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HBO Max | ‘Duna’: Um grande filme que decorre de uma grande história

UMA DAS ADAPTAÇÕES MAIS ESPERADAS DA HISTÓRIA DO CINEMA QUE ANUNCIA SUAS PRETENSÕES DESDE O INÍCIO AO ESPECTADOR

CINÉFILOS
25 nov 2021 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br)

*O texto contém spoilers, não que eles importem

 

“Em sua segunda parte, Duna termina de contar a história do livro homônimo de 1965 coroando um dos maiores diretores da atualidade e jovens atores de uma geração em uma realização fiel da obra de Frank Herbert. A terceira e última parte deve ter sua confirmação em breve”

 

O filme Duna (Dune, 2021) chegou ao Brasil no dia 21 de outubro de 2021, depois de ser adiado duas vezes no país. A adaptação do épico space opera é aguardado desde 2017, quando a Legendary Pictures anunciou que Denis Villeneuve estava encarregado do longa. O diretor tem sucessos como Os Suspeitos (2013), O Homem Duplicado (Enemy, 2013), Sicario: Terra de Ninguém (Sicario, 2015), A Chegada (Arrival, 2016) e Blade Runner 2049 (2017) no currículo e já falou publicamente ser fã das obras de Frank Herbert.

Duna (1965) marcou profundamente a história da cultura pop por conta de suas influências em grandes obras, como Star Wars e Game of Thrones. E não é a primeira vez que os livros do autor estadunidense ganharam uma adaptação nos cinemas. Em 1984, David Lynch dirigiu o longa que contava a história de todo o primeiro livro de Duna. Ainda que o próprio diretor fale negativamente da produção, alguns fãs guardam com carinho o retrato dado por Lynch.

 

A adaptação

Não é surpresa que um dos pontos mais fortes de Duna (2021) seja seu elenco extremamente estrelado. O material original de Frank Herbert dá a possibilidade que diversos personagens tenham momentos de destaque. Além de Paul Atreides (Timothée Chalamet), Jéssica (Rebecca Ferguson) e o Duque Leto (Oscar Isaac) têm momentos memoráveis no filme. 

A personagem de Lady Jéssica teve algumas alterações visíveis na adaptação, provavelmente para fazer da Bene Gesserit uma mãe mais relacionável com o público. As alterações não prejudicam a atuação de Rebecca Ferguson, que consegue exercer a presença de Jéssica ao longo da trajetória de Paul. Essa transformação pode, inclusive, ajudar a fazer com que Jéssica se torne uma personagem ainda mais enigmática, agora que o relacionamento entre ela e Paul não será o mesmo.

A fotografia do filme estabelece um contraste de cores evidente entre Caladan e Arrakis. As cores frias presentes nas cenas da primeira hora de filme dão lugar ao calor do deserto. A produção, inclusive, usa de diversos artifícios para demonstrar a imponência, com ângulos abertos e que mostram sempre a extensão da imensidão de areia.

Além da fotografia imersiva e contemplativa, a trilha sonora criada por Hans Zimmer é primorosa em ditar o ritmo dos acontecimentos e sentimentos do filme. As composições são ricas em vozes: das Bene Gesserit, das visões de Paul e da resistência dos fremen.

 

As faixas que tratam da casa Atreides e que aparecem nas batalhas contêm uma gaita de fole. O instrumento de tradição escocesa é historicamente conhecido pela sua presença em guerras. As músicas da casa ajudam a estabelecer que os Atreides não vieram a Arrakis esperando prosperidade, mas colocando-se como um exército pronto para combate. Ao longo da primeira hora de filme, Paul comenta que seu avô praticava touradas por esporte e, no decorrer da história, o busto entalhado de um touro acompanha os Atreides de sua saída de Caladan, até a queda em Arrakis.

Dentre os significados comumente atribuídos ao animal, tem-se força, virilidade. O ato de matar um touro simboliza o domínio de espíritos animalescos, habilidade semelhante à que Paul precisa demonstrar no teste com a Reverenda Madre e o Gom Jabbar.

Em suas 2 horas e 30 minutos de filme, Duna conta fielmente muitos dos acontecimentos do livro. Mesmo assim, a adaptação teve que fazer cortes — e uma parte das partes cortadas sobre a movimentação política em Arrakis daria, por si, um filme de drama/suspense político bem satisfatório.

A primeira hora do longa — e que contém cenas novas — serve para estabelecer e explicar o universo de Herbert.  Essa introdução consegue, ainda que superficialmente dentro do padrão de Duna, transpor o contexto político envolvido na transição do poder de Arrakis e o que aguarda os Atreides.

O filme estabelece algumas prioridades ao escolher comentar alguns tópicos neste filme, e outros que deixa para a segunda parte. Neste, por exemplo, não há uma menção verbal aos Mentats. Essa escolha pode ser entendida pelo fato de Villeneuve querer produzir uma trilogia que trate até o livro Messias de Duna (1969), e, nele, dar destaque aos mentats a partir do desenvolvimento de Duncan Idaho (Jason Momoa).

