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Observatório: o que será do futebol feminino brasileiro após a Copa?
ARQUIBANCADA
30 jun 2019 | Por João Pedro Malar e Karina Tarasiuk (joaopedromalar@gmail.com e karinatarasiuk@usp.br)

A Copa do Mundo 2019, sediada na França, foi um dos assuntos de maior destaque deste mês. Com a participação de 24 países, o evento gerou a reflexão sobre representatividade das mulheres nos  esportes, que, embora tenha crescido significativamente nas últimas décadas, ainda não atingiu o mesmo nível dos homens, sobretudo nas modalidades consideradas “masculinas”.

Apesar de o Brasil ter sido derrotado pela França, sua participação na Copa foi importante para resgatar o debate sobre a desigualdade de gêneros nos esportes.

 

Breve história do futebol feminino

Embora o assunto tenha entrado em pauta recentemente, a desvalorização da mulher nos esportes já é discutida há bastante tempo. Em um momento de sua principal obra, O Segundo Sexo, a existencialista francesa Simone de Beauvoir analisa o esporte como uma forma de “tomar o destino nas mãos, ao invés de entregá-lo ao homem”, pois as esportistas, estando positivamente interessadas em sua própria realização, se sentem menos inferiorizadas em relação à figura masculina.

A filósofa também diz que, mesmo com a maior inserção da mulher nos esportes, graças aos avanços do feminismo, ainda existe grande resistência. Desse modo, “enquanto não houver uma perfeita igualdade econômica na sociedade, o sonho de um êxito passivo continuará e ela [a mulher] freará suas próprias realizações”. Pelo observado nessa Copa, a situação ainda não evoluiu tanto quanto deveria.

No início, as partidas de futebol feminino no Brasil eram tratadas como piada, e as mulheres “se apresentavam” no circo. O jogo, assim, era uma performance, não uma partida de verdade, o que piorou em 1941. De acordo com Alessandro Hervaldo Nicolai Ré, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), nesse período foi criado o Decreto-Lei 3199, que proibia a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”, como o futebol, e só foi revogado em 1979. A regulamentação da modalidade só ocorreu quatro anos depois, quando se permitiu competir, criar calendários, utilizar estádios e ensinar nas escolas.

Em 1988 houve um torneio experimental, no qual o Brasil ficou com bronze. Mas a Copa Fifa oficial só ocorreu cinco anos depois, com um tratamento muito amador. O Brasil não obteve bons resultados nessa situação: foi eliminado na primeira fase. Em 1996 o time brasileiro participou das Olimpíadas, posicionando-se na quarta colocação. Em 2004, o time ganhou medalha de prata nas Olimpíadas. A partir de então surgiu maior esperança para o futebol feminino no país, mas nem todas as questões foram resolvidas.

A respeito de toda essa história, José Alberto Aguilar Cortez, professor da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), mencionou algo interessante: o futebol masculino entrou no Brasil por meio das elites da época e só depois se popularizou. O futebol feminino, por sua vez, é diferente, pois já começou marginalizado. Assim, é preciso de algum tempo para, através da prática nas escolas, mudar esta visão antipática do esporte e das praticantes.

 

Audiência

Para Cortez, o fator predominante para a marginalização do futebol feminino, não é mais apenas a cultura machista, mas também a falta de patrocinadores que só investem nos “produtos” que garantem retorno financeiro. A falta de público e de investidores também está relacionada com a cultura brasileira e a imagem pouco atraente da modalidade, de modo que só recentemente a população passou a se preocupar com o problema. Ele menciona também que a transmissão do futebol nos Jogos Olímpicos e nas Copas do Mundo foi fundamental para a visibilidade das mulheres nesse esporte mas, no caso brasileiro, essas são situações esporádicas e o efeito também é ocasional. 

Nicolai Ré diz que não acha certo vincular o processo de formação e treinamento de jogadoras aos resultados competitivos, independentemente de serem positivos ou negativos. “Mas, se levarmos em conta a garra e determinação demonstradas pelas atletas, creio que a atuação na Copa pode ter impacto positivo.” Afinal, para o professor, a Copa atrai a atenção da mídia, permitindo expor ao público o esforço das atletas, a competência e o combate ao preconceito. Com isso, pode-se contribuir com a popularização do futebol feminino.

Porém, a situação brasileira está melhorando: o último jogo do Brasil na Copa teve recorde de audiência na modalidade feminina, com mais de 35 milhões de espectadores. Embora a seleção brasileira tenha perdido e ainda existam preconceito e tabu ainda na mentalidade de muitos, esse número é extremamente relevante por demonstrar que, aos poucos, a população está começando a aceitar o futebol feminino. O aumento da audiência, nesse sentido, demonstra o potencial do esporte na luta pela igualdade de gênero.

 

Precarização do futebol feminino

Um fator importante que dificulta a expansão e evolução do futebol feminino no Brasil é a falta de investimentos e incentivos, tanto por parte de órgãos governamentais quanto por parte de clubes de futebol. 

Apesar de o Brasil ser um dos países latino-americanos que mais investe em esportes e em seus praticantes, são constantes as reclamações de falta de apoio financeiro por parte de atletas, que são forçados a realizar outros trabalhos para complementação de renda e, até, custear treinos e viagens para competições. No caso do futebol feminino, essa realidade não é diferente, e é, inclusive, intensificada.

