as pessoas, muitas vezes, temem se engajar nessas causas por conta das possíveis críticas. Mesmo assim, ficou claro que, atualmente, as revistas de moda podem ser uma ajuda. “Se antes elas faziam parte do problema, hoje são parte da solução”, afirma Nathalia.

MOVIMENTO QUE CRESCE

Apesar das dificuldades por conta de paradigmas, a Fashion Revolution Week conseguiu bastante repercussão. Além da cobertura televisiva, nas mídias sociais a hashtag #QuemFezMinhasRoupas foi utilizada 1,5 milhão de vezes. No instagram, #FashionRevolution possuiu 14800 citações só no Brasil, apontando o país como o mais engajado virtualmente na campanha dentre as 92 nações envolvidas. Vale destacar também que, ao longo da semana, a página obteve um crescimento significativo e atingiu 13 mil seguidores.

Números como esses apenas confirmam o sucesso do evento. É no que acredita Fernanda Simon, representante nacional do movimento Fashion Revolution. Em entrevista ao Sala33, ela reconhece os bons resultados atingidos pela organização, mas também entende que é apenas um dos pontos de partida para que uma revolução aconteça de fato: “Falta muito para a moda se tornar mais consciente. Nós falamos que a moda sustentável tem que ser diferente. Mas é a moda insustentável que precisa mudar. Ainda falta muito para essa revolução acontecer, mas ela já começou, e tenho certeza que ela vai ser cada vez mais rápida e vai falar com cada vez mais pessoas. Eu realmente acredito na mudança.”

Peças sustentáveis fizeram parte da exposição que acompanhou o Fashion Revolution Week. Foto: Gabriel Bastos

Além de compreender que a mudança é, por enquanto, um ideal um pouco distante, Fernanda abordou a polêmica em relação à apropriação dos discursos humanitários e ambientalistas por parte das grandes corporações, os chamados greenwashing e socialwashing. Embora sejam estratégias de marketing, ela busca enxergar tais práticas de maneira positiva. Segundo ela, já é um bom começo o fato das grandes empresas começarem a olhar para a sustentabilidade, mesmo que de forma superficial. É preciso que esse momento inicial aconteça para que, posteriormente, as ideias e convicções possam ser aprofundadas.

Ainda na entrevista, ela discorreu a respeito do papel fundamental do consumidor frente às mudanças, assunto recorrente nas rodas de conversa durante a semana. “O consumidor deve perceber que é um agente da mudança”. De acordo com Fernanda, ser passivo ou não diante dos erros do sistema é uma escolha. “Ou ele é um agente pacífico que não vai mudar nada, pelo contrário, só vai alimentar esse sistema; ou ele percebe que com a compra dele, com o voto dele – porque a compra é um voto -, ele pode redirecionar esse dinheiro para um outro sistema e reconstruí-lo”.

São essas pequenas mudanças de percepção no olhar do indivíduo em relação aos impactos oferecidos pela indústria da moda que motivam o movimento a se expandir e acreditar cada vez mais na possibilidade de uma revolução. Conforme foi ressaltado pela representante do Fashion Revolution, a indústria têxtil é a segunda mais poluente do mundo, perdendo apenas para as petrolíferas. “É uma indústria dependente do trabalho e que movimenta muito a economia. Não só no Brasil, que tem muita mão de obra na indústria têxtil, mas também em outros países. Existe toda a questão do trabalho análogo ao escravo e a questão ambiental, sobre o esgotamento dos recursos naturais. É fato que isso está acontecendo, não é algo que pode ser ignorado”.  

Oficinas também fizeram parte da programação, como a de crochê, que contribuiu para que os participantes desenvolvessem uma relação maior com o processo de confecção das roupas. Foto: Gabriel Bastos

A partir das demonstrações e reflexões causadas pela Fashion Revolution Week, fica claro que, seja como for, a revolução é possível e imprescindível. Medidas urgentes devem ser tomadas, pois estamos correndo contra o tempo. Assim finaliza Fernanda, dizendo que o momento de virar o jogo é agora: “Está na hora de revolucionar, começar a colocar valores humanos na frente disso tudo e atender esse mercado, girar essa economia de acordo com o que é sustentável para a Terra, para o meio ambiente, para os animais, para todos”.

Muito além de ser apenas uma semana de moda diferente, o movimento Fashion Revolution permanece ao longo do ano  trabalhando nessa causa com muitos projetos e diversas ações. E os organizadores prometem novidades para 2017. O Sala33, como sempre, permanecerá informando a respeito dessas iniciativas, que contribuem para a formação de consumidores mais conscientes e que impedem a violação dos direitos humanos.

Por Anny Oliveira e Gabriel Bastos
acoliveiramartins@usp.br | gabriel.bastos@usp.br

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