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Gauguin — Viagem ao Taiti com mistura atrapalhada entre realidade e ficção
CINÉFILOS
22 ago 2018 | Por Jornalismo Júnior

O filme Gauguin Viagem ao Taiti (Gauguin Voyage de Tahiti, 2018) é uma adaptação livre, feita pelo diretor Édouard Delux, do diário de viagem “Noa noa”. Sendo assim, ele narra acontecimentos vividos na Polinésia pelo pintor francês Paul Gauguin depois de ele ter abandonado sua família na França, romantizando alguns aspectos da empreitada.

Gauguin

[StudioCanal]

Esse tom de realidade é belo por mostrar os protagonistas como seres complexos, muito mais do que personagens maniqueístas. No entanto, incentiva a exibição de comportamentos considerados hoje machistas, eurocêntricos e imprudentes ao longo do filme, além de propiciar certa monotonia ao enredo.

Os responsáveis pela obra talvez tenham tentado eliminar a morosidade da história adicionando um toque de ficção, por exemplo, ao construir Tehura como a “Eva primitiva” do artista sua musa. A questão é que jovem de fato existiu, porém na obra ela representa um composto de muitos dos amantes dele, ou seja, uniu-se vários personagens em um só. Tudo isso na expectativa de se criar um romance. Nesse caso, a tentativa infelizmente falha, já que os personagens não parecem de fato envolvidos um com o outro. Gauguin vê a taitiana de forma objetificada, possessiva e colonizadora chamando-a, inclusive, de selvagem.

Gauguin

[StudioCanal]

Por outro lado, a produção decidiu, sem uma boa razão aparente, ocultar alguns fatos de certa forma importantes da vida do biografado. Dessa forma, não há nada no longa que indique que Paul se apaixonou por Tehura quando ela tinha apenas treze anos, enquanto ele já passava dos quarenta.

Obviamente, a postura do pintor no filme é condizente com o período histórico no qual ele viveu. Entretanto, o anacronismo de certos comportamentos causa no espectador certo incômodo. É provocado um tremendo choque durante a cena em que Gauguin encontra Tehura minutos depois de ser estuprada, não tomando nenhuma atitude e sequer se sensibilizando com a situação. Aliás, ele chega a ignorar tudo em prol de um registro da cena através de um desenho, pois aparentemente a musa se encontrava numa posição muito inspiradora e bela deitada de bruços.

É curioso como a ideologia do protagonista reflete até nos cenários. As paisagens paradisíacas da região embelezam a obra ao passo que mostram como o europeu via esses lugares. Para Gauguin, aquilo tudo era uma aventura em um lugar cheio de maravilhas naturais e selvagens, era uma oportunidade de mudança de vida. Mais interessante ainda é a forma como as cores utilizadas se encaixam com o filme, afinal, as colorações frias são predominantes ao passo que a história narrada é triste.

Assim, ao assistir a Gauguin Viagem ao Taiti, a beleza estética das cenas se revela inegável. Apesar disso, a adaptação do livro falha tanto ao tornar cansativa a trajetória do pintor, quanto ao representar sua personalidade com pouca exatidão.

O filme chega aos cinemas brasileiros no dia 23 de agosto, confira o trailer abaixo.

por Mayumi Yamasaki
mayumiyamasaki@usp.br

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