Em 2017, por exemplo, o Governo Temer anunciou um corte de 87% no orçamento do Ministério dos Esportes para o ano de 2018, o que afetou o programa Bolsa Atleta, principal programa governamental de apoio a atletas. Já em 2019, o Governo Bolsonaro implementou uma expansão do programa, adicionando mais 3.142 atletas aos beneficiários. Hoje, o Bolsa Atleta conta com 6.200 integrantes. Foi anunciado, também, um envio adicional de R$ 70 milhões ao orçamento do programa.

Esse apoio financeiro é essencial no contexto do futebol feminino, já que a maioria das atletas recebem salários muito baixos e contam com poucos patrocínios. Desse modo, a bolsa permite o custeio de equipamentos, alimentação e transporte, possibilitando a manutenção das jogadoras no esporte. Das 23 jogadoras da seleção feminina brasileira, 17 recebem o Bolsa Atleta. Em contraste, na seleção masculina nenhum atleta recebe a bolsa, já que os salários e patrocínios recebidos pelos jogadores a tornam desnecessária.

Outro elemento importante é a falta de apoio financeiro dos próprios clubes de futebol. Apesar de uma regulamentação recente da Confederação Brasileira de Futebol obrigar os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro Masculino de Futebol a ter um time feminino, um levantamento do jornal O Globo aponta que apenas 1% do orçamento desses clubes é destinado para as atletas.

A título de comparação, o Flamengo, clube do Rio de Janeiro, investiu  R$ 1 milhão de reais em seu time de futebol feminino em 2018. Esse valor seria equivalente a um mês de salário de Gabigol, uma das estrelas do time de futebol masculino. 

Por fim, a falta de apoio empresarial, por meio de patrocínios, também contribui para a precariedade do futebol feminino. Marta, uma das melhores jogadoras de futebol do mundo, optou por ficar sem patrocinadores nesta Copa de 2019, devido aos baixos valores oferecidos, em especial na comparação com patrocínios para homens. Para ressaltar essa diferença, Marta jogou com o símbolo do movimento Go Equal, que luta pela igualdade de gêneros, estampado em sua chuteira.

Um levantamento da revista France Football comparou o salário dos melhores jogadores e jogadoras de futebol do mundo: a soma dos salários das cinco melhores jogadoras do mundo, 1,79 milhões de euros, não é nem um décimo do salário do quinto melhor jogador do mundo, Gareth Bale, com 40,2 milhões de euros.

[Imagem: Divulgação / Go Equal]

 

Preconceito e discriminação

As deficiências estruturais e financeiras da área também estão relacionadas à existência de um profundo preconceito, enraizado na sociedade. Esse preconceito baseia-se na ideia de que o futebol é um esporte masculino, e, portanto, deve ser praticado apenas por homens. Para aqueles que compartilham dessa retrógrada visão, o campo não é lugar de mulher.

Além da veiculação de discursos de ódio e diversos tipos de violências, esse preconceito também é um agente limitante para o futebol feminino. Pautado por ele, dirigentes de clubes, donos de empresas, técnicos e governantes acabam vendo o esporte sob uma óptica de inferioridade e pouca confiança. Se, por exemplo, há a crença que não vale a pena investir na modalidade e em suas atletas pois o esporte não foi feito para elas, acaba sendo criada uma grande deficiência de apoio financeiro.

Nicolai Ré, é categórico ao apontar as causas da marginalização do futebol feminino: “Preconceito e ignorância”. Para ele, é essencial que esses dois elementos sejam combatidos para melhorar o apoio ao futebol feminino na sociedade. Outro fator apontado por ele, também, é que “ainda faltam mulheres atletas e dirigentes [de clubes esportivos]”, o que também dificulta uma maior aceitação do futebol na sociedade.

 

O futuro do futebol feminino

Frente a tudo isso, quais são as perspectivas para o futebol feminino brasileiro?

É importante ressaltar que vários avanços já foram conquistados. Desde o mais básico, a revogação de uma lei que proibia a prática do esporte por mulheres, a ações mais inclusivas, entre elas, é possível citar a obrigatoriedade de clubes da Série A do Campeonato Brasileiro Masculino de Futebol a ter um time feminino e a realização, pela primeira vez, em 2019, de uma competição de futebol feminino de base (Sub-18) por parte da CBF, que ocorrerá em julho com 24 clubes.

Cortez, destaca que “só teremos um futebol feminino forte quando ele for praticado nas escolas, como acontece nos países de primeiro mundo”. Para ele, porém, “nossas escolas não oferecem condições para a prática esportiva nem para meninos e nem para meninas”, o que torna esse fortalecimento muito difícil.

Nesse sentido, a contribuição do time feminino brasileira é bastante positiva ao trazer maior visibilidade para o cenário do futebol feminino na atualidade, permitindo uma discussão, e a busca por soluções, dos diversos problemas que existem. Entretanto, Cortez observa que “esse efeito é efêmero, como foi das outras vezes. Precisaremos de tempo e investimentos na educação como um todo [para mudar o cenário]”. Resta ver se, agora, a mobilização social irá continuar e resultará em mudanças reais, e necessárias, para o futebol feminino brasileiro. 

Arquibancada
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