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Francisco Fonseca: “Bolsonaro é uma elite com o que tem de mais perverso nela”
JPRESS
26 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

A três dias das eleições de 2018, uma das mais polarizadas da história, a J.Press entrevistou quatro cientistas políticos: dois pró-Haddad e dois pró-Bolsonaro. Confira a quarta entrevista:

 

Por Laura Molinari (lauratmolinari@usp.br)

Francisco Fonseca é cientista social formado pela PUC de São Paulo, mestre em Ciência Política pela Unicamp e doutor em História Social pela USP. É professor de Ciência Política na FGV e também na PUC/SP, onde chefia o Departamento de Política.

À J.Press, Francisco analisou a estratégia de campanha do presidenciável Jair Bolsonaro e o futuro do país diante de uma potencial vitória. O professor expôs motivos que sustentam sua opinião contrária à escolha do candidato para o cargo de Presidente da República.

Por que o Bolsonaro não é o candidato que o Brasil precisa? Ou é?

O Bolsonaro não é o candidato que o Brasil precisa por muitos motivos. Em primeiro lugar, pelo que ele representa. Ele é a representação de uma prática e de um pensamento autoritário. Ele é alguém que defende práticas da ditadura militar, como a tortura. É alguém que não tem apreço pela democracia. Acho que esse é um primeiro ponto muito evidente.

Em segundo lugar, é uma figura que representa interesses empresariais de setores da economia que são extremamente problemáticos. Como a indústria armamentista, da segurança privada, o agronegócio, os latifundiários. A sua representação política não é dos trabalhadores, dos grupos onerados, não é a maioria dos brasileiros. É de uma elite privilegiada que quer diminuir ou até acabar com direitos dos trabalhadores. Exemplos notórios: toda a oposição parlamentar que Bolsonaro fez ao longo de 27 anos como deputado federal aos direitos trabalhistas e sociais. E aos grupos onerados, como negros, mulheres, indígenas, homosexuais, pessoas com deficiência. O segundo ponto é muito claro, ele não é uma pessoa que defende a maioria das pessoas. Pelo contrário, é uma elite com o que tem de mais perverso nela.

Em terceiro lugar, Bolsonaro é uma espécie de franco-atirador. Alguém que não tem vida partidária, não é uma liderança. Enquanto parlamentar, era um medíocre. Nunca teve nenhuma importância, foi sempre um número no parlamento e nada mais do que um bizarro.

Ele adquire grande popularidade em razão de uma desqualificação da política, seja pela Operação Lava Jato, pela grande mídia, que gerou de forma muito substancial o ódio pela política, principalmente sobre o PT e a esquerda. Bolsonaro representa, nesse momento, um voto anti-sistema para uma parte do eleitorado. Uma parte muito conservadora se vê representada nele, mas há uma outra, grande, que é iludida pelo discurso anti-sistema que ele não representa. É mais do que uma fake news, é um fake candidato. Ele é exatamente o contrário daquilo tudo que se apresenta, como alguém de fora do sistema, moralizador, capaz de colocar ordem. Ele representa a total incerteza, a ausência de tranquilidade para resolver problemas complexos. É um histórico inclusive pessoal, partidário, político, de irrelevância. É interessante lembrar que o Hitler também foi uma figura irrelevante. Esse tipo de personagem que se coloca como um outsider sendo insider, de tempos em tempos, aparece na história.

Na última pesquisa do Ibope, Bolsonaro lidera com 57% dos votos válidos. Como a gente explica esse nível altíssimo de aceitação em comparação com o quadro que havíamos inicialmente? Isso se dá mais por um sucesso de campanha do Bolsonaro ou pelo fracasso da campanha dos outros candidatos?

É uma questão bastante complexa, envolve vários fatores. Há ausência de uma frente de esquerda que deveria ter sido feita desde o início e não se fez. Logo em seguida, após o primeiro turno, a grande frente democrática está sendo feita de maneira muito lenta. Além disso, é importante dizer que o Bolsonaro se tornou uma imagem, inclusive que não se coloca ao debate, que ninguém sabe exatamente o que pensa e o que diz é o tempo inteiro desdito. Diz, desdiz, diz e desdiz. Ele se tornou uma grande imagem vazia que pode ser interpretada de diversas formas. Claro que é uma imagem com evidetonalidades autoritárias, mas não se sabe exatamente o que ele defende. É um mundo lusco fusco, cinzento, que não tem forma. É anti-sistema, mas o que é isso? Alguém que é parlamentar há quase 30 anos e se coloca como anti-sistema? Há também problemas com outros partidos, evidentemente, mas há também essa imagem que surgiu após a facada. Não é algo tranquilo, como nada em torno da figura do Bolsonaro é límpido.

