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Hannibal Lecter: a dissecação completa
CINÉFILOS
18 dez 2013 | Por Jornalismo Júnior

por Bianca Caballero e Júlia Pellizon
biancasacaballero@gmail.com e juliapellizon@gmail.com

Médico psiquiatra renomado e um sangrento canibal. Esse é Hannibal Lecter, uma personagem que ao mesmo tempo traz o repúdio e o fascínio ao público. A sua história tem um vasto legado, com livros, filmes e até séries de televisão. Assim, Hannibal é um lendário assassino contemporâneo que não deixa de sobreviver na mente das pessoas como um vilão encantador.

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Thomas Harris, jornalista e escritor norte-americano, foi quem criou Hannibal no meio literário. Escreveu cinco livros em sua vida, sendo que apenas um não é sobre o psiquiatra. O primeiro lançado com a temática, Dragão Vermelho, marcou em 1981 o início das histórias com Hannibal. Sete anos depois, em 1988, o autor terminou seu maior sucesso, O Silêncio dos Inocentes, o qual mais tarde teria adaptação cinematográfica. Depois da estrondosa crítica positiva, Thomas só voltou a escrever sobre a personagem em 1999, finalizando a trilogia com Hannibal. Contudo, mesmo com as histórias da personagem com a personalidade bem definida, ainda havia uma lacuna sobre a sua infância e criação para entender o porquê de toda perversidade. Por isso, em 2006, o jornalista publicou o precedente Hannibal – A Origem do Mal.

A sequência ficou tão famosa que logo veio a primeira aventura no cinema, Caçador de Assassinos (Manhunter, 1986) baseado no Dragão Vermelho de Harris. Nesse longa, Hannibal, que se chama Lecktor, aparece poucas vezes e é uma personagem completamente secundária. Interpretado pelo escocês Bian Cox, o filme não foi tão acolhido pela crítica.

A boa impressão ficaria mesmo com O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991), considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, Anthony Hopkins encarna o Dr. Lecter, enquanto Jodie Foster interpreta o papel da agente do FBI, Clarice Starling.

O próximo e último da série só sairia dez anos depois do O Silêncio dos Inocentes, Hannibal. Interessado em mostrar melhor a personalidade do psiquiatra, a narrativa desviou do original de Harris, uma vez que o final foi alterado pelo diretor pela dificuldade de se manter fiel ao original. Embalado pelo retorno do médico canibal, no ano seguinte já houve a estreia da refilmagem de Dragão Vermelho (Red Dragon, 2002), dessa vez com devida atenção à personagem que dá a graça à história.

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Terminada a trilogia com Hopkins, após a divulgação do livro antecessor à série, encaixou-se a última peça cinematográfica, Hannibal – A Origem do Mal (Hannibal Rising, 2007). Passado em território europeu, o filme conta com três idiomas falados e dois Hannibals, um criança e um jovem, mas em sua grande parte é vivido pelo ator francês e modelo Gaspard Ulliel. Embora esteve longe de chegar aos pés do gigante O Silêncio dos Inocentes, a origem de toda a história do assassino amarrou as pontas e tirou muitas dúvidas dos fãs da série que se perguntavam sobre as raízes de Lecter.

Com o fim da sequência literária e cinematográfica, tudo indicava que Hannibal ficaria para trás. Entretanto, eis que a NBC surge com a série adaptada para a televisão, tendo como personagem principal o psiquiatra favorito do público e sua estranha amizade com o agente do FBI, Will Graham, presente no primeiro livro de Harris. As filmagens do piloto começaram em 2012, contudo a estreia em abril deste ano surpreendeu a todos com uma temporada de 13 episódios. Contando com o dinamarquês Mads Mikkelsen como Hannibal e Hugh Dancy como Graham,  a produção do seriado conseguiu reviver bem o enredo e ao mesmo tempo trazer o novo. Fotografia intensa, trilha sonora forte e interpretações secas comprovam que, nos 32 anos da personagem, só se agregou para enriquecer o espírito da história.

Personalidade

Hannibal Lecter é uma personagem curiosa, um médico que pode ser patologicamente diagnosticado como psicopata, cativa ao público de maneira única, uma vez que se existisse na vida real só traria medo à sociedade. Paulo Gaudêncio, psiquiatra e psicoterapeuta da FMUSP, afirma em um documento que a inexistência de valores estimula a inibição da censura. Sendo assim, um psicopata não teria, por exemplo, problemas em cozinhar uma parte do cérebro de uma pessoa e oferecer para ela comer, como fez o médico hollywoodiano.

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Ele é uma amostra de que nem todos os psicopatas são do jeito como se imagina, ou seja, um assassino facilmente identificável pela aparência violenta e assustadora. Na realidade, segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, essa patologia não é característica estritamente de pessoas que comentam assassinatos. A médica ainda afirma a cada 25 pessoas, uma é psicopata.

As pessoas assim caracterizadas possuem uma anomalia no cérebro. Os seres humanos têm uma estrutura responsável por suas emoções, o sistema límbico. Em 2000, o neurologista Ricardo Oliveira e o neurorradiologista Jorge Moll fizeram um exame que comprovou o diferente funcionamento do cérebro dos psicopatas. Na chamada ressonância magnético funcional, os pesquisadores mostraram imagens boas e cenas chocantes para diferentes pessoas. Durante o procedimento, observaram o funcionamento do cérebro e viram que nos indivíduos normais o sistema límbico reagia de formas diversas, enquanto nos psicopatas não havia diferença de reação, ou seja, o sistema não funcionava. Uma cena alegre e uma criança sendo espancada causam a mesma reação, tanto no cérebro quanto no corpo. Em uma cena de Hannibal – A Origem do Mal, cita-se o fato de que Lecter não sofre essas alterações de emoção, observadas, por exemplo, em detectores de mentira.

Muitos acreditam que a personagem ame Clarice Starling, entretanto, a atenção especial que dedica a ela nada mais é do que um ato de exibicionismo. O psicopata a utiliza em função de seus interesses, tendo a agente do FBI como um instrumento de diversão, status e poder.

Entretanto, no último filme da série a visão de Hannibal como um psicopata é contrariada. Nesse, sua maldade é atribuída ao sofrimento gerado pelo cruel assassinato de sua irmã. Porém, sendo pessoas absolutamente frias emocionalmente, os psicopatas não sentem afeto nem por seus próprios familiares e o sofrimento alheio não os comove ou causa qualquer tipo de transtorno.

O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs, 1991)

Primeiro filme da série a ser lançado, é nele que conhecemos o excêntrico Dr. Hannibal Lecter. Preso graças a acusações de canibalismo, o doutor recebe visitas de outra personagem muito importante da série, a agente do FBI Clarice Starling. Investigando o caso de outro serial killer, conhecido como Buffalo Bill, ela acredita que Hannibal pode ajudá-la a entender o perfil psicológico do psicopata. Assim inicia-se entre os dois uma série de conversas repletas de jogos, pistas e enigmas que ajudarão a personagem de Jodie Foster e resolver o caso.

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Aproveitando-se da agitação causada pela investigação e dos privilégios que recebe por colaborar, Hannibal bola uma genial fuga. Chama atenção no filme a relação entre o ex-psiquiatra e a agente do FBI, em meio a suas conversas ele manifesta grande interesse pela vida de sua querida Clarice e faz de tudo para entrar em sua cabeça e descobrir mais sobre ela. O longa é extremamente renomado e foi o terceiro filme na história a receber os 5 principais Oscars (Melhor Filme, Direção, Roteiro, Ator e Atriz).

Hannibal (idem, 2001)

Dez anos após sua fuga, Hannibal anda livre pelas ruas de Florença. Entretanto, Clarice nunca se esqueceu de suas conversas com o psicopata e, após uma série de problemas no FBI, volta a se dedicar a seu caso. Enquanto isso, o milionário Mason Verger, sobrevivente de um cruel ataque de Lecter, está atrás de vingança e usará Clarice em seu plano.

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Ele também usa a ajuda do funcionário da polícia de Florença Rinaldo Pazzi, que, ao identificar o canibal, tenta ajudar a capturá-lo em troca de uma recompensa prometida pelo milionário. Starling tenta avisá-lo para ficar longe de Hannibal, mas Pazzi não o faz e cai em suas mãos.  Mesmo com a mudança da atriz responsável pelo papel de Starling, que passou a ser Julianne Moore, a relação entre a agente e o psicopata permanece forte como no primeiro filme e suas conversas continuam sendo um dos elementos responsáveis por deixar a trama tão intrigante.

Dragão Vermelho (Red Dragon, 2002)

Em uma situação muito semelhante ao anterior, neste longa Hannibal envolve o mesmo cenário, uma prisão feita de vidros blindados, e recebe uma visita de um agente do FBI que o usa como conselheiro em um caso de assassino em série. Basicamente com esse enredo, o diferencial de Dragão Vermelho é no início que mostra a prisão do psiquiatra forense pelo agente especial Will Graham. Depois de situação bastante curiosa: um jantar para em que é servido aos convidados iguarias feitas com carne humana, Will vai até o consultório de seu médico, Lecter, para conversar sobre a sua investigação que o envolve. Em uma cena rápida e intensa, o agente consegue prendê-lo.

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Após alguns anos, Will já está aposentado na carreira, mas é requisitado para um caso de extrema complexidade, no qual envolve um homem apelidado pelo FBI de “Fada dos Dentes”. O assassino segue um ritual em suas mortes, escolhendo a dedo cada vítima e desconfigurando-as. Contudo, apesar dessa índole mortal, Francis Dolarhyde se mostra um vilão com muitos problemas de autoestima e traumas de infância.

Com atores consagrados como Edward Norton e Ralph Fiennes, o longa não conquistou nenhum prêmio de cinema e traz menos aparições de Hopkins, uma vez que a intenção do enredo não é focar na relação entre Will e Hannibal. As características psicológicas do agente não permitem que o doutor entre em seus pensamentos e consiga informações sobre a sua vida, como acontece com Clarice. A intensidade do relacionamento entre os dois protagonistas de Silêncio tornam a história menos técnica e mais pessoal.

Hannibal: A origem do mal (Hannibal Rising, 2007)

No ultimo filme da série conhecemos não o fim da história, mas seu começo. Durante a 2ª Guerra Mundial o pequeno Hannibal, ainda uma criança, é obrigado a ver seus pais serem brutamente assassinados e, ainda pior, a ver os assassinos de seus pais cozinharam e comerem sua irmã mais nova. Em seguida, passa a viver em um orfanato soviético onde ainda sofre com as lembranças daquela terrível noite.

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À procura de seu tio, Lecter foge do reformatório e vai para Paris, onde encontra apenas sua viúva. Conhecida como senhora Murasaki, ele lhe dará muito carinho, além de algumas lições sobre luta. Com sua ajuda começa a estudar medicina, mas não deixa de ser atormentado pelas lembranças daqueles que fizeram mal a sua família. Determinado a se vingar, Hannibal vai atrás e mata cruelmente um por um dos criminosos. É nesse ultimo filme que entendemos melhor a origem do perfil violento de Lecter, entretanto isso é feito de modo a deixar ainda mais contraditórios nossos sentimentos em relação ao enigmático personagem.

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