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A popularidade do Handebol nos países nórdicos

Morten Soubak analisa a relação entre o cenário esportivo e social da Escandinávia

ARQUIBANCADA
17 ago 2021 | Por Rafael Canetti (rafaelcanetti@usp.br)

Vikings, Thor, frio e qualidade de vida. São as palavras no imaginário do brasileiro ao pensar os países nórdicos — Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia e Islândia. Mas um fator muitas vezes desconhecido também caracteriza essas sociedades: a relação delas com o handebol.

Jogo de handebol na Dinamarca

Jogo de handebol na Dinamarca [Imagem: Flickr/Guillaume Bavière]


O panorama nos países nórdicos 

Nos últimos 30 anos, os resultados do handebol nos países nórdicos mostram que eles estão dominando as modalidades do masculino e feminino. Isso se expressa nos dados do ranking mundial da Federação Internacional de Handebol (IHF), esse junta o resultado das duas modalidades: das onze melhores seleções, três são nórdicas — Dinamarca em 3º, Suécia em 5º, e Noruega em 11º.

Analisando os campeonatos mundiais, a seleção norueguesa é a maior medalhista no feminino e a sueca,  no masculino. Ainda no masculino, dos 27 mundiais que já foram realizados, em somente quatro nenhum país nórdico figurou entre os semifinalistas. Atualmente, a Dinamarca é bicampeã mundial do masculino, com ambas as finais envolvendo um rival nórdico: em 2019, derrotou a Noruega, e em 2021, a Suécia.

Mundial de Handebol 2019

Seleção dinamarquesa levantando a taça do mundial de 2019 [Imagem: Twitter/IHF]

 Para Morten Soubak, dinamarquês e antigo treinador da melhor geração de handebol nacional, o sucesso esportivo gera a magnitude e o engajamento social que o esporte possui na Escandinávia.

Vencer alguma competição significa ganhar visibilidade e marketing. Ambas consolidam a popularidade desse esporte com dinheiro e engajamento social. O engajamento se expressa nos ginásios frequentemente lotados e na ampla cobertura midiática. “Nos países nórdicos, eu vou conseguir assistir entre 10 a 15 jogos ao vivo pela televisão por semana, tem até programa ao vivo”, aponta Morten.

Já o dinheiro recebido resulta em ligas amplamente atrativas e competitivas. Nelas, a contratação de grandes atletas gera um estímulo à prática de handebol para a população.

A grande competitividade existente nesse ambiente desperta uma rivalidade entre os países escandinavos. No entanto, Morten explica que essa animosidade acontece em uma escala bem diferente do contexto latino-americano: “Se a Suécia vai jogar hoje no handebol, vôlei ou futebol e não é contra a Dinamarca, eu vou torcer para a Suécia, e se a Noruega vai jogar contra qualquer um, eu vou torcer para a Noruega, então também tem isso. Mas quando é entre nós, aí entra a rivalidade”.

Além do apoio financeiro e do engajamento nas seleções, outros fatores explicam a magnitude do handebol nos países nórdicos, como o clima e a cultura local.

Nos países da Escandinávia, há um favorecimento da condição geográfica e climática. “O handebol é um esporte de inverno, o inverno no país nórdico não é tão legal, está frio, está nevando, então obviamente a gente vai ficar dentro do ginásio”, Morten relata. Pela proximidade ao Círculo Polar Ártico, o inverno é longo e costuma apresentar temperaturas abaixo dos -15ºC. Mesmo no verão, que costuma ser mais curto, as médias climáticas não costumam passar dos 15ºC.

A condição de vida em um país de primeiro mundo alimenta a prática esportiva. Com exceção da Finlândia, todos os outros ocupam as onze primeiras posições do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). As escolas fomentam a prática esportiva, mas é necessário ir além desses ambientes:  “O esporte não é feito através das escolas. As escolas são a formação das crianças, mas se você quer  melhorar e aprofundar um pouco mais o esporte você precisa procurar um clube”, ressalta o treinador.