Me parece que os índices mostram isso, mas a última pesquisa que saiu também mostra uma ascensão rigorosa da candidatura Haddad e a eleição está absolutamente em aberto. não é uma eleição que está resolvida. Pelo contrário, há um movimento ascendente explicado também por um centro democrático que começa a se juntar ao Haddad, com FHC, Marina, muitos intelectuais, artistas, juristas e mesmo aqueles que não simpatizam com o PT, voltando ao leito democrático.

Você considera que a eleição já está ganha?

Esse discurso que já ganhou é um discurso da grande mídia, da campanha do Bolsonaro. Mas longe disso acontecer. Eu prefiro o método da Vox Populi pelo ponto de vista metodológico. O clima que já ganhou é estratégico, para desmobilizar o outro lado. Quando isso decididamente não é verdadeiro. Na época daquilo que se chama muito genericamente de fake news, é mais uma dessas montagens que querem dizer que está tudo resolvido, quando na verdade não está. Está ocorrendo no Brasil uma grande movimentação nesta semana, e essa última pesquisa já demonstra isso. Outras demonstrarão também. Queda de rejeição do Haddad, aumento da rejeição ao Bolsonaro, queda das intenções de voto no Bolsonaro e ainda uma leve ascensão de votos no Haddad. De sexta a domingo os dias serão cruciais para a tomada de decisão.

O candidato vem optando por uma campanha pouco ativa. Sai pouco às ruas, nega ir aos debates. O que isso representa, é uma estratégia de campanha ou uma percepção de que a eleição já está ganha?

É uma estratégia de campanha em definitivo. Primeiro porque o Bolsonaro, enquanto candidato, não tem qualificação intelectual para um debate de ideias. Isso ficou demonstrado nos seu 27 anos como parlamentar e nos debates que ele participou no primeiro turno, sendo desconstruído por várias candidaturas, inclusive da Marina Silva. É uma figura muito frágil do ponto de vista de ideias. Então é uma incapacidade, mesmo. Ainda mais contra uma figura muito qualificada, não vamos esquecer que Fernando Haddad é um professor respeitado nas ciências sociais, do ponto de vista do direito, da política, da economia, que teve a experiência de ministro e de prefeito de São Paulo, o que lhe deu mais base empírica ainda. O Bolsonaro não tem qualificação intelectual para um debate de ideias. Portanto, retirá-lo do debate é uma estratégia de não perder voto porque ele não consegue disputar, debater de igual para igual.

Segundo é que é uma estratégia de reforço a uma imagem. O Bolsonaro é uma imagem vazia ou relativamente vazia, com ideias autoritárias, mas que pode ser preenchida de diversas formas.

Até que ponto os eleitores do Bolsonaro pensam como o Bolsonaro?

O eleitor reacionário que está interessado em exterminar pessoas cabe no discurso dele. O eleitor anti-sistema que não sabe exatamente contra o que é e como, vota nele. O eleitor anti-PT vota no Bolsonaro muito mais como algum regime de força de combate à corrupção. São vários imaginários que rondam a figura dele e, como ele não tem substância, o seu programa de governo é pífio, praticamente não diz nada. Não agir no debate é atuar de maneira suja pelo WhatsApp e projetar imagens, ideias. São estratégias que evidenciam toda a fragilidade e o jogo sujo de sua campanha.

A câmara está fragmentada. Mas o PSL ganhou a segunda maior representatividade. O que isso representa em uma eventual vitória de Jair Bolsonaro? Ele terá governabilidade?

O PSL não representa rigorosamente nada. É uma legenda de aluguel. Dos parlamentares eleitos, grande parte são pessoas sem experiência, desde militares a ator pornô, ativista neoliberal, pessoas que nunca pisaram no parlamento. São pessoas inexpressivas e inexperientes. Para governar, tem que depender do chamado centrão. O centrão tem um modo de operar que torna o Bolsonaro um amador e consegue, na base do fisiologismo, tornar esses personagens que são amadores algo facilmente capturável. O Bolsonaro tende a ser muito mais um fantoche do que qualquer outra coisa.

Mas o mais importante da ideia de governabilidade é: que quem são os dois pilares por trás da campanha? Os grandes empresários, o agronegócio, indústria da arma, desmate da amazônia. E do outro lado estão os militares com seus privilégios. Tudo isso entremeado por um discurso neoliberal a partir da figura do Paulo Guedes. Só que isso tudo não fecha, o privilégio dos militares e o neoliberalismo que, teoricamente, quer acabar com todos os privilégios. É uma governabilidade caótica e com um discurso parcial, de ódio, de perseguição, que não cabe no estado de direito democrático. Os ataques que o Bolsonaro, seu filho e seus apoiadores têm feito ao STF, ao TSE e às instituições fazem indicar um terceiro turno. Ou seja, numa eventual vitória dele, essas denúncias, que tem provas muito cabais, de caixa dois, pode gerar cassação a qualquer momento. Seria uma vitória que implica numa derrota.

