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Feminismo e sororidade no cinema
CINÉFILOS
20 jul 2015 | Por Jornalismo Júnior

Por Natalie Majolo
nmajolo95@gmail.com

Mulher, corpo estranho que não é homem.

De modo consciente ou inconsciente, as mulheres são tratadas de outra maneira pelo fato de não serem homens. Claro, fisicamente elas realmente são diferentes. Mas nada justifica tamanha preponderância: seus próprios corpos não parecem ser de sua propriedade; seu próprio intelecto não parece ser tão válido – julgadas e culpadas por terem nascido com o “segundo sexo”.

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A desigualdade de gênero não data de hoje. As culturas, ocidentais ou orientais, estão fundadas em práticas machistas. Apesar das tradições seculares, dado o nosso estágio da sociedade humana, não podemos aceitar que o desrespeito que as mulheres sofrem continue sendo visto com normalidade. Essas situações não devem ser institucionalizadas. Seu querer precisa ser levado em conta.

Para que as mulheres questionem a vontade masculina, elas precisam ter força. Sozinhas elas não conseguem se empoderar o suficiente. Afinal, para questionarem a vontade dos homens, elas primeiro têm de questionar a si mesmas, sobretudo sua submissão. Após sua contestação e a identificação do problema, resolvê-lo é o próximo passo. Sozinhas, são engolidas pelos ataques de todas as partes. Quando unidas, a situação passa a ser enxergada de outra forma, pois atinge grande parte das pessoas, homens e mulheres.

Aqui entra uma discussão muito importante. Para se unirem, as mulheres precisam parar de competir; elas precisam de sororidade. Mas que conceito feminista é esse? Entenda com o vídeo super didático do Lado M, um portal com conteúdo jornalístico voltado para o público feminino,

Os três filmes a seguir exemplificam como as mulheres, quando não competindo, mas sim unidas, são mais fortes. Como um ponto fora da curva pode incomodar significativamente a normalidade da estrada do patriarcado.

Tomates Verdes Fritos (Fried Green Tomatoes, 1991)

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Formosa e colorida década de 90 nos Estados Unidos. Evelyn (Kathy Bates), uma dona de casa de meia idade, começa a participar de reuniões de mulheres que querem se sentir melhor em seus casamentos, se autofirmar e se autodescobrir. A monotomia e a normalidade de sua casa passam a ser percebidos como um problema: seu marido, Ed (Gailard Sartain) não a respeita como ela gostaria. Evelyn percebe que ela não vive sua vida por causa do seu companheiro, que a reprime dentro de sua própria casa.

Numa visita a um asilo, Evelyn conhece Ninny (Jessica Tandy), uma idosa simpática que não recebe muitas visitas. A senhora passa a contar uma história que se passou nos anos 30, ali nas proximidades. Em cada encontro Ninny conta mais a Evelyn a história de Idgie (Mary Stuart Masterson) e de Ruth (Mary-Louise Parker), duas amigas que construíram um café e uma vida juntas.

Idgie, uma mulher que não se comporta como as moças daquela época, teve uma perda muito dolorosa, e vive a vida intensamente, sem moralidades. Ruth, uma lady, é apresentada para o mundo real, fora do ambiente doméstico, por Idgie. Depois de descobrir a violência doméstica que sua amiga sofria no casamento, Idgie a “salva” para iniciarem um negócio juntas. Dirigido por Jon Avnet, Tomates Verdes Fritos é um filme sobre companheirismo, sororidade, lealdade e muito amor entre amigos e amigas.

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O filme contém a força que existe para se desvencilhar de um relacionamento abusivo, que existe no racismo da época e outras formas de violência e preconceito dos Estados Unidos nos anos 30 e 90. Podemos observar como mulheres podem ser definitivamente independentes, já que não precisam de um homem para que elas sejam felizes ou completas. E quanto a Evelyn e Ninny? Elas nos mostram que amizade não tem diferença de idade!

A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes, 2011)

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Lavar, passar, cozinhar, limpar, cuidar dos filhos e do marido. De norte a sul, a rotina de muitas mulheres é exclusivamente essa. Isso se torna um problema quando muitas se veem obrigadas a seguir o costume, dentre tantos outros regionais e culturais. Situado num pequeno vilarejo islâmico, A Fonte das Mulheres  (La Source des Femmes, 2011), dirigido por Radu Mihaileanu, retrata a luta  das mulheres que ali residiam para terem uma maior divisão de tarefas domésticas – que incluíam direitos básicos.