Esse olhar a longo prazo pensando em uma trilogia que aborda os acontecimentos do segundo livro também podem justificar o destaque maior dado ao personagem de Momoa no filme, além do favoritismo da WarnerMedia com seu Aquaman.

Outra escolha ficou por conta do menor desenvolvimento dos Harkonnen. A aparência do Barão Harkonnen (Stellan Skarsgård) é visceral e ao mesmo tempo racional. A crueldade do vilão e seu desejo no controle da riqueza do comércio da especiaria são bastante tratados no filme. A segunda parte deve aprofundar mais o lado das outras casas do universo de Duna.

Os efeitos visuais do longa seguem uma linha realista, seja no design das naves, escudos e efeitos complementares no deserto. Apesar do estilo aparentemente contido nos efeitos visuais, Duna não deixa de se colocar como uma produção grandiosa em nenhum momento. Isso se confirma nas ambientações, trilhas e, principalmente, no verme de areia. 

A imponência de Arrakis toma outra dimensão com sua interação com Shai-Hulud. A decisão de mostrar o mínimo da criatura mítica dos fremen é extremamente acertada e cria tensão no espectador ao mostrar literalmente uma trilha de areia. Aqui novamente a trilha de Hans Zimmer é triunfal ao ressaltar os pulsos da areia, que atraem os vermes e criam uma noção de respiração de um deserto vivo. 

Personagens de Duna aparecem em frente a uma parede de pedras e utilizando uniformes militares.

[Imagem: Reprodução/Instagram]

Duna não tem final?

Antes mesmo de Duna ser exibido no festival de Veneza, havia muita especulação em meio aos fãs sobre qual seria o final para a primeira parte. A maioria das críticas negativas sobre o longa recaem na forma abrupta e anticlimática do filme de Villeneuve. 

A verdade é que o diretor seguiu o momento mais óbvio do livro para separar as partes do filme. Quando Paul deixa de ser simplesmente Paul Atreides para abraçar seu novo papel em Arrakis. E a direção do filme faz questão de verbalizar, ilustrar e deixar claro na trilha sonora o ponto de virada.

Agora que a segunda parte do filme foi confirmada pela Legendary Studios e por integrantes do elenco, esse risco de uma inconclusão da primeira parte tem menos importância.

 

A situação colocada no final do filme nada mais é do que a mesma sensação de Paul com a incompletude de suas visões. O fato de tudo ser dado ao protagonista o frustra, até mesmo aquilo que não é concretizado. A partir das visões de Paul, o espectador sabe com antecedência muitos elementos e resoluções da história de Duna.

Foi interessante ir ao cinema ver Duna antes do anúncio da renovação. A sensação que fica é de uma certa fé em um filme que tem visões de uma continuação própria — na primeira hora do filme tem-se visões que tratam até mesmo do final do segundo livro de Herbert. A irritação com um aparente final incompleto resulta muito mais da frustração anunciada ao longo de todo filme, em que o espectador é incapaz — assim como Paul — de lidar com a espera e a interrupção de um futuro já sabido.

Antes da estreia da primeira parte, Villeneuve já antecipou que tem planos para que Chani (Zendaya) seja a protagonista. As colocações do diretor anteciparam outra frustração muito grande que foi ver pouco da talentosa atriz na primeira parte de Duna — mesmo com falas da própria afirmando que tinha realizado apenas 4 diárias de gravação. A proposta é interessante enquanto recurso de adaptação, pois permite dar mais força aos fremen e a sua utilização da especiaria e, novamente, visando uma adaptação do segundo livro de Frank Herbert.

Mas o final incompleto do longa poderia ser considerado uma virtude?  Um filme pode ter um final frustrante? A história e os personagens de Duna são capazes de sustentar a narrativa e o interesse do espectador até o final. 

E justamente por essa força que o filme considerado por muitos como “inadaptável” é uma escolha extremamente segura para um grande estúdio. A expectativa para o longa fez com que o primeiro livro de Herbert ocupasse atualmente posição de destaque em listas de mais vendidos ao redor do mundo

 

O elenco escolhido a dedo para a produção também foi uma sacada excelente para conquistar novos públicos. Zendaya e Timothée Chalamet são os rostos de uma nova geração que não cresceu lendo Duna, até o anúncio da nova adaptação. Essa hype retroalimenta ambas as produções. Antes mesmo de ser renovada publicamente, o filme já acumulava a maior bilheteria do estúdio durante a pandemia. Apenas um desastre magistral poderia cancelar a continuação de Duna.

Nota do Cinéfilo: 4,5 de 5. Ótimo!

 

Duna está disponível para os assinantes da HBO Max. Confira o trailer::

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