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A incoerência é protagonista de Happy Hour – Verdades e Consequências
CINÉFILOS
28 mar 2019 | Por Cinéfilos

Problemas no casamento, drama, beleza, e algumas risadas. Essas são certas coisas que o filme Happy Hour – Verdades e Consequências (2019) traz, de maneira não muito coerente. O longa, que tem direção de Eduardo Albergaria, parece não saber se quer ser uma comédia ou qualquer outra coisa.

O enredo se baseia em dois personagens centrais, Horácio (Pablo Echarri) e Vera (Letícia Sabatella). Ele, um professor argentino morando no Rio e ela, uma deputada brasileira. Eles são casados há 15 anos, e a relação não vai tão bem. A primeira cena mostra o casal mandando o filho pequeno para passar as férias com a avó. Os dois se animam com a possibilidade de se aproximarem mais, mas parecem estar distantes demais, algo que é dito na narração de Horácio.

A partir disso, a história começa a mudar. O professor, frustrado com seu relacionamento, se sente cada vez mais tentado por algumas alunas, que se insinuam sexualmente para ele. Aqui, o longa já usa elementos que não combinam. A maneira como as alunas agem não condiz muito com a realidade por suas investidas muito exageradas, beirando à pornografia.

Um dia, Horácio está dirigindo e um homem cai sobre seu carro. É assim que ele acaba desmascarando o Bandido Aranha (Pablo Moraes), que escalava prédios para cometer crimes, e garante que o rapaz seja levado em segurança para um hospital. Todos começam a chamá-lo de herói, e o professor conquista seus cinco minutos de fama.

Quando Horácio vira “herói”, suas alunas aumentam as investidas nele, que não sabe como lidar com a situação [Reprodução]

Com a popularidade de Horácio, um humor mais escrachado vai sendo construído ao longo da trama, com cenas que mostram “fãs” e jornalistas perseguindo-o em todos os locais. Isso contrasta, por exemplo, com o momento em que ele pede a sua esposa para que tenha a liberdade de dormir com outras mulheres, que é mais dramático.

Isso porque nessa cena o casal discute e a blusa de Vera fica acidentalmente suja de vinho. Horácio, como pedido de desculpas, lava a camiseta da mulher e a pendura para secar, manchada de roxo, apesar de todos os seus esforços. Essa cena é tão bonita, que é inexplicável a tristeza de ver, em um mesmo filme, imagens ridículas de um telejornal falando sobre o novo “herói” correndo na praia.

Depois disso, Vera entra em conflito com suas crenças em relação ao casamento. Ela não quer aceitar abrir o relacionamento. O que incomoda um pouco é que em vários momentos, algumas personagens a incentivam a aceitar que seu marido durma com outras mulheres, algo que ela considera traição.

Isso também pode ser sutilmente passado como um conselho para o próprio público do filme, o que é bem desconfortável. A mulher precisa aceitar os desejos do homem? Felizmente, não é o filme inteiro que passa essa mensagem. Vera acaba conseguindo ter mais liberdade à medida que reflete sobre seu casamento e a influência dele em sua vida política, não só como deputada, mas como candidata a prefeita da cidade. Ela acaba tendo que decidir quem quer ser: uma candidata com a imagem perfeita ou simplesmente ela mesma.

Com sua carreira política em jogo, Vera hesita em pedir o divórcio [Reprodução]

Em certo momento da história, Horácio narra uma reflexão sobre o mundo real e o fictício, e sobre como esses dois elementos se misturam em nossas vidas ao ponto de não sabermos mais qual é qual. Talvez seja isso que aconteça no filme, que une elementos sensíveis a outros ridículos. Será que podemos confiar nas narrações de Horácio? Seria todo esse exagero um fruto da percepção de mundo dele? Não são todas as cenas que possuem suas narrações 一 em algumas ele nem aparece 一mas aquelas que possuem se tratam das mais grotescas.

Isso pode deixar um nó em nossas cabeças: o quanto do que é mostrado é real? Talvez esse seja um novo “Capitu traiu ou não Bentinho?”, o que seria genial. Ou talvez não exista nada disso, e o filme seja apenas bem diferente da maioria dos filmes brasileiros, ousando unir o ridículo ao belo. Aliás, o longa não é totalmente brasileiro, mas também argentino. Inclusive essa é a nacionalidade do ator Pablo Echarri, e seu charmoso sotaque é mesmo real.

O enredo do filme é um pouco desconexo, como se a história não evoluísse tanto e apenas fosse se arrastando, uma cena encavalando-se na outra. O personagem principal, Horácio, também não evolui muito, deixando isso mais para Vera. O final é inconclusivo, e quando a história termina, apesar das narrações de Horácio possuírem inúmeras reflexões, não há nada a ser refletido, de tão confusa que se torna a narrativa.

A trilha sonora é bastante repetitiva, mas torna-se interessante com a adição das músicas que os próprios personagens escutam, como a canção “Fala” na voz do grupo “Secos & Molhados”. A interação de Vera com a música colabora para sensibilizar mais o espectador.

Talvez o sentimento que predomina ao assistir o filme seja uma espécie de estranheza ou desconforto, e os espectadores mais sensíveis poderão sentir isso na pele. Isso pois o longa surpreende, quebrando a imagem que passa nas sinopses e trailers e trazendo elementos inesperados para as telas. Em suma, Happy Hour – Verdades e Consequências simplesmente incomoda, de uma maneira que caberá a cada um dizer se é boa e ruim.

O longa estreia dia 28 de março. Confira o trailer:

por Marina Faleiro Caiado
marinafcaiado@usp.br

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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