O aspecto cultural sustenta os clubes, reduzindo a dependência financeira. Morten explica que toda a comunidade atua dentro do esporte para desenvolvê-lo: ”Os clubes nórdicos trabalham em cima de trabalho voluntário, são poucas pessoas que recebem dinheiro para trabalhar nos clubes, os técnicos são quem lavam as roupas, quem leva as crianças para jogar é o carro da mãe ou do pai, não é da prefeitura, não é do clube”.

Condição do handebol nos países nórdicos e no Brasil.

Em relação ao Brasil, os nórdicos tendem a praticar mais de um esporte, pois como já disse Morten, as pessoas têm mais condição de acessar clubes multiesportivos. No Brasil, além do fator financeiro, existem problemas nas infraestruturas para a atividade física. Até mesmo o antigo técnico da seleção feminina brasileira já vivenciou algumas dessas adversidades: “Buracos com 15 centímetros no cimento no ginásio, eu acho que a seleção da Dinamarca não passa por isso. O ginásio que cai água, cai a chuva diretamente e vira uma piscina para treinar a seleção olímpica. Também acho que não acontece na Alemanha,  na Holanda ou na França”.

“As condições de vários lugares, era o que tinha, o que foi oferecido, mas eu penso muito mais nos lugares do Brasil inteiro que podia ser melhor, que podia ser outra coisa. Não precisa ser cimentado, porque acaba com os joelhos depois de anos, mas podia ser diferente”, relata Morten.

O cenário nacional é oposto ao nórdico. Aqui falta tratamento e investimentos nos esportes de alto rendimento. Mesmo diante dessa condição, o handebol profissional nacional sobrevive em grande parte ao custo dos seus talentos individuais. Além de conquistar um mundial, em 2013, com o próprio Morten. Existem diversos destaques atuando no principal polo competitivo do handebol, a Europa. Uma delas é Duda Amorim, eleita em uma votação popular como a melhor jogadora de handebol da década.

O período de preparação para os Jogos Olímpicos no Rio coincidiu com os melhores resultados do handebol nacional.  Antecedendo a Olimpíada  de 2016, o Brasil foi campeão masculino e feminino dos jogos Pan-americanos, em 2015. Morten comandou as duas melhores colocações em mundial da história do nosso handebol,  1º em 2013 e 5º em 2011.

Seleção feminina desembarcando no Brasil após a conquista do mundial de 2013 [Imagem: Marcelo camargo/ Agência Brasil]

Isso não é por acaso, pois, nessa época, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) conseguia dar uma ampla assistência a esse esporte. Após o final da Olimpíada de 2016, o esporte no Brasil passa por um período de sucateamento.

Em 2019, foi extinguido o Ministério do Esporte. A renda e o incentivo da prática esportiva diminuíram. O programa Bolsa Atleta sofre de problemas orçamentários desde o governo de Michel Temer. Tudo isso, aliado aos problemas de infraestrutura básica, as crises econômicas e a escassez de patrocínio, mostra a dificuldade de se viver profissionalmente de um esporte no Brasil.

Sobre o cenário do handebol nacional atual em relação ao seu período como técnico, Morten diz: “Acho que teve mais reconhecimento, mas eu vejo hoje os times que jogam a liga, e talvez piorou. Isso tem a ver com todo mundo, não adianta por dedo e apontar uma ou outra instituição. Eu acredito que todo mundo é culpado, falta tratamento com esporte”.

Se o estado de São Paulo tem população maior que a soma dos países nórdicos, o nosso desempenho no handebol e até mesmo nas medalhas olimpíadas deixam a desejar, isso aponta muitos problemas da sociedade brasileira e no cuidado que as pessoas têm com o esporte.

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COMENTÁRIOS
Guilherme Naoki Takabatake
Reportagem fantástica! Realmente é impressionante o incentivo dado nos países nórdicos, tanto pelo governo como por toda a sociedade local, em relação ao esporte e ao desenvolvimento dos jovens atletas. Essa reportagem é uma ótima base para percebermos o quanto o Brasil ainda tem de melhorar, especialmente em relação à construção de políticas públicas focadas nessa questão, para que os brasileiros possam competir em pé de igualdade com os países desenvolvidos.
20 ago 2021
 
Dani Alvarenga
Reportagem incrível! É realmente triste saber o quanto as meninas do hand lutam para poder praticar o esporte.
17 ago 2021
 
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