O vilarejo, de infraestrutura precária, não possuía energia, sequer água encanada. A taxa de desemprego era grande, e a produtividade no campo baixava, o que só aumentava a pobreza. A única fonte de água próxima era de difícil acesso. A tradição local dizia que era dever das mulheres ir em busca de água. Enquanto os homens, ociosos, fumavam e tomavam chá, as mulheres subiam o morro pedregulhoso até a água, e voltavam  com baldes pendurados nos ombros. Não importava se estavam grávidas ou indispostas: era seu dever, e de mais ninguém.

Leila (Leïla Bekhti), recém casada com um dos homens da vila, veio de outro lugar, do qual as mulheres não eram obrigadas a tal tarefa. Seu marido, Sami (Saleh Bakri), é professor de uma cidade próxima, a ama e a respeita. Infelizmente nem todos os casamentos são assim felizes. Como protesto por somente as mulheres irem buscar a água, elas decidem fazer uma greve de sexo. Muitos homens não aceitavam “tamanho desrespeito”, e algumas mulheres eram então violentadas por seus próprios maridos.

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A greve de sexo abala toda a estrutura do vilarejo. Os homens começam a buscar soluções para o problema da água. Sami vai à cidade pedir ao governo um de seus direitos básicos. O burocrata responsável comenta: “por que quebrar uma tradição imemorável [mulheres irem buscar a água]?” . O avanço tecnológico, para ele, trará a independência das mulheres quanto a algumas tarefas domésticas, como com a chegada da máquina de lavar. “O que elas farão ao invés de lavar a roupa? Elas ficarão o dia inteiro no telefone. Você sabe quanto custa uma linha de telefone?”.

Noutra cena, Sami vai conversar com o chefe reliogioso, ou Sheik, (Omar Azzouzi) para que incentive as famílias que tem filhas meninas a permitirem sua ida à escola, não só a dos meninos. O Sheik utiliza o argumento de que elas “são mais úteis em casa” e que caso elas permaneçam estudando, “vão querer ir para a cidade grande” e que “isso custaria muito dinheiro”. Ele se pergunta: “quem cuidaria da casa?”.

A Fonte das Mulheres exemplifica a grande futilização que as mulheres sofrem, principalmente na sociedade islâmica. Faz também forte crítica à sua interpretação equivocada das escrituras sagradas – que se pauta nos interesses particulares de quem o faz. Leila, inicialmente, foi rexaçada por incentivar a greve. Posteriormente, as mulheres da vila viram seu potencial quando juntas.

O filme exemplifica a tal sociedade patriarcal que não permite sequer que as mulheres estudem; que querem que sempre realizem as tarefas domésticas, cuidem das crianças e estejam sempre prontas para o coito. Quando separadas, as mulheres em A Fonte das mulheres eram fracas, sua opinião ou vontade não tinha valor. Agora que se uniram, elas tem força para quebrar tradições que só perpetuam a desigualdade entre os gêneros.

Thelma & Louise (1991)

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Duas amigas, uma viagem e busca por diversão. Poderia até ser cliché, mas a história sai da tangente da normalidade. Dirigido por Ridley Scott, o filme ganhou o Oscar em 1992 pelo melhor roteiro original. Thelma (Geena Davis) é uma dona de casa que se casou muito cedo. Louise (Susan Sarandon) é garçonete, solteira e de passado obscuro.

O marido de Thelma, controlador e desrespeitoso, a trata muito mal. Para viajar, Thelma iria pedir permissão a Darryl (Christopher McDonald), mas dada a impossibilidade dela ter voz, o faz sem nem mesmo avisá-lo. No Thuderbird de Thelma, as amigas saem para uma viagem que mudaria completamente suas vidas.

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Para se salvarem de um estupro, as amigas cometem um crime. Por saberem que ninguém acreditaria na versão delas, elas se tornam fugitivas da polícia. A história toma tal caminho que elas começam a fazer o que bem entendem, sem se preocuparem com moralismos, principalmente quando isso as desrespeita só pelo fato de serem mulheres. O filme contém uma boa dose de companheirismo e amizade, o que apenas reforça o que têm sido dito nesta matéria: separadas, as mulheres são engolidas pela opressão do patriarcado. Mas quando juntas, sua força muda o mundo e as pessoas. Precisamos da sororidade para que a humanidade não seja apenas um amontoado de humanos, mas um lugar mais humano.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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