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Há dez anos, o Bordeaux encerrou a maior dinastia do futebol francês
ARQUIBANCADA
30 maio 2019 | Por Arthur Nascimento (arthur.gm.nascimento@usp.br)

Ao longo da história, algumas equipes pareceram imbatíveis em seu país. Mesmo que esses times perdessem uma partida, um jogador ou mesmo o treinador, eles se recuperavam e conquistavam o que desejavam. E assim foi com o Lyon entre os anos de 2001 e 2008. O clube conquistou sete campeonatos franceses nesse período e assombrou o país, estabelecendo uma nova monarquia no país das revoluções, mas dessa vez no esporte.

Entretanto, a história dessa pátria mostra que não há domínio sem que alguém tente alterar essa ordem. Ao longo das temporadas, clubes como Monaco, Paris Saint-Germain e Lens se aproximaram, mas não alcançaram o intocável Lyon. Quando parecia não haver adversário algum pelo posto de grande time da França, surgiu um novo desafiante: o Girondins de Bordeaux.

Os postulantes a revolucionários realizaram sua ação da maneira que os girondinos, presentes no nome do clube, acreditavam: em um processo gradual e não-radical. O time apresentou melhora temporada a temporada, começando a incomodar a dinastia de Lyon na edição 2007/08 da Ligue 1 com um vice-campeonato.

Porém, os girondinos buscavam mais. E a data da consagração ocorreu há exatamente dez anos, em 30 de maio de 2009. Os craques lionenses foram depostos. A França passou a ser de Ramé, Trémoulinas, Wendel, Cavenaghi, Chamakh, do craque Gourcuff, do comandante Laurent Blanc e de todos aqueles que participaram do sexto campeonato francês do Bordeaux. O título que encerrou um domínio que não parecia ter fim.

 

O reinado de Lyon

Antes de se tornar um time insuperável em âmbito nacional, torcer para o Lyon não era certeza de grandes alegrias. Até o ano de 2001, a equipe havia conquistado somente três Copas da França, uma Copa da Liga Francesa, uma Supercopa da França e uma Copa Intertoto. Porém, o cenário se modificou quando o clube contratou o jogador que viria a ser o maior de sua história: Juninho Pernambucano.

O brasileiro, que já havia vencido quase tudo que podia pelo Vasco, se transferiu sem custos para o clube francês na metade de 2001, após imbróglio judicial com a equipe carioca. Jogador conhecido pelas incríveis cobranças de falta, por uma qualidade apurada no passe e na construção de jogo, o meio-campista logo se tornou ídolo em Lyon.

Acompanhado de outros brasileiros, como Edmílson e Sonny Anderson, Juninho passou a empilhar títulos já em sua primeira temporada na França. Conquistou sete títulos consecutivos da Ligue 1 entre 2001/02 e 2007/08, além de uma Copa e seis Supercopas da França. Mesmo com as diversas trocas de jogadores, e até de treinadores, nesse período, o presidente Jean-Michel Aulas realizou excelentes contratações que mantiveram o nível da equipe, como Cris, Essien e Fred, além de recuperar o investimento nas categorias de base com a revelação de craques como Benzema. Assim, a organização administrativa do Lyon mostrou-se peça chave para o sucesso da maior dinastia na história do Campeonato Francês.

Uma cena que se repetiu muitas vezes nos anos 2000 – Lyon campeão da Ligue 1 [Imagem: Icon Sport/Getty Images]

Porém, mesmo o melhor dos planejamentos não permaneceria intocável no topo para sempre. Apesar de manter a base vencedora para a temporada 2008/09, a equipe não se adaptou ao comando do novo treinador, Claude Puel, e também sentiu a ausência do goleiro Coupet, titular em todas as conquistas, que foi negociado com o Atlético de Madrid. Assim, o Lyon enfim não venceu a Ligue 1 e viu o Bordeaux, time que o desafiava desde a temporada anterior, encerrar a maior dinastia do futebol francês e marcar seu nome na história do futebol.

 

Os preparativos para encerrar o reinado

O Bordeaux já havia alcançado o que durante a dinastia de Lyon era um feito: ser vice-campeão francês. Na temporada 2005/06, o clube alcançou o segundo lugar na Ligue 1, mas não incomodou o time de Juninho Pernambucano, que terminou a liga quinze pontos à frente do Bordeaux.