Poderia acontecer neste momento, porque as provas são muito rigorosas e não foi cassado porque as instituições no Brasil são extremamente frágeis. Mas isso vai rondar uma eventual vitória do Bolsonaro.

Há também um discurso parcial que inclusive não tem pé nem cabeça, de comunismo, Venezuela, kit gay. Isso é uma farsa total, que veio pra ganhar as eleições. Mas ele vai ter que responder aos seus eleitores quanto a isso. Isso torna a governabilidade inviável muito mais na sociedade do que no congresso. E mesmo no congresso ele terá dificuldades porque é um grupo político de amadores.

Muito se relativiza do discurso de ódio proferido pelo candidato. Ainda caso eleito, existe possibilidade desse discurso ganhar corpo na prática? Isso já acontece?

Isso já está acontecendo, são mais de 70 casos de violência por razões políticas. Queria lembrar o assassinato do mestre de capoeira, o Moa em Salvador como um símbolo da violência no Brasil. Como a Marielle, é um símbolo muito importante.

Por outro lado, o presidente da república pode muita coisa, mas não pode tudo. Ele não pode, por exemplo, mexer com a polícia militar, que é estadual. Existem questões federativas que, apesar de toda a fragilidade do Estado brasileiro em defender a democracia e a constituição, o jogo é muito complexo. Agora, é evidente que a fala de domingo aponta pra isso. ele está mostrando muito claramente que tem um projeto autoritário e que não são só palavras, vai ser implementado. Eu acho que o Brasil corre um risco de violência sistêmica colocado por essa figura. Cabe numa ditadura, mas não numa democracia.

E a democracia brasileira corre riscos reais?

Com certeza. se nós estamos falando de ataques a pessoas a grupos e instituições, tudo isso é colocado em questão. há uma máxima na ciência política que é que a democracia não tolera a intolerância. E o Bolsonaro representa a intolerância. A democracia e o Bolsonaro, portanto, são incompatíveis.

O que significa a boa aceitação do mercado diante de uma eventual vitória do Bolsonaro?

Na verdade o mercado não existe. O que se chama de mercado são os grandes bancos, o grande capital. É um número muito pequeno de grupos, que é poderoso em termos de tamanho de capital, mas não em número de grupos. O bar da esquina é mercado, a mercearia, a papelaria, mas eles não não contam. Existem setores mais distintos de mercado e que querem coisas muito diferentes. Eu diria que o Bolsonaro é bom pra pro mercado especulativo, mas não é bom para a maioria dos médio e micro empresários.

O que uma eventual vitória representa para o futuro da economia brasileira?

Eu vejo um país perdendo sua soberania nacional, o que já começou com o Temer, uma liquidação do patrimônio público, das políticas públicas universais, e isso gera miséria, um caráter subalterno do Brasil perante o exterior. O programa neoliberal é fracassado no mundo inteiro, será aplicado aqui e fracassará aqui também. Sofrerá uma enorme pressão de grupos que querem privilégios e que estão com Bolsonaro.

A mesma coisa, agora, pensando no destino da população. Quais são as perspectivas sociais diante de uma eventual vitória? O que muda?

Uma vitória coloca o que mais que tiver o Estado por meio de políticas públicas órfãos. é privatização do sus, aprofundamento da reforma trabalhista, ou seja: é um mundo pró capital e anti trabalhador.

E as relações exteriores, como ficam? O candidato esboça um pouco das atitudes do governo Trump,  de descrédito às relações multilaterais, quando critica, por exemplo, o Acordo de Paris. O que mudaria nas relações internacionais que o Brasil mantém?
Antes de tudo, um isolamento diplomático ainda maior. O Brasil já é um país muito isolado internacionalmente. Numa eventual vitória, há uma política parecida com a do Temer, com a diferença de estar mais alinhada ainda com os Estados Unidos. Inclusive com os ataques à Venezuela e América Latina. É isolamento completo do Brasil, inclusive esboçando romper vários acordos de direitos humanos e tantos outros. Isso cai o grau de investimento e torna o Brasil muito isolado. O Bolsonaro seria uma espécie de office boy do Trump.

 

Foto de destaque: Alice Vergueiro/Folhapress

 

 

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