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Ginecologia natural: autonomia feminina a partir de saberes ancestrais
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02 dez 2020 | Por Luisa Costa (luisa.mc@usp.br)

Se você menstrua, é bem provável que já tenha se deparado com páginas nas redes sociais sobre a ginecologia natural. Também chamada de ginecologia autônoma, ela vem se popularizando entre as brasileiras nos últimos anos, mas ao contrário do que pode parecer pelo nome, não se trata de uma especialidade da ginecologia. É, na verdade, um grande movimento de resgate de conhecimentos ancestrais que promove a autonomia e o autoconhecimento das mulheres. 

Esse movimento teve início principalmente na América Latina e, há alguns anos, começou a chegar no Brasil, vindo de países como Chile, México, Peru, Argentina e Colômbia. Uma das pioneiras desse movimento foi a chilena Pabla San Martin, que, através de uma série de viagens pela América Latina, investigou a medicina dos povos tradicionais.

Em 2009, Pabla criou o Ginecosofia, um projeto de comunicação e produção de conteúdo independente, com o intuito de visibilizar as práticas das tradições femininas e latino-americanas de zonas rurais e campesinas referentes à saúde e à sexualidade femininas. Em 2018, o projeto ganhou um braço editorial no Brasil, “para fomentar a integração das mulheres latino-americanas e seus saberes culturais, ancestrais e tradicionais”. Foi assim que o livro escrito por Pabla, o “Manual de Ginecologia Natural”, fruto de mais de dez anos de pesquisa, chegou ao Brasil (e já fez grande sucesso). 

 

O que propõe a ginecologia natural?

O movimento é uma mudança na forma de enxergar e de lidar com a saúde íntima feminina. Ao tratar de possíveis desequilíbrios do corpo, por exemplo, a ginecologia natural não só identifica e trata os sintomas desse desequilíbrio, mas procura realizar uma observação e reflexão cuidadosas acerca do estilo de vida, da alimentação e do emocional da mulher para encontrar possíveis causas. É um olhar que se volta para corpo, mente e, até mesmo, para a espiritualidade.

A ginecologia natural promove a percepção e valorização da natureza cíclica das mulheres (através do ciclo menstrual) e utiliza uma série de práticas naturais, como chás, compressas, banhos de assento, limpezas uterinas e vaporização do útero. Segundo Fernanda Tresmondi, que faz uso da ginecologia natural e também orienta outras mulheres sobre o assunto, pode-se utilizar algumas plantas e ervas em forma de chá, por exemplo, para a amenização de alguns possíveis desconfortos em diferentes momentos do ciclo menstrual. Os chás podem ajudar a mulher a passar por estes momentos, sem a necessidade de medicamentos convencionais.

O chá de canela e o de artemísia, por exemplo, podem ser utilizados quando a menstruação está “presa”, quando a mulher fica dias com muita cólica e dor na lombar mas não menstrua. Por outro lado, o chá de mil-folhas, por exemplo, pode ajudar quando a mulher está com a menstruação muito abundante: cólica e fluxo muito intenso por vários dias. 

A vaporização do útero é outra das práticas mais conhecidas e utilizadas dentro da ginecologia natural. Nesse caso, coloca-se a erva em uma cumbuca de água quente, como para fazer um chá, e então utiliza-se o vapor, que, através da vulva, entra pelo colo do útero e também pelo tecido do canal vaginal. Segundo Christiane Silvério Frazatto, facilitadora em ginecologia natural (e explicou essa técnica para o Laboratório), esse vapor se condensa e flui com esses líquidos e, assim, faria uma limpeza e uma fortificação uterina. “O que muda é a atuação de uma erva pra outra, a quantidade de dias que você faz, qual a intenção, o que você quer tratar”, afirma Frazatto.

É importante destacar que, apesar de não serem cientificamente comprovadas, essas são práticas que demandam um conhecimento específico e envolvem uma técnica.  Então, é essencial estudar a respeito, ter uma orientação e estar em contato com alguém da área, principalmente em relação a técnicas como a da vaporização do útero, que, segundo Frazatto, é uma prática que pode ter bastante reflexo no campo “energético” da mulher. “A gente não quer tirar a autonomia da mulher, nem sua intuição, muito pelo contrário, mas quanto mais conhecimento, mais consciência a mulher tiver do que ela tá fazendo, mais empoderada ela estará”, afirma a facilitadora.

 

A autonomia e o autoconhecimento das mulheres

Segundo Cristiane Oliveira, que também utiliza e orienta outras mulheres sobre a ginecologia natural, todas essas técnicas usadas são ancestrais e têm o seu valor porque conectam as mulheres com essa ancestralidade. Oliveira é terapeuta do feminino, trabalhando com a ginecologia natural de maneira muito relacionada ao sagrado feminino: um movimento que promove o autoconhecimento através de um aspecto místico e ritualístico. Neste contexto, utiliza-se a ginecologia natural e suas práticas visando uma reconexão com a “força feminina” a partir do autoconhecimento e da ancestralidade. 

Ana Freitas conta que, com os conhecimentos e com a autonomia que obteve a partir de seus estudos sobre a ginecologia natural, hoje consegue tratar problemas corriqueiros como cólicas, corrimentos, dores de cabeça na tensão pré-menstrual (TPM), mas que já são menos recorrentes: “entendendo e respeitando meu ciclo, isso não acontece como antes”. 

Ela começou a se aproximar da ginecologia natural para tratar alguns problemas de saúde íntima, e, aparentemente, faz parte de um grande número de mulheres. Segundo Oliveira, a maioria das adeptas da ginecologia natural passou por um descontentamento com os remédios e tratamentos convencionais, que não davam conta dos problemas delas ou já não as satisfaziam, pois viam-se dependentes dos mesmos. Frazatto também destaca isso, e afirma que a recente popularização da ginecologia autônoma deve-se ao desejo de libertação das mulheres, sobretudo: “Eu sinto que a gente não tá se convencendo mais de que isso [o tratamento convencional, muito baseado em remédios químicos, hormônios e rápidas consultas ao ginecologista] é uma maneira da gente se cultivar”.

Oliveira também pontua que a popularização da ginecologia natural, bem como da discussão sobre cuidados da saúde íntima e sobre a sexualidade feminina no geral, é muito importante, já que estes são temas que a sociedade patriarcal transformou em tabu – mesmo sendo questão de saúde e qualidade de vida. Segundo ela, a prática vem conscientizando as mulheres de que elas podem (e devem) tirar um tempo para conhecerem a si mesmas, cuidarem de seus corpos e de sua saúde íntima, além de falarem sobre isso, o que é revolucionário.

E essa nova percepção do corpo é peça chave nas orientações da ginecologia natural. Frazatto explica que, nas instruções que fornece para outras mulheres, ela começa trabalhando esse ponto através da percepção do ciclo menstrual, que não estaria relacionado apenas ao nosso físico, mas seria parte de algo maior: a nossa própria natureza cíclica em si. A partir disso, a mulher poderia compreender seus ciclos como momentos em que lida com diferentes potenciais de si mesma, como também defende Tresmondi. Ela exemplifica: “tem um momento mais introspectivo da TPM e tem um momento mais criativo e mais associado à questão da ovulação, em que a nossa energia física e mesmo nossa disposição fica diferente.”

Frazatto conta que, de início, além de trabalhar a percepção do corpo, também conversa muito com a mulher que está orientando sobre sua relação com o sangue menstrual, que faz parte do grande tabu em torno da saúde sexual feminina. Historicamente, a sociedade patriarcal educou as mulheres a se sentirem sujas por estarem menstruadas, a sentirem nojo e vergonha de algo que é tão natural. Parte muito importante da “jornada” das mulheres na ginecologia natural é “fazer as pazes” com sua menstruação, com seus ciclos e com seu corpo, para que, além de alcançar autoconhecimento e autonomia, possam, também, olhar para si mesmas com mais carinho. 

Ela explica que depois disso, em suas orientações, começa a conversar com a mulher sobre métodos contraceptivos não hormonais – uma vez que a ginecologia natural acredita que o corpo feminino já tem hormônios por si só, e que a terapia hormonal, além de descaracterizar a variação natural ao longo do ciclo, pode acarretar em problemas mais sérios a longo prazo. Geralmente, essa questão é sucedida pela discussão e entendimento acerca de alguns desequilíbrios do corpo, como vaginites, miomas uterinos, endometriose, ovário policístico, sempre com o objetivo não só de tratá-los, quando é o caso, mas também de entender o que está por trás. 

A candidíase, por exemplo, é um desses desequilíbrios que pode ser causado por uma série de fatores relacionados à alimentação, ao emocional e ao estilo de vida. De acordo com Frazatto, a ginecologia natural estimula a mulher a perceber que o corpo não diz só por ele, mas também diz por uma questão mental que veio antes. Tendo consciência sobre isso, a mulher conquistaria uma autonomia que implica na responsabilidade de gerenciar a própria vida, cuidando de si mesma em diferentes esferas – de seu estilo de vida, de seu sono, sua alimentação, suas relações – para cuidar de sua saúde. 

Então, para discutir sobre tudo isso, quem atua profissionalmente com a ginecologia natural conversa com as mulheres de modo a conhecer o cotidiano e a história das mesmas. Segundo Oliveira “saber ouvir a mulher para poder entender o que se passa emocionalmente com ela” é muito importante, não só porque “muitas vezes as mulheres não são ouvidas”, mas para todo o processo de orientação que ela realiza. Só assim ela seria capaz de auxiliar a mulher no sentido de fazê-la refletir sobre como todo seu cotidiano impacta seu emocional e sua saúde. 

É importante destacar que a ginecologia natural procura promover um “olhar além” daquele promovido pela medicina e tratamentos convencionais, mas não é uma negação nem um total substituto dos mesmos. Tresmondi deu um exemplo: no caso de estar atendendo uma mulher que está com algum problema menstrual e não encontrarem um tratamento adequado ou perceberem que é um problema que precisa ser mais bem investigado, ela orienta que a mulher faça alguns exames. “Uma coisa tem que andar junto com outra”.

Portanto, é uma questão de valorizar e dar preferência aos tratamentos naturais e saberes femininos ancestrais. E apoiado nisso, esse grande movimento promove não só um retorno ao natural, mas rejeita os históricos tabus ligados à saúde e à sexualidade feminina e incentiva as mulheres a aceitarem e entenderem seu próprio corpo. Assim, a partir do autoconhecimento e do autocuidado, elas podem alcançar a autonomia e o empoderamento – e olhar com mais amor para si próprias.

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