Os girondinos, no entanto, não se contentaram com esse feito e, após a temporada 2006/07 render um decepcionante sexto lugar, o presidente Jean-Louis Triaud realizou uma troca no comando da equipe, demitindo o brasileiro Ricardo Gomes e contratando um ídolo nacional: o ex-zagueiro Laurent Blanc.

Em entrevista ao Arquibancada, o meio-campista Wendel, campeão francês pelo Bordeaux e detentor de diversas conquistas no futebol brasileiro, faz questão de enfatizar o trabalho do antigo treinador. Para ele, “Ricardo Gomes foi fundamental porque praticamente montou a espinha dorsal da equipe que mais tarde se tornaria campeã da França”. O jogador também ressalta o papel que Blanc teria no futuro, afirmando que sua ideia de jogo e a forma de montar a equipe foram fundamentais para o feito posterior, ocorrido no ano que o Wendel considera seu melhor ano como atleta profissional.

Blanc, de fato, trabalhou com a mesma base da temporada anterior e obteve um bom resultado: novamente o segundo lugar, porém, dessa vez incomodou  o Lyon ficando somente quatro pontos atrás do campeão. O hegemônico vencedor francês notou que agora havia um rival capaz de ao menos dar trabalho. Enquanto isso, o desafiante percebeu que precisava de um jogador decisivo para liderar essa revolução e que, ao mesmo tempo, substituísse o meia Johan Micoud, aposentado ao fim dessa temporada.

O responsável por ser o cérebro da equipe foi adquirido por empréstimo junto ao Milan. O francês Yoann Gourcuff foi contratado pelo Bordeaux e recebeu a camisa 8, a mesma de Juninho Pernambucano no Lyon. O meio-campista francês vivia altos e baixos na equipe milanista e, por isso, foi emprestado com cláusula de compra de 15 milhões de euros. Apesar da inconstância, Blanc confiou no potencial do jovem de 22 anos, um jogador decisivo que chegou até mesmo a ser comparado com Zinedine Zidane, craque francês com passagem pelo Bordeaux, por seu estilo de jogo refinado.

Após a contratação do camisa 8, o Bordeaux estava pronto para desafiar o Lyon e realizar uma verdadeira revolução na ordem do futebol local. O time contava com segurança debaixo das traves, uma defesa sólida, força no meio-campo e precisão no ataque. Sobre o elenco, Wendel afirma que “Todos foram importantes, desde o goleiro reserva até o maior destaque naquele campeonato (Gourcuff). Sem o coletivo não seria possível fazer a excelente temporada que fizemos”. Porém, como todo processo que altera o cotidiano, empecilhos foram encontrados e o título quase parou nas mãos de outras equipes.

 

Um começo inconstante

O Bordeaux chegou à Ligue 1 como favorito para desbancar o Lyon, mas o início não inspirou tamanha confiança. Nas quatro primeiras rodadas, o time ganhou os dois jogos que disputou em seu estádio, mas saiu derrotado nos dois confrontos fora de casa contra Lille e Paris Saint-Germain. Após empate na quinta rodada, contra o Olympique de Marseille, o time estava no décimo lugar, pior colocação em que se encontrou durante o campeonato.

Nos seis jogos seguintes, o Bordeaux permaneceu invicto, com quatro vitórias e dois empates. Cavenaghi era o destaque até então – artilheiro da equipe com seis gols nos onze jogos – e Gourcuff já havia assumido papel de destaque. Essa boa sequência levou o clube à vice-liderança, porém, a inconstância retornou. Uma única vitória nos cinco jogos seguintes derrubou o Bordeaux para a quinta posição no mesmo momento em que a equipe francesa era eliminada na fase de grupos da Champions League – em que enfrentou Chelsea, Roma e Cluj.

O time, no entanto, se recuperou da má fase e venceu as últimas três partidas do primeiro turno e terminou o ano de 2008 com a segunda posição. Cavenaghi, novamente, foi importante, marcando gols nos três jogos e, junto com Chamakh, formava uma dupla de ataque fatal. O bom momento permaneceu no início do segundo turno, que se iniciou com uma sonora goleada de 4 a 0 sobre o Paris Saint-Germain e vitória apertada sobre o Nantes por 2 a 1. Porém, com uma vitória e três empates nas seis partidas seguintes, o time despencou novamente para a quinta colocação.

Os comandados de Laurent Blanc ainda não haviam atingido o pleno potencial, pois mesmo com bom futebol, a certa inconstância nos resultados tirava desse grande time a condição de favorito. Porém, apesar do quinto lugar na 27ª rodada, a distância de seis pontos para o líder não era o suficiente para acabar com as esperanças de título do Bordeaux, mesmo que o líder da Ligue 1 fosse ninguém menos que o mesmo das últimas sete temporadas: o Lyon. Somente um ato heroico e grandioso poderia colocar alguém à frente do time lionense. E foi o que aconteceu nas onze rodadas finais do Campeonato Francês.

 

A sequência final

O ápice da epopeia vivenciada pela equipe de Bordeaux começou no Stade Chaban-Delmas, a casa do time, em vitória por 2 a 1 sobre o Nice. Vitórias nesse estádio não se mostravam um problema para os girondinos, já que, apesar de certa inconstância até a 27ª rodada, esses problemas sempre se deram fora de casa. Até esse momento, a equipe havia vencido oito e empatado cinco partidas no estádio, e permaneceria invicta nesse lugar até o fim dessa temporada da Ligue 1. Sobre esse retrospecto, Wendel lembra que “diante do nosso torcedor, era impossível sermos batidos”.

Contudo, se o time desejasse de fato acabar com o reinado de Lyon, precisava melhorar seu desempenho como visitante. E foi isso o que aconteceu. O Bordeaux deu continuidade à arrancada com uma convincente vitória fora de casa por 3 a 0 sobre o Le Havre, subindo uma posição em cada um dos triunfos, ultrapassando Toulouse e Paris Saint-Germain. Na terceira colocação, o time estava de volta à disputa pelo título.

Nas duas rodadas seguintes, vitórias tranquilas, sem sofrer gols, diante de Nancy e Auxerre foram importantes para dar moral aos girondinos, que teriam em seu próximo confronto o mais difícil até o fim da Ligue 1. Esse duelo era contra o próprio rei, o temido Lyon. Uma vitória do Bordeaux significava ultrapassar o adversário e intensificar a disputa pelo título com o Olympique de Marseille, então primeiro colocado. A derrota culminava em uma desvantagem de cinco pontos em relação aos marselheses e quatro diante do próprio Lyon. Por isso, Laurent Blanc sabia que a partida era fundamental.

Em um jogo de tal magnitude, o Bordeaux precisava de uma atuação sólida para bater a equipe de Juninho Pernambucano e Benzema. E foi o que ocorreu no Stade Chaban-Delmas. Mesmo com o domínio de posse de bola do Lyon, os girondinos foram eficientes e seguros. Eficientes para aproveitar uma das poucas chances concedidas, com Alou Diarra empurrando para dentro do gol após rebote de chute na trave. E seguros para impedir o rei de responder àquele que ousa destroná-lo, permitindo somente um chute ao alvo por parte dos visitantes. E assim, o jogo se encerrou no placar de 1 a 0. Bordeaux ultrapassa o Lyon e está mais vivo do que nunca na tentativa de acabar com a dinastia.

 

Jogo duro entre Bordeaux e Lyon – melhor para os desafiantes [Imagem: AFP/Getty Images]

Após o triunfo, o Bordeaux precisava manter o ritmo para não dar nova chance ao esquadrão lionense e para alcançar o Olympique de Marseille. Porém, já na partida seguinte, tudo parecia ruir. Em confronto fora de casa contra o Stade Rennais, os mandantes saíram na frente e o zagueiro girondino Marc Planus foi expulso.

Mesmo com tais adversidades, o Bordeaux empatou com Gouffran, e Gourcuff traduziu seu protagonismo em gols marcando de falta o gol da virada. O Stade Rennais marcou e o jogo ficou empatado novamente até os 48 minutos do segundo tempo, quando Gourcuff aproveitou raro espaço e bateu de fora da área, fazendo um golaço que deu a vitória ao clube. 3 a 2 e o Bordeaux se manteve na luta. Sobre essa partida, Wendel afirma “sentíamos que era possível conquistar o título após esse jogo”, caracterizando-o como o mais marcante da campanha.

Sem tanta emoção quanto no último jogo, os girondinos venceram o Sochaux por 3 a 0 e empataram em pontos com o Olympique de Marseille. A igualdade na pontuação se manteve após uma vitória apertada do Bordeaux diante do Valenciennes, com novo gol decisivo de Gourcuff. Faltando duas rodadas para o fim da Ligue 1, o Lyon estava fora da disputa pelo título, sentindo o peso da derrota para o time de Laurent Blanc, enquanto os marselheses tropeçavam. Os girondinos mantiveram a consistência e finalmente alcançaram a liderança. Agora só dependiam de si para conquistar o título e encerrar a maior dinastia da história da França.

E o Bordeaux cumpriu seu dever. Chamakh e Gouffran garantiram vitórias de 1 a 0 sobre Monaco e Caen nas últimas duas partidas, a última há exatamente dez anos, em 30 de abril de 2009. Os triunfos finais do Olympique não foram suficientes para impedir o título dos girondinos. A sexta conquista de campeonato nacional e, certamente, um dos capítulos mais emblemáticos da história do clube.

Yoann Gourcuff e Laurent Blanc após vencer a Ligue 1 – ídolos históricos do Bordeaux [Imagem: Franck Faugere/FLASH PRESS]

Uma conquista para a eternidade

Talvez o Bordeaux da temporada 2008/09 não seja mais técnico que o time vencedor de cinco taças em quatro temporadas na década de 1980. Porém, o esquadrão formado por Laurent Blanc se eternizou na história do futebol francês como o único time a bater o Lyon de Juninho Pernambucano. O nível atingido pela equipe, especialmente nas últimas onze rodadas da Ligue 1, foi capaz de superar dinastias, vencer jogos heroicos e ser imbatível na própria casa, tudo isso com muita técnica, aplicação tática, bom aproveitamento e Gourcuff jogando em alto nível, sendo eleito o melhor jogador do campeonato.

A temporada do camisa 8 de fato chamou atenção do mundo todo no cenário futebolístico. Ele chegou a ser titular da seleção francesa na Copa do Mundo de 2010, mas o caos no elenco impediu seu bom futebol de aparecer. Após a Copa, o meio-campista foi contratado pelo Lyon com a dura missão de substituir Juninho Pernambucano, mas nunca atingiu o mesmo nível em que esteve com a camisa girondina. Hoje, ele é reserva no Dijon.

Sobre Gourcuff, Wendel elogia: “é um excelente atleta e também um ser humano espetacular. Foi fundamental e realizou, eu diria, seu melhor ano como atleta profissional (na temporada 2008/09). Infelizmente sofreu várias lesões que o prejudicaram muito na sua performance individual durante os anos seguintes”.

O Bordeaux teve mais uma temporada sob o comando de Blanc, mas não obteve tanto sucesso quanto no épico título. O clube terminou em sexto lugar na Ligue 1, caiu nas oitavas de final da Copa da França e foi vice-campeão da Copa da Liga Francesa, mas teve como grande destaque chegar entre os oito melhores clubes da Europa. Nas quartas de final da Liga dos Campeões, os girondinos enfrentaram o Lyon que, mesmo sem Juninho e Benzema, mostrou sua força coletiva e venceu o confronto. Depois disso, o único título conquistado pelo Bordeaux foi a Copa da França na temporada 2012/13.

A conquista do Bordeaux trouxe, por determinado período de tempo, igualdade ao futebol francês. Nas três temporadas seguintes, houveram três campeões diferentes: o Olympique de Marseille, clube que bateu na trave no ano da conquista girondina, o Lille e o surpreendente Montpellier. Após essa sequência, o que se viu foi um domínio similar ao do Lyon por parte do Paris Saint-Germain, que foi tetracampeão entre 2012/13 e 2015/16 e bicampeão nas últimas duas temporadas. Somente o Monaco de Mbappé e Bernardo Silva foi capaz de interromper o empilhamento de taças da Ligue 1 pelos parisienses, realizando feito similar ao do Bordeaux, pois bateu um gigante francês e venceu as últimas doze partidas de maneira consecutiva.

Por tudo isso, o time de Ramé, Diawara, Trémoulinas, Diarra, Wendel, Cavenaghi, Gouffran, Chamakh e do craque Gourcuff se eternizou na história do futebol. Afinal, vencer um título francês é algo que poucos times alcançam. Encerrar a maior dinastia de todos os tempos no campeonato nacional, somente o Bordeaux de 2008/09 foi capaz.

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