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Hackathons e uma nova forma de pensar democracia
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01 out 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Caroline Aragaki (carolaragaki@usp.br)

Hackathon na Câmara Municipal de São Paulo. Foto: Reprodução – Lúcio Bernardo JR/Câmara dos Deputados

Que as novas tecnologias impactam nossa vida particular, a gente já sabia; e no campo do setor público? Nem só do setor privado vive o Hackathon. Essa onda de suar – e usar – o cérebro já está inserida em governos e parlamentos de vários países, inclusive no Brasil.

Hackathons?

O termo hackathon, derivado de hack e marathon, é uma “maratona hacker” que surgiu no Canadá com um grupo de desenvolvedores de softwares, em 1999 – portanto, há quase vinte anos.  Espera aí, hackers?! Respira. Não precisa ter medo. Hackers não são pessoas malignas que roubam seus dados ou derrubam algum site legal da internet – ao menos, não sempre! A origem do conceito, na realidade, advém do verbo to hack: programar. Um hacker é alguém que se dedica intensamente a alguma área específica da computação e se torna capaz de descobrir utilidades além das previstas.

De acordo com Matheus Pereira Gomes Moraes, autor da monografia HACKATHONS: um estudo das iniciativas promovidas pelo setor público brasileiro, “os hackathons não foram criados, mas foram tomando forma ao longo dos anos”. Os eventos apresentam inspiração nas chamadas local area networks (LAN) parties, festas em que apreciadores e entusiastas de computadores se reuniam para exibirem suas modificações nos aparelhos eletrônicos.

As principais características de hackathons são: organização dos participantes em pequenos grupos; curto espaço de tempo que leva o projeto de apenas um conceito a um protótipo; um local comum em que as equipes participantes se reúnem, trabalham e dividem recursos; e suporte pelos organizadores aos participantes. Essa é a conceituação de Miguel Lara, professor assistente da Universidade Estadual da Califórnia.

No setor público

Os hackathons, no setor estatal, têm o objetivo de “propor soluções digitais de interesse público, que beneficie a todos os cidadãos”, afirma Josivânia Silva Farias, professora de Administração da Universidade de Brasília (Unb) com ênfase em Serviços (Públicos e Privados) e Inovação. “E as chamadas para esses eventos são feitas por meio de edital público. Trata-se de um concurso, cujos prêmios variam de financeiros a não financeiros.”

O primeiro hackathon organizado pelo setor público brasileiro ocorreu em 2012, sendo uma parceria entre a Câmara Municipal de São Paulo, Open Knowledge Foundation Brasil e W3C Brasil. “Hackathon Dados Abertos”, como o próprio nome já informa, tinha o objetivo de tornar a visualização e a interpretação dos Dados Abertos mais fácil, a partir da criação de aplicativos que aumentassem a transparência dos serviços públicos.

Dessa iniciativa, surgiram soluções como o projeto vencedor, o Siga os Vereadores de São Paulo, que ficou ativo durante as eleições de 2016, tendo dados oficiais oferecidos pela Justiça Eleitoral. Também foi criado o Radar Parlamentar, uma ferramenta para análise partidária das casas legislativas atualizada até hoje.

Farias afirma que “as principais soluções propostas por participantes de hackathons, quando promovidos pelo setor público, dizem respeito à temática de transparência, o que engloba as áreas de combate à corrupção e também os dados abertos”. Isso ocorre, pois “são iniciativas de citizen-sourcing para inovação aberta no setor público”.

A inovação aberta corresponde à abertura de uma organização ou órgão público às ideias e conhecimentos externos, enquanto o citizen-sourcing diz respeito à busca por ideias que venham dos cidadãos. “Sendo assim, um hackathon é uma forma de concurso que viabiliza o emprego dessa estratégia para inovar – inovar a partir da absorção de conhecimento externo”, completa Farias.

Democracia?

Para Moraes, “os hackathons no âmbito do setor público auxiliam numa construção de democracia mais participativa.” Isto porque o governo, ao propor uma área tema que precisa de soluções e promover abertura ao cidadão, busca conhecer os problemas vivenciados pelos cidadãos em seu cotidiano. “Hackathons são capazes de oferecer alternativas que condizem com a realidade do cidadão.”

Do ponto de vista de Farias, “evidentemente, quando falamos em hackathons, estamos nos referindo à participação de um tipo específico de cidadão, que é expert em tecnologias da informação: um sujeito peculiar, especialista, com conhecimento elevado em tecnologias”. Mesmo assim, trata-se de um sujeito que faz parte da sociedade e que muitas vezes não é motivado a participar de hackathons por causa de recompensas financeiras. Pelo contrário, “a maioria participa por causa de recompensas que variam da busca por reconhecimento de seu trabalho, ao aprendizado, ao altruísmo, à diversão e às questões de ideologia”.

Entretanto, ela complementa que “qualquer tipo de mecanismo que coloque o cidadão nas discussões e buscas por soluções para os problemas públicos é um fortalecimento da democracia. O hackathon é uma dessas formas”. A atual sociedade, em grande parte, pertence ao grupo de natos-digitais. Portanto, “criar mecanismos de captação de suas ideias e seu conhecimento é visto como algo salutar em uma democracia frágil e em desenvolvimento como a nossa”.

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