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Guerreiros da Floresta: o retrato de 3 povos que trocaram os arcos pela arma da comunicação
Controle Remoto
28 abr 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Victor Aguiar

victoraguiarferreira@usp.br

“A gente tem que mostrar que a cultura tá aqui, tá viva.” A frase do líder indígena Ninawa Inu Huni Kui, da tribo dos Huni Kuin, consegue ilustrar, da forma mais breve possível, o objetivo de Guerreiros da Floresta”. Produzida pela TV Futura em parceria com a produtora Santa Rita Filmes, a série possui 13 episódios, cada um com 25 minutos de duração. Como proposta, busca mostrar, de forma humanizadora, a vivência e algumas das dificuldades enfrentadas por três diferentes povos indígenas da região Norte do país: os já mencionados Huni Kuin, distribuídos entre 22 aldeias no interior do Acre; os Paiter Suruí, localizados no interior de Rondônia; e os Yanomami, detentores de uma das maiores populações originárias restantes no país e habitantes do interior de Roraima, em região de fronteira com a Venezuela.

Ao entrar nesse universo, a atenção de quem assiste já é captada, desde o começo do primeiro episódio, pela elevada qualidade estética e de produção do programa. Este traz ao espectador imagens belíssimas da Floresta Amazônica e dos povos apresentados, feitas de forma inovadora pelo uso de drones e outras tecnologias. O resultado final é um “tempero” visual que, se não essencial, adiciona muito ao conteúdo apresentado.

[Créditos: Henrique Mourão e Magno Gomes]

Além disso, outro elemento relativo à produção do programa que se destaca é a não interferência de seus produtores. Em momento nenhum, vê-se a cara de quem está por trás das câmeras ou ouvem-se as perguntas possivelmente (haja vista a fluidez com que os relatos são dados) feitas aos entrevistados. Esse formato acaba por dar protagonismo aos próprios indígenas, deixando que eles mesmos falem a respeito de suas tradições, dos dilemas vividos e apresentando, de forma quase que pessoal, sua vivência. Ao contrário de outros programas que, ao dar o palanque para o homem branco, acabam por gerar um caráter circense de “entretenimento exótico”, a dinâmica utilizada por “Guerreiros da Floresta” humaniza as populações retratadas. Populações essas que, nas palavras de Ninawa, líder dos Huni Kuin, por muito tempo sentiam-se “estrangeiras na própria casa”.

Essa mesma dinâmica humanizadora nos leva ao principal objetivo da série: mostrar, para as pessoas de fora, a vida nas aldeias e os esforços empregados para a sobrevivência desses povos e de suas tradições. Tal processo é executado de forma a gerar a empatia necessária para que a população em geral crie consciência a respeito do desmantelamento das já enfraquecidas estruturas de proteção aos indígenas. Para o líder Almir Suruí, as maiores armas dos povos originários hoje são exatamente o diálogo e a comunicação, elementos que a série valoriza e busca desenvolver.

[Créditos: Henrique Mourão e Magno Gomes]

Os relatos, em si, são arrebatadores. Já nos dois primeiros episódios, Ninawa nos conta a história de seu povo. Ao terem suas terras invadidas por mais de 100 mil seringueiros em 1913, os Huni Kuin foram escravizados por vários anos. Além disso, passaram a sofrer com novas doenças e problemas internos, como o uso de bebidas alcoólicas e a prostituição entre jovens indígenas. Os reflexos desse período obscuro são observados ainda hoje, existindo anciões marcados a ferro por seus ex-patrões. Outra herança são os próprios nomes dos membros da aldeia, que são registrados com os sobrenomes de antigos patrões, como “Pereira” ou “Nunes”. Esses dois nomes, em especial, foram parte do registro de Ninawa até ele conseguir, na Justiça do Acre, o direito de usar seu nome originário. Foi o primeiro caso desse tipo de reversão de nome no Brasil.

Entre os Paiter Suruí, a situação também é grave: diante de um cenário de forte agressão ambiental em função da atividade agrícola predatória da região, os líderes desse povo se viram obrigados a tomar alguma atitude. Dessa forma, foi formulado um plano de 50 anos, com foco em uma gestão de desenvolvimento socioambiental, que combatesse os danos causados pela exploração desordenada. Com a assistência de várias tecnologias e diversas parcerias (até com o Google), os Suruí têm conseguido gerar renda através de uma produção agroecológica orgânica, além de promover o reflorestamento de áreas devastadas e controlar a ação de madeireiros ilegais.

Para os Yanomami, um dos principais alvos do discurso antidemarcações que tem como expoente o presidente Jair Bolsonaro, a missão também é a de combater a ação dos agentes externos apresentados. Vítimas históricas da influência do homem branco, viram sua cultura perder espaço entre as últimas gerações, e agora buscam uma retomada através não só de festas, eventos extremamente importantes para os Yanomamis, mas também pelo registro escrito. Na série, o xamã Davi Kopenawa dá como exemplo, entre muitos outros, uma obra de sua própria autoria: “A Queda do Céu”, um testemunho autobiográfico e manifesto contra a destruição da Floresta Amazônica.

[Créditos: Henrique Mourão e Magno Gomes]

Apesar da distância física entre esses três povos, seus relatos se entrelaçam em diversos pontos, uma vez que referem-se a problemáticas comuns a várias tribos: o discurso de fim das demarcações, a invasão dos territórios já demarcados, a expansão do desmatamento para dentro das florestas, a mudança climática gerada por esses danos – também abordada na série –, a deterioração da saúde indígena em função da presença do homem branco, o preconceito enfrentado ainda hoje por essas populações; enfim, a luta pela sobrevivência de suas ricas culturas.

Dentro do contexto em que vivemos, produções como essa são extremamente importantes para enaltecer a necessidade da preservação dos patrimônios nacionais  natural e cultural, bem como da defesa de populações que se encontram ameaçadas. Representantes do poder político como Bolsonaro ou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não por acaso se omitem a respeito desse lado da história, e conhecer as dificuldades enfrentadas por diferentes povos é essencial não só pelas razões já citadas, mas também pelas reflexões que podem ser feitas a partir desses relatos em relação a nossos valores e práticas. Portanto, não há público específico para “Guerreiros da Floresta”, e é possível aprender muita coisa dentro de cada episódio, fazendo valer cada um dos 25 minutos.

O Sala33 também cobriu a coletiva de imprensa deste seriado, acesse o texto aqui.

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