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Fellini: sátira, crítica e ironia
CINÉFILOS
11 set 2013 | Por Jornalismo Júnior

Federico Fellini (1920-1993) foi sem dúvida um dos maiores expoentes do cinema italiano. Com uma extensa obra (vinte e quatro filmes feitos em toda sua vida), esse cineasta foi além do neorrealismo italiano, construindo uma estética própria, excêntrica, encantadora. E é justamente por isso que o termo “felliniano” é comumente utilizado para se referir ao seu estilo e à sua premiada obra.

Vida e obra

Filho de uma dona de casa e de um caixeiro viajante, Fellini cresceu numa típica família de classe média, na cidade de Rimini. Sempre se destacou por sua criatividade, que veio à tona através da escrita e do desenho. E por isso surgiram oportunidades para ele trabalhar em jornais e revistas. Ele fazia charges, artigos e crônicas, e inclusive trabalhou numa revista satírica de grande circulação na época, a Marc’Aurélio. Depois, começa a trabalhar no rádio e a participar de roteiros de filmes. Nesse ramo, conhece a atriz Giulietta Masina (1921-1994), com quem se casa em 1942.

Fellini já era nascido na ascensão do fascismo na Itália e sem dúvidas, viver num regime autoritário influenciou muito sua obra. Não é a toa que, em 1945, após a queda do regime fascista na Itália, ele participa da produção e do roteiro do filme Roma, Cidade Aberta (Roma, città aperta, 1945), do diretor Roberto Rosselini (1906-1977), crítica ferrenha ao fascismo e que se tornaria marco do movimento neorrealista italiano.

Fellini vai além do neorrealismo

O neorrealismo italiano foi um movimento que surgiu para se contrapôr à estética fascista, que representava a sociedade através de uma visão moralista, também com aspectos do positivismo. Era um cinema de propaganda das ideias do regime fascista, distante do povo italiano.

A vanguarda neorrealista se caracterizou, portanto, por ser uma estética de resistência a esse autoritarismo. Os diretores procuravam mostrar a vida das pessoas e os problemas pelos quais a Itália estava passando.

Em seus filmes, Fellini fazia as críticas que abrangiam o movimento neorrealista. Entretanto, ele o fazia a seu modo, o que faz com que o diretor se destaque em relação a essa estética. O diretor italiano colocava em suas obras referências autobiográficas, além de construir uma atmosfera própria em seus filmes, relativa aos sonhos, à fantasia. A exploração do estranho e do extravagante também é um marco de sua obra. Quando se diz “felliniano”, muitas pessoas associam apenas a essa análise dos excessos, mas esse termo vai muito além disso, pois esse diretor cunhou uma nova forma de se representar a realidade.

Trilha sonora

É impossível comentar a obra de Fellini sem mencionar Giovanni Rota Rinaldi (1911-1979), mais conhecido como Nino Rota. O compositor fez a trilha sonora de todos os filmes de Fellini entre os anos 1952 e 1978, um ano antes de sua morte.

Nascido em uma família de músicos, Rota desde pequeno começou seus estudos em música, se formando no conservatório de Santa Cecília. Ele é considerado um dos melhores músicos de sua geração e sua participação na trilha sonora de diversos filmes o torna uma verdadeira lenda em seu meio. Arrisco a compará-lo a Ennio Morricone, também compositor italiano, pois ambos são muito importantes e tiveram grande participação no mundo do cinema.

Fora os filmes do Fellini, Nino Rota trabalhou nos filmes de importantes diretores, como  Luchino Visconti, Franco Zeffirelli e Francis Ford Copolla, compondo a trilha do clássico O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972).

Marcello Mastroianni

Outra figura frequente na obra de Fellini é Marcello Mastroianni (1924-1996). Dos vinte e quatro filmes do diretor italiano, o ator participou de seis deles.

Fellini contribuiu e muito para a fama de latin lover que o ator adquiriu ao longo de sua carreira. Mas é importante não ver apenas esse aspecto de Marcello Mastroianni, que deu vida a personagens complexos através de um trabalho de altíssimo nível, que lhe rendeu diversas premiações.

O ator interpretou diversos papéis importantes, como em Ontem, Hoje e Amanhã (Ieri, Oggi, Domani, 1963), de Vittorio De Sica (1901-1974) e O Homem em Estado Interessante (L’évènement le plus important depuis que l’homme a marché sur la lune, 1973) de Jacques Demy (1931-1990). Além disso, sua parceria com Sophia Loren é uma das mais prestigiadas da história do cinema.

Filmes


É complicado eleger alguns filmes essenciais de toda a obra de Federico Fellini, não só por sua extensão, mas também por sua qualidade e complexidade. Assim mesmo, é importante fazer um breve comentário de alguns deles, como A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960), Oito e Meio (8½, 1963) e Satyricon (idem, 1969).

A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960)

Muitos afirmam que A Doce Vida é a maior obra prima de Federico Fellini e um dos melhores filmes de toda a história do cinema. Isso se deve à diversos aspectos do filme, que disseca as contradições da alta sociedade italiana e do sensacionalismo jornalístico, além de abordar outras questões, passando também pela crítica à Igreja Católica.

Marcello Mastroianni interpreta o jornalista Marcello Rubini, protagonista do filme. A história se passa em Roma, onde ele tem uma vida agitada devido à sua profissão, que permite que ele frequente a alta sociedade italiana, apesar de não pertencer a ela. O senso comum é acharmos que, por sua rotina dinâmica e animada, Marcello é uma pessoa que vive sua vida intensamente. Entretanto, ele é uma pessoa fria e apática, sufocada por essa mesma rotina.

É uma crítica muito densa, que aborda com genialidade diversos problemas da sociedade italiana.

A cena mais famosa do filme se passa na Fontana de Trevi, onde Marcello acaba indo parar junto com a famosa atriz americana Sylvia Rank. Marcello fica deslumbrado por ela, que é praticamente uma caricatura daquilo que costumamos julgar como uma mulher bonita porém sem muito conteúdo, agindo muitas vezes como se fosse uma criança.

Oito e meio (8½, 1963)

O filme Oito e Meio é um exemplo das referências autobiográficas que Fellini fez em várias partes de sua obra.

Algumas cenas do filme foram inspiradas em experiências vividas pelo próprio diretor, que também se utilizou de seus sonhos para construí-las, inspirado na psicanálise jungiana.

Marcello Mastroianni surge novamente como protagonista e dá vida ao cineasta Guido Anselmi. O personagem passa por uma crise de criatividade, além de estar cansado de sua rotina. A solução que ele encontra para esses problemas é fazer um filme sobre suas próprias dificuldades e pensamentos.

É uma metalinguagem dentro de outra, pois Fellini fala de si mesmo nessa obra e o personagem Guido Anselmi faz o mesmo dentro da trama.

Além disso, o filme traz também uma crítica a indústria do cinema, que muitas vezes possui apenas interesse comercial nas obras cinematográficas, fato que pode limitar o trabalho artístico e o surgimento de ideias diferentes daquelas “que vendem” por parte dos diretores.

Satyricon (idem, 1969)

Por fim, eu escolhi falar de Satyricon por esse filme abranger um outra característica já comentada sobre a obra de Fellini: a exploração do extravagante e da fantasia.

Baseado na obra de mesmo nome que data do século I d.C, do autor romano Petrônio, Satyricon é um filme fragmentado, da mesma forma que o livro, pois algumas partes do texto original daquela época se perderam. Essa fragmentação contribui para a atmosfera onírica do filme, que também é reforçada pelos excessos da trama.

O filme aborda temas que a sociedade da época em que ele foi lançado (1969), e até mesmo de hoje em dia, recebe com receio. A obra aborda, por exemplo, a homossexualidade e a pedofilia, que se faziam presentes na sociedade romana da época.

Por Nina Turin
ninaturin